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Opinião / Sergio Patrick

Opinião: Um mero sinal

EUA usam plataforma global dos Jogos de Inverno para chamar a atenção do mundo para a violação de direitos na China

Sergio Patrick, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 09/12/2021, às 06h58 - Atualizado às 07h00

Rainha Elizabeth foi uma das estrelas da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 - Divulgação / Londres 2012
Rainha Elizabeth foi uma das estrelas da Cerimônia de Abertura dos Jogos Olímpicos de Londres 2012 - Divulgação / Londres 2012

No primeiro sábado dos Jogos Olímpicos de Londres, em 2012, saí do estúdio do Bandsports de forma casual numa manhã ensolarada na capital inglesa para buscar o café da manhã da nossa equipe. Era o cardápio de sempre, bolinhos de chocolate e cafés, nada muito saudável ou complicado. No caminho até o mercadinho, parei na calçada, esperando para atravessar a rua em frente ao prédio onde estávamos hospedados.

Atravessar a rua em Londres é sempre uma aventura para quem mora no Brasil (ou nos EUA). Apesar dos gigantescos avisos pintados no chão, o cérebro teima em olhar para o lado errado. Ou seria o lado certo? Nesse dia, não foi necessário me preocupar com isso. Os veículos que se aproximavam o faziam de forma nada discreta.

Logo que vi as motocicletas e as sirenes percebi que se tratava de alguma autoridade, de alguém importante, o que é algo relativamente comum durante os Jogos, principalmente no primeiro fim de semana. Quando o carro principal passou na minha frente, vi uma das fisionomias mais fáceis de se reconhecer no mundo.

A bandeira amarela e vermelha no topo do carro me confundiu por alguns minutos. Nada que resistisse a uma rápida pesquisa. A senhora sorridente dentro do que imagino fosse um Rolls Royce era mesmo a Rainha Elizabeth, a caminho das piscinas para acompanhar provas de natação. Poucas coisas representam a identidade nacional tão bem quanto uma delegação nos Jogos Olímpicos. E os governantes do mundo todo sabem disso. É importante torcer e é conveniente tirar fotos com medalhistas alegres.

Nos Jogos de Moscou, em 1980, e de Los Angeles, em 1984, Estados Unidos e União Soviética comandaram seus aliados em boicotes que marcaram para sempre a história dos Jogos. Eram outros tempos, nos quais americanos e soviéticos não circulavam normalmente por território inimigo. Muitos atletas tiveram negada a oportunidade de disputar uma Olimpíada no auge da forma. Alguns duelos históricos foram perdidos para sempre.

O Comitê Olímpico Internacional (COI) gosta de dizer que não tolera interferência política nos comitês olímpicos nacionais. Ao mesmo tempo, agradece apoio governamental para viabilizar as estruturas das cidades que recebem as competições. E aceita a participação de países como China, Coreia do Norte e Arábia Saudita, para citar apenas alguns, onde é impossível separar qualquer atividade do Estado.

Nos Jogos de Inverno de Pequim, em 2022, os EUA usarão outro tipo de boicote, o diplomático. É um protesto contra as violações aos direitos humanos pelos chineses em casos como a perseguição à minoria muçulmana no oeste do país, a repressão a manifestações pela democracia em Hong Kong, e até o desaparecimento da tenista Shuai Peng depois de denunciar abuso sexual por um membro do Partido Comunista.

O humorista sul-africano Trevor Noah, que comanda o “The Daily Show” aqui nos EUA, brincou que a China deve estar comemorando o anúncio e que, se os EUA quisessem punir mesmo os chineses, deveriam mandar o maior número de diplomatas e políticos para os Jogos. Para que serve então um boicote desses?

Sanções são inviáveis na relação com um parceiro comercial tão importante. Como há pouco de prático a se fazer com problemas tão grandes e complexos, a saída do governo americano é levantar o assunto e talvez levar outros países alinhados ideologicamente a seguir o gesto. Até, quem sabe, constranger patrocinadores a evitar a associação de suas marcas ao evento e ao país que o receberá. E, para isso, como para outras tantas coisas, uma plataforma como um grande evento esportivo global é uma excelente oportunidade.

Sergio Patrick é jornalista especializado em comunicação corporativa e escreve mensalmente na Máquina do Esporte sobre o esporte nos Estados Unidos