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Opinião / Wagner Giannella

Opinião: São seres humanos. Não podemos ser mais humanos com eles?

Wagner Giannella Publicado em 28/07/2021, às 10h52

Naomi Osaka. Tenista japonesa. Ex-número 1 do ranking da WTA, atual número 2 do mundo e com moral suficiente no Japão para ser escolhida como a responsável por acender a pira olímpica dos Jogos Olímpicos de Tóquio 2020.

Simone Biles. Ginasta americana. Cinco medalhas olímpicas (quatro delas de ouro), 25 medalhas em Mundiais (19 delas de ouro) e talvez a principal estrela de uma edição de Jogos Olímpicos após a aposentadoria de Usain Bolt e Michael Phelps.

O que as duas têm em comum? Fama, dinheiro, patrocínios, fãs e tantas outras coisas atreladas a desempenhos esportivos acima da média histórica mundial. No entanto, as duas chamaram atenção nos últimos meses por outra característica que dividiram com o mundo: estão esgotadas e, para falar um português bem claro, de “saco cheio”.

No início de junho, após vencer na primeira rodada de Roland Garros, Osaka desistiu do torneio antes de entrar em quadra para a segunda rodada. Como explicação, desabafou com todas as letras que a decisão foi baseada na sua saúde mental, já que a obrigação de participar de coletivas de imprensa induzem-na a uma elevada quantidade de pressão, estresse e ansiedade, que surgem especialmente quando precisa falar em público. Além disso, revelou grandes períodos de depressão desde que venceu seu primeiro Grand Slam, o US Open de 2018.

Nesta terça-feira (27), menos de dois meses depois, em plena disputa por equipes da ginástica artística feminina nos Jogos Olímpicos de Tóquio, Biles desistiu de fazer parte das titulares americanas após não ir tão bem nas eliminatórias e na prova oficial de salto, levando-se em consideração os padrões estabelecidos para ela desde que se tornou um fenômeno do esporte. Mais tarde, ao explicar o motivo da desistência, a ginasta também citou sua saúde mental. “Preciso me concentrar no meu bem-estar. Há vida além da ginástica. Esses Jogos Olímpicos têm sido muito estressantes. (...) Uma longa semana, um longo ciclo olímpico e um longo ano. Nós deveríamos estar nos divertindo, e esse não é o caso”, disse.

Coincidentemente ou não, no mesmo dia, uma Osaka apática e irreconhecível em quadra já havia sido eliminada nas oitavas de final do tênis feminino. “Eu definitivamente sinto que houve muita pressão”, afirmou.

Duas mulheres. Entre as tantas características em comum, compartilham também o ano de nascimento (1997). Nascida em março, Biles tem 24 anos, enquanto Osaka ainda os completará em outubro. Profissionais extremamente competentes no que se propuseram a seguir em suas vidas. Multicampeãs. Daquelas que alcançaram o status de não precisar provar nada para ninguém. E que não aguentam mais justamente as infinitas cobranças para provar, provar, provar.

O esporte profissional atrai um número imenso de crianças e jovens exatamente pela fama, pelo dinheiro, pelo poder. Mas talvez essas duas mulheres, cada uma do seu jeito, cada uma na sua modalidade, tenham surgido para mostrar o outro lado. Nada glorioso. Nada feliz. Nada sonhado. De que adianta ter tudo, se não tenho saúde mental? De que adianta ter tudo, se não aguento mais? De que adianta ter tudo, se não consigo ser feliz?

Se as exigências físicas estão cada vez maiores no alto nível, as exigências mentais não ficam atrás. No entanto, recuperar um corpo de uma contusão muscular, de um trauma, uma pancada ou até de um osso quebrado parece ser muito mais fácil do que consertar uma mente que não suporta mais. Que não quer mais ouvir falar em performance, em resultado. Que está exaurida. Que pede socorro.

O atleta de alta performance pode não gostar de determinada coisa (como falar em público, por exemplo), pode ter um problema na família, pode simplesmente estar em um dia ruim. Sim, pode. Como qualquer profissional, em qualquer profissão. E isso não deveria ser motivo para cobranças exageradas dos torcedores, dos fãs, da imprensa ou de quem quer que seja.

Antes de qualquer coisa, trata-se de seres humanos.

Será que não está na hora do mundo ser mais humano com eles?