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Opinião / Ivan Martinho

Opinião: Troféu também se conquista quando ninguém está olhando

Temporada 2021 do surfe foi marcada por uma série de complicações vinculadas à pandemia

Ivan Martinho, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 08/10/2021, às 09h32 - Atualizado às 09h34

Enquanto atletas surfavam, trabalho por trás das câmeras foi incansável na temporada 2021 da modalidade - Reprodução
Enquanto atletas surfavam, trabalho por trás das câmeras foi incansável na temporada 2021 da modalidade - Reprodução

Se você leu o título desta coluna deve estar pensando que esse mês vou falar da importância da disciplina, do treinamento e do preparo prévio dos campeões que são primordiais para que desempenhem bem quando estão se apresentando na frente de milhares de pessoas, correto?

Tudo isso é verdade e conhecido, mas meu objetivo aqui é falar sobre outro tipo de campeões, aqueles resilientes, incansáveis, otimistas, flexíveis e apaixonados que trabalham para que os grandes eventos possam acontecer, que fazem com que o palco esteja sempre pronto para que as  estrelas possam brilhar, encantar o mundo e fazer história.

No último dia 14 de Setembro, concluimos com muito sucesso a temporada 2021 do Championship Tour, da World Surf League (WSL), que consagrou Gabriel Medina e Carissa Moore como campeões. Foram conquistas históricas em uma grande festa em Trestles, na Califórnia, que atingiu recordes de audiência e foi o dia mais assistido do surfe em toda a história da modalidade.

Quem trabalha com eventos conhece a sensação de concluir com sucesso uma missão que depende de tantas variáveis. Em um ano de pandemia global, com eventos que acontecem em várias partes do mundo e restrições migratórias, as tais variáveis se multiplicam. Ah, e adicione aí que no nosso negócio não adianta adiar simplesmente o evento, pois precisamos garantir que naquele mesmo local, na nova data proposta, teremos ondas de qualidade para realizar a etapa.

Depois de um ano de 2020 com eventos especiais nas regiões, mas sem tour, começamos a temporada 2021 em dezembro de 2020, no Havaí, operando sob um forte protocolo de segurança contra a Covid-19. Ainda assim alguns executivos do time presentes no evento testaram positivo para a doença, e tivemos que suspender a realização por dois dias. Ao mesmo tempo, um ataque de tubarão em Honolua Bay antes da etapa feminina fez com que tivéssemos que mudar a prova para Pipeline, Oahu, levando as mulheres a competir nas ondas mais famosas do mundo pela primeira vez.

Etapa realizada com sucesso, veio o recesso de Ano Novo e, com ele, inúmeras negociações sendo feitas com o governo australiano para conseguirmos realizar quatro etapas no país que, àquela altura, tinha suas fronteiras absolutamente fechadas. Montamos uma verdadeira operação de guerra, “learning bydoing” (aprendendo fazendo), já que o assunto era novo para muitos de nós. Teve avião fretado partindo de Los Angeles com atletas e staff, time de operações reduzido, recepção em Sydney, na Austrália, com direito a escolta do exército local, 14 dias fechados dentro dos quartos de um mesmo hotel com testes periódicos para garantir que a bolha imposta pelo governo australiano não seria quebrada, presentes, comidas diversas, atividades para fazer com que o tempo passasse mais rápido...

Até que pronto! Fomos autorizados a entrar na Australia e promover as quatro etapas com sucesso, No entanto, todos os atletas não australianos acabaram ficando quase 90 dias longe de suas casas.

A essa altura, tínhamos a preocupação com a etapa brasileira de Saquarema. Adiamos de junho para agosto e seguimos monitorando de perto a situação, com um protocolo de bolha pronto para fazer o evento com praia fechada. Apesar disso, finalmente acabamos tomando a difícil decisão de não realizar a etapa por conta da situação da pandemia naquele momento.

Em junho, apesar das dificuldades de imigração nos Estados Unidos, houve uma etapa com a qual não precisamos nos preocupar com relação às ondas, já que o local era o WSL Surf Ranch, com data e horário marcados. Estávamos ás vésperas de Tóquio 2020, com uma grande expectativa do que ainda estava por vir e cuidado redobrado para não testar positivo, já que isso poderia impossibilitar a viagem para Tóquio.

O surfe estreou em Jogos Olímpicos com grande sucesso em todo o mundo, com três das dez maiores audiências do SporTV sendo alcançadas em baterias da modalidade. E, para fechar com chave de ouro, Ítalo Ferreira se tornou o primeiro medalhista de ouro da história do esporte, deixando o Brasil em festa.

Agosto foi o mês de Barra de La Cruz, no México, um paraíso com ondas localizado no estado de Oaxaca, que não recebia uma etapa do Championship Tour há 15 anos. Novamente trabalhamos com protocolo de bolha, todos hospedados em um hotel que ficava há 45 minutos do evento, negociações longas com o governo local e a tensão de acompanhar os números da pandemia crescendo, com lockdowns sendo decretados em cidades vizinhas quando já estávamos lá.

Essa seria a penúltima etapa do tour antes do Tahiti, que definiria os cinco classificados entre os homens e as cinco classificadas entre as mulheres para o WSL Finals. No entanto, quando estávamos no terceiro dia de competição no México, foi decretado lockdown no Tahiti, ou seja, última etapa cancelada. A partir dali, a etapa mexicana passava a definir os finalistas que iriam para Trestles. Euforia de uns, tristeza de outros, além de uma série de dúvidas e esclarecimentos. Foi necessário um trabalho de equipe impressionante.

Por fim, hora do WSL Finals. Grande expectativa, algumas críticas sobre a “justiça” do formato, time convicto e muita coragem. No final das contas, tivemos o dia em que o maior número de pessoas assistiu a uma bateria de surfe ao mesmo tempo em toda a história. As imagens mostraram a comemoração dos atletas campeões, mas a festa dos campeões dos bastidores depois da temporada mais agitada de todos os tempos talvez tenha sido ainda maior.

Dizem que mares calmos não fazem bons marinheiros, certo? A verdade é que marinheiros eu não sei, mas surfistas tenho certeza que não! Aloha!

Ivan Martinho é CEO da World Surf League (WSL) na América Latina e escreve mensalmente na Máquina do Esporte