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Opinião / Erich Beting

Opinião: Protestos ingleses são sinal para além do futebol

Erich Beting Publicado em 04/05/2021, às 12h26

Imagem Opinião: Protestos ingleses são sinal para além do futebol
Recado dado por torcedor inglês dentro do gramado de Old Trafford é claro
Reuters

A onda de protestos que tem tomado o futebol inglês levanta, num primeiro momento, uma clara reflexão sobre o fracasso da Super League e do modelo americano de visão comercial do esporte. As análises primeiras apontam para o choque de ideias que existe num ambiente secular como o do futebol. Mas, como bem lembrou Fernando Fleury em sua coluna da última segunda-feira (3), o debate sobre a Super League pode ser o princípio de uma mudança estrutural no futebol.

Até hoje não consegui, sinceramente, ter uma opinião formada sobre tudo o que tem acontecido na Europa nesse instante. Mais ou menos como os protestos brasileiros de junho de 2013, eles mostram uma indignação, mas não necessariamente àquilo que observamos num primeiro momento.

A Super League foi uma espécie de gota d’água que transbordou no poço de indignações dos ingleses com relação à gestão dos clubes e todo o sucesso global da Premier League. Extremamente tradicionalistas e apegados à cultura, os ingleses vêm, há quase 30 anos, sofrendo diretamente com a invasão do capital estrangeiro e a transformação do jeito de ser de seu futebol.

Começou com a Premier League tirando da TV aberta a transmissão de jogos no começo dos anos 90, passou pela chegada de alguns bilionários que compraram primeiro times falidos, como o Chelsea, mas depois colossos tradicionais, como o United, o Tottenham e o Liverpool.

Nos estádios, a "Tragédia de Hillsborough", que em 2019 completou 30 anos, foi usada como motivo para mudar radicalmente a configuração dos estádios britânicos. Lugares marcados, venda antecipada de ingressos, regras extremamente rígidas para punir torcedores brigões. Tudo com o intuito de melhorar o conforto do torcedor e tratá-lo de forma exemplar.

De fora, enxergamos a Premier League como exemplo. E, na Máquina do Esporte, não tem como não usarmos a liga inglesa como um dos modelos a serem implementados para melhorar como um todo a cadeia produtiva do futebol.

O problema é que, vista de fora, a grama do vizinho sempre é mais bonita.

Na ótica do torcedor inglês, a Premier League se transformou num produto pasteurizado. Um processo que começou ainda com Margaret Thatcher e as duras regras para acabar com os hooligans no fim dos anos 80 e começo dos 90, passou pela venda de suas grandes paixões para investidores bilionários e desemboca, agora, em donos americanos que querem usurpar ainda mais a tradição ao propor uma liga fechada de clubes.

Mas, para além do futebol, o que os torcedores questionam, num cenário em que se vislumbra, na Europa, um pós-pandemia, é a própria globalização imposta para nós há cerca de 30 anos, desde o fim da Guerra Fria. O modelo de marcas globais dominantes, lucros incessantes de poucos bilionários, pasteurização de tudo o que consumimos e, principalmente, despreocupação com as diferenças sociais e econômicas, começa a ser colocado em xeque.

O que os ingleses questionam, no futebol, se aplica para o modelo de globalização. Governos enxutos, que não investem na população e não entendem que sua função é reduzir as desigualdades, foram aniquilados durante a pandemia. Os Estados Unidos e boa parte das potências europeias perceberam que a desigualdade socioeconômica é prejudicial para o bom convívio entre todos.

A Premier League globalizada é um estorvo para os torcedores, mas vinha sendo tolerada porque assim era o mundo. A partir do momento que os clubes buscam levar esse conceito para um torneio fechado para apenas 20 times em todo o planeta, a água transbordou do copo.

Os protestos dos torcedores ingleses vão muito além do que foi feito com o futebol. É um grito das pessoas contra um modelo de capitalismo que já nos foi imposto pela sociedade, mas que não poderá invadir a nossa maior paixão.

O alerta está dado pelo futebol. É hora de repensar como enxergamos a vida em sociedade.