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Opinião / Romulo Macedo

Opinião: Sócio-torcedor: a conexão emocional é muito mais importante que o ingresso

Maioria dos programas de sócio-torcedor do futebol brasileiro precisa de uma reformulação total

Romulo Macedo, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 10/11/2021, às 06h25

Clubes precisam abandonar ideia de transação financeira e valorizar conexão emocional com o torcedor - Reprodução
Clubes precisam abandonar ideia de transação financeira e valorizar conexão emocional com o torcedor - Reprodução

O programa de sócio-torcedor é apontado por muitos dirigentes esportivos como a tábua de salvação dos clubes. Comumente escutamos dirigentes do nosso futebol afirmarem que vem do torcedor a solução para pagamento das dívidas, oriundas de anos de má gestão, que impedem a competitividade do clube. Como se a receita proveniente dos sócios, por meio do programa de sócio, fosse a única maneira de montar um elenco forte.

Será que no final de 2021 o torcedor ainda acredita nesse discurso? Se o torcedor é tão importante para o clube (e de fato é), por que o clube somente o procura na hora de oferecer os pacotes de sócio? As vantagens dos planos de sócio são realmente atrativos para todos ou somente valem a pena para os mais fanáticos, que frequentam todos os jogos? Ainda faz sentido manter o preço do ingresso avulso alto, mesmo com os estádios vazios, para “atrair” os torcedores para uma associação?

Se analisarmos os programas de sócio-torcedor dos clubes brasileiros, chegamos à conclusão de que, em sua grande maioria, não se trata de um plano de associação, e sim da venda de um pacote de ingressos para a temporada (season tickets) turbinados com descontos em lojas e produtos.

Esse modelo de sócio-torcedor ganhou força no país no início dos anos 2000, impulsionado pelo slogan de que o torcedor, além de garantir o seu lugar no estádio, também seria responsável pelo sucesso do seu clube. Não basta torcer, tem que ser sócio. Alguns clubes até obtiveram resultados bem expressivos, mas já se passaram mais de 21 anos desde a criação do primeiro programa de sócio-torcedor de um clube do Brasil e, após todos esse tempo, alguns ainda sustentam uma narrativa semelhante, mesmo que o sucesso do clube nunca tenha chegado nesse período todo.

Se o torcedor é de fato o responsável pelo sucesso do clube, então por que os clubes de futebol ainda preferem se manter distantes do seu torcedor? As belas campanhas de marketing, dos programas de sócio, caem por terra quando escutamos dirigentes criticando as atitudes e diminuindo a importância dos seus próprios torcedores, atitude que é, infelizmente, comum no futebol.

Via de regra, pacotes de season tickets são atrativos para os fanáticos, aqueles que frequentam todos os jogos, e para o aficionado comum que quer garantir o seu lugar no estádio quando tem a percepção de que o jogo vai lotar, e ele pode ficar de fora. Na maioria dos jogos, com os estádios vazios, é natural que o não fanático perca o interesse pelo produto.  

Para voltarem a ter a graça de outrora, alguns programas de sócio-torcedor precisam passar por um remodelamento total. Abandonar a ideia de uma transação financeira, com recompensas em ingressos e descontos, para também valorizar a conexão emocional do torcedor com o seu clube. Oferecer experiências exclusivas ao lado dos seus ídolos e clubes de coração pode ser muito mais interessante, para grande parte da torcida, do que um pacote de ingressos para toda a temporada.

As recompensas também não precisam vir somente na frieza de uma relação monetária, ou seja, quem paga mais caro obtém maiores descontos e tem prioridade nas compras de ingressos. A conexão emocional entre o torcedor e o clube precisa ser reconhecida, valorizada e recompensada.

Imagine se o plano de sócio, por exemplo, passasse a recompensar, com experiências únicas e memoráveis, a assiduidade dos seus torcedores nos jogos, a presença em jogos das divisões de base, o comparecimento em jogos com o clima adverso, assistir partidas como visitante, etc. Esses tipos de reconhecimento valorizam o sentimento e não o dinheiro do torcedor.

Colocar a torcida no centro das tomadas de decisões, estabelecer um diálogo honesto e franco, trazer os torcedores para dentro dos clubes e criar experiências e produtos que façam sentido para todos, são atitudes que, de fato, podem colocar os clubes novamente no rumo das conquistas e glórias.

Romulo Macedo é sócio-fundador da Fan Experience 360 e escreve mensalmente na Máquina do Esporte