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Opinião / Evandro Figueira

Opinião: Plataforma ou conteúdo?

Decisão de uma família para acessar um serviço ou outro do streaming passa pelo que é ofertado a ela

Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 29/10/2021, às 06h30 - Atualizado às 06h50

"F1: Drive to Survive" é um exemplo de conteúdo esportivo que a Netflix investe globalmente - Reprodução / Netflix
"F1: Drive to Survive" é um exemplo de conteúdo esportivo que a Netflix investe globalmente - Reprodução / Netflix

Entre os anos 2000 e 2010, a forma de acesso ao conteúdo em vídeo era muito simples, e tínhamos poucas opções. Ou era via TV aberta, ou por meio da TV por assinatura. As plataformas de vídeo on-line ainda estavam engatinhando, e as conexões de banda larga não proporcionavam uma boa experiência. As locadoras de DVD ainda existiam, e a corrida pelos lançamentos era intensa.

Eu me lembro que, nesta época, ao negociar a comercialização de um conteúdo, sentado à cadeira de comprador, tínhamos uma cláusula de “plataformas” em contrato que era muito simples e tinha apenas uma linha. Ou o conteúdo poderia ser explorado em ambas as plataformas (TV aberta e fechada) ou em apenas uma delas, a depender do conteúdo, da negociação e dos interesses de ambas as partes de como melhor adequar aquele acordo.

Aí surgiu o tal do streaming, que naquele momento ainda chamávamos de “TV Everywhere”, que nada mais era do que os próprios canais disponibilizando sua programação linear por meio dos apps em smartphones, tablets e outros aparelhos digitais. E os assinantes só tinham acesso após autenticarem sua conta via site da operadora de TV por assinatura, assim como ocorre até hoje. Nós entendíamos que aquilo era um primeiro passo para a evolução do consumo de conteúdo, mas ainda não enxergávamos o que estava por vir.

Atualmente, a tal cláusula de plataformas chega a ocupar duas ou até três páginas de um contrato de licenciamento de conteúdo, com uma verdadeira sopa de letrinhas e definições específicas em relação àquele conteúdo, como SVOD, AVOD, TVOD, Pay TV, Catch up, Streaming, FTA e OTT, entre tantas outras.

Aqui no Brasil, a primeira grande marca a chegar foi a Netflix, que até o momento não investe, em nenhum território onde atua, em conteúdo esportivo ao vivo, mas não deixa de ter produtos muito relevantes nesta área, como as séries “The Last Dance“, “Sunderland Til I Die“ e “F1: Drive to Survive“.

Atualmente, a concorrência é pelo “bolso” do consumidor. Ele está à procura de serviços que possam atender o gosto de toda a família, e é nisso que a TV por assinatura, com sua infinidade de canais, se apoia. Ela ainda é a única a ter canais específicos para crianças, fãs de esporte, séries, documentários, etc. em uma “única assinatura”.

Hoje, já temos uma gama muito grande de serviços de streaming disponível por aqui. Amazon Prime Video, Paramount+, Star+, HBO Max, Disney+, Globoplay, entre outros. O foco inicial é sempre no conteúdo de entretenimento, por conta da “vida útil” dele dentro da plataforma ser sempre mais extensa. Um episódio de uma série não precisa necessariamente ser assistido no momento do seu lançamento.

Mas Star+ e HBO Max estão ampliando a oferta e já possuem conteúdos esportivos exclusivos. São eventos que não estão disponíveis nos canais lineares de Disney e WarnerMedia, respectivamente, e que tem por objetivo atrair a atenção e o “bolso” do consumidor para essas plataformas.

O conteúdo esportivo é de grande valor para todas as plataformas, já que é o único que traz o consumidor para a tela na hora que o jogo está acontecendo, ou seja, quem “manda” é o conteúdo. Mas, ao mesmo tempo, isso é também um dificultador na questão da tecnologia, pois é mais simples uma tecnologia com milhares de pessoas navegando simultaneamente em conteúdos diversos do que a mesma quantidade de pessoas tentando assistir a um mesmo evento ao vivo.

Com o orçamento doméstico cada vez mais apertado, a tendência é de que o consumidor acabe escolhendo a plataforma de streaming ou TV que gere a melhor relação custo-benefício para sua família, portanto, quanto maior a diversidade, maiores são as chances de assinatura de um serviço.

E no momento desta decisão, o conteúdo também é um fator importante, já que o público procura assinar os serviços sabendo que ali encontrarão o que procuram, seja uma série específica, um campeonato de futebol ou um torneio de tênis. E é aí que entra a importância do fator exclusividade, que sempre esteve presente no mercado de conteúdo, mas que hoje está ainda mais importante nesta estratégia de atração e retenção do consumidor. A exclusividade em determinado produto é o que pode levar a decisão de uma família a pender de um serviço para outro.

Atualmente, a oferta de plataformas é enorme. No entanto, como sempre foi, ainda é o conteúdo que manda.

Evandro Figueira é vice-presidente da IMG Media no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte