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Opinião / Direitos de transmissão

Opinião: Sozinha, Lei do Mandante não muda nada

É preciso que os players do mercado entendam que a melhor estratégia é a força do coletivo

Evandro Figueira, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 22/09/2021, às 11h00

Com nova lei, futebol brasileiro fica alinhado com os maiores mercados do mundo - Reprodução
Com nova lei, futebol brasileiro fica alinhado com os maiores mercados do mundo - Reprodução

A Lei do Mandante foi finalmente sancionada na última sexta-feira (17) pelo presidente Jair Bolsonaro. Existia uma enorme expectativa no mercado para que isso acontecesse e, consequentemente, a nova lei pudesse modificar e muito o mercado de direitos de transmissão aqui no Brasil.

É verdade que, agora, com os direitos de uma partida pertencendo à equipe mandante, o futebol brasileiro está alinhado com os maiores mercados do mundo. Mas isso não basta. A questão principal é que o nosso futebol ainda não se alinhou em outro aspecto importante da negociação de direitos de transmissão: a venda coletiva de direitos.

Vamos dar um passo para trás para entender um pouco melhor.

Os direitos de quase todos os campeonatos realizados no Brasil são vendidos coletivamente, ou seja, o promotor do evento, seja uma Federação Estadual, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) ou mesmo a Confederação Sul-Americana de Futebol (CONMEBOL), detém os direitos e pode comercializá-los em um pacote com todos os jogos, independentemente de quais times estão na disputa. O único torneio que tem suas vendas discutidas de forma individual, clube a clube, é o Campeonato Brasileiro, e isso passou a acontecer após a implosão do Clube dos 13 em 2011. Até então até o Brasileirão era vendido coletivamente.

A partir de agora, a Lei do Mandante vem apenas para dar mais autonomia para que os clubes negociem os seus direitos. Com a nova lei, qualquer clube pode efetivamente fazer o que bem entender com os seus direitos sem depender de qualquer outro clube para fazer negócio. Até a semana passada, antes da sanção presidencial, um parceiro de mídia só poderia exibir determinado jogo se tivesse acordo com as duas equipes envolvidas na partida. Ou seja, um clube não conseguia fechar um acordo com nenhuma emissora ou plataforma de streaming sem o aval do outro clube. Como exemplo, podemos citar que, antes do acordo coletivo fechado pelos clubes para a venda dos direitos internacionais, o Flamengo chegou a negociar com alguns clubes adversários para vender jogos em que estava envolvido a uma emissora em Portugal, já que na época o técnico do clube era o português Jorge Jesus. Ele, Flamengo, baseado na lei vigente à época, não poderia vender sem o aval do seu adversário. Portanto, a negociação era jogo a jogo.

Se a Lei do Mandante já estivesse vigente naquela época, o Flamengo poderia ter vendido os seus 19 jogos como mandante sem precisar negociar nada com nenhum dos seus 19 adversários ao longo do campeonato.

A nova lei elimina, sim, mais uma das famosas “jabuticabas” que só encontramos aqui no Brasil. Porém, todos os players do mercado precisam entender que a nova lei pode piorar e muito a situação do Campeonato Brasileiro quando o assunto é a comercialização dos direitos de transmissão, caso os clubes queiram se aproveitar desta maior autonomia e buscar fechar os seus acordos individualmente sem se preocuparem com o coletivo.

Trabalho nesta área de negociação de direitos de transmissão há quase 20 anos, e hoje, aqui na IMG, representamos os direitos de grandes eventos esportivos de várias modalidades esportivas como tênis, vôlei, basquete, golfe, atletismo, rúgbi, entre outros. Por isso, posso afirmar, sem medo de errar, que se não tivéssemos os produtos “inteiros” para comercializar com os nossos clientes, ou seja, todos os jogos de todos os times, jogadores, seleções, etc. daquele determinado evento, não conseguiríamos vender estes direitos pelo valor que cada um merece. O parceiro de mídia busca sempre a garantia de que o melhor daquele torneio poderá ser exibido na sua tela, e não ter esta garantia pode reduzir e muito o montante que este player estaria disposto a investir naquele evento.

Além disso, novos players só entram em um mercado e aceitam investir em produtos premium se têm a garantia do que estão comprando. A Amazon entrou no Reino Unido adquirindo um pacote de eventos de tênis com a garantia de que poderia exibir todos os jogos que qualquer jogador disputasse naquele torneio. O DAZN fez um investimento maciço na Serie A italiana porque teria exclusividade de sete jogos por rodada do torneio, com autonomia para escolher qualquer jogo, independentemente de qual clube estaria em campo. Os investimentos de bilhões de dólares que Fox, Disney, CBS, NBC e Amazon fazem anualmente na NFL é pelo fato de que as regras são claras e cada um sabe exatamente o que está comprando. De novo: independentemente de qual time está jogando e em qual horário.

A Premier League tem um acordo com a NBC nos Estados Unidos que vale, hoje, algo em torno de US$ 150 milhões por temporada. Como é uma competição consolidada, os clubes já têm o seu apelo local, e os direitos são vendidos coletivamente. Existe a expectativa de que o processo de renovação que vai ocorrer ainda este ano possa até duplicar o valor destes direitos no mercado americano por conta da forte concorrência e interesse de outros players por lá!

Concorrência, aliás, é outro ponto que deve ser destacado. O interesse de vários players é o que empurra o valor de um produto para cima, a tal "lei da oferta e procura". E para atrair esta concorrência, seja ela por meio de players que já atuam em um determinado mercado, mas não investem em esporte, ou até mesmo novos entrantes naquele mercado, o processo de venda tem que ser transparente, com regras iguais para todos, e discussões que foquem no coletivo com garantia de entrega de um bom produto final.

Como eu falei lá no início, a Lei do Mandante não vai mudar nada sozinha. Precisamos que os players do mercado percebam a força que têm e entendam também que a melhor estratégia não é a força individual de cada um, mas sim a força do coletivo. É isso que criará valor para o produto que eles têm para vender.

Evandro Figueira é vice-presidente da IMG Media no Brasil e escreve mensalmente na Máquina do Esporte