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Opinião / Sergio Patrick

Opinião: Por quem e por que torcemos nos Jogos Olímpicos?

Sergio Patrick, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 06/08/2021, às 10h38

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Quando comecei a acompanhar os Jogos vendo a Olimpíada de Los Angeles, em 1984, eram poucos os países que tinham nos seus times tantas feições, tons de pele e sobrenomes diversos como o Brasil. A delegação reunia, por exemplo, sobrenomes de origem dinamarquesa como o Grael, de Torben, italiana como o Dal Zotto, de Renan, e japonesa como o Onmura, de Luis. Hoje, a Itália escala a lituana Indre Sorokaite no vôlei, e o Japão vibra com a tenista Naomi Osaka, de origem haitiana, e com o jogador de basquete Rui Hachimura, que tem o pai nascido em Benin.

Nas últimas décadas, o mundo derrubou fronteiras em nome dos negócios, e as pessoas vieram junto. Pelas redes sociais, jovens são capazes de consumir conteúdo de qualquer lugar do mundo.

Meus filhos têm cinco anos de idade. Nasceram nos Estados Unidos, de mãe americana e pai brasileiro com cidadania italiana. Torceram pelo Brasil na Copa América, pela Itália na Eurocopa e pelos EUA na Olimpíada. Já me disseram que querem competir nos Jogos Olímpicos, só não estão certos de qual bandeira vão carregar.

Limitar os Jogos a uma disputa entre países é desperdiçar a oportunidade de celebrar a humanidade. Boas histórias, quando bem contadas, são capazes de promover identificação independentemente da cor do uniforme. Há tantas outras coisas bonitas envolvidas em competições, como a superação de limites (físicos e mentais), o trabalho em equipe e outros aspectos da vida pessoal dos atletas.

Encarar a ideia de nacionalidade como algo fixo é como tentar segurar água com as mãos. As coisas estão mudando enquanto escrevo esse texto e enquanto você lê. A entrada de novas modalidades para atrair o público jovem como surfe, skate e escalada vai acelerar o processo e transformar a identificação entre fã e atleta em algo que vai muito além das fronteiras nacionais.

Sergio Patrick é jornalista especializado em comunicação corporativa e escreve mensalmente na Máquina do Esporte

Naomi Osaka, japonesa, mas de origem haitiana, revela a nova característica dos Jogos Olímpicos
Divulgação

Imagine there’s no countries. Em inglês, John Lennon escreveu uma de suas músicas mais famosas sobre um mundo sem fronteiras, sem países. É uma ode à união dos povos, à humanidade no seu sentido mais bonito. A frase ecoou no Estádio Olímpico na Cerimônia de Abertura dos Jogos de Tóquio 2020. Pode ser que a ideia de colocar a música ao final do desfile de atletas não fosse exatamente a de provocar o questionamento sobre o conceito de nacionalidade. Mas foi no mínimo interessante ouvir aquele verso com mais de 200 bandeiras representando diferentes nações do mundo todo.

O direito à nacionalidade aparece na Declaração Universal dos Direitos Humanos, documento divulgado em 1948 pela Organização das Nações Unidas (ONU), como algo que não pode ser removido arbitrariamente de um indivíduo. E se os países não existissem, como diz a música? O que exatamente compartilhamos por termos a mesma nacionalidade? O território onde nascemos, com certeza. Muito provavelmente o idioma que falamos. E algo mais profundo, como cultura, tradições e identidade.

Recentemente, houve grande discussão no Brasil quando a seleção nacional enfrentou a Argentina na final da Copa América. Algumas pessoas declararam apoio ao time tradicionalmente rival, e os motivos foram vários, desde falta de identificação com a seleção, até represália à decisão dos atletas de jogar o torneio em meio a uma pandemia e o apoio de alguns dos atletas ao presidente do Brasil. Do outro lado, a defesa da torcida pela seleção brasileira foi associada por alguns a patriotismo ou a algo que não se questiona quando o Brasil está envolvido nesse tipo de competição.