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Opinião / Samy Vaisman

Opinião: Vamos falar mais sobre cultura esportiva

Temos de ter conhecimento e empatia com a história do esporte para poder criar uma cultura de esporte no país

Samy Vaisman, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 24/11/2021, às 06h55 - Atualizado às 06h59

Muitos se lembram de Marcelo Negrão dar o saque de ouro do Brasil em Barcelona 1992, mas qual foi a parcial daquele set? - Divulgação
Muitos se lembram de Marcelo Negrão dar o saque de ouro do Brasil em Barcelona 1992, mas qual foi a parcial daquele set? - Divulgação

Estava pensando sobre o que escrever quando li o artigo da minha amiga Manoela Penna, publicado aqui na Máquina do Esporte no começo da semana. O texto começava com uma provocação e decidi fazer a mesma pergunta abrindo a minha coluna.

"Pare um segundo e pense: o Brasil tem cultura esportiva?" Ou melhor. O brasileiro tem cultura esportiva? Cultura tem a ver com conhecimento, com memória, costumes, hábitos, história...

Então cultura esportiva pode ser a prática, o interesse, a disseminação e a massificação da prática esportiva, especialmente na juventude, por embutir mais do que o suor na camisa, pelo conceito de vida saudável e por entregar valores, como citou Manoela. Mas também é conhecimento e empatia com a história do esporte (o resgate, a preservação, a manutenção e a memória).

Em conversas com alguns amigos que já passaram dos 40/45 anos e que consomem esportes no dia a dia, pedi que indicassem cinco momentos marcantes do esporte em geral. Que citassem qualquer momento.

Com raras exceções, a maioria se lembrou do saque de Marcelo Negrão na conquista da "Geração de Ouro" em Barcelona 1992, do "aviãozinho" de Vanderlei Cordeiro de Lima na chegada da maratona em 2004 após ser atropelado pelo padre irlandês maluco, de Bebeto "embalando o filho" após marcar contra a Holanda na Copa do Mundo de 1994, de Guga deitado no coração desenhado no saibro de Roland Garros, Ayrton Senna exausto no pódio após vencer em Interlagos em 1991 e da conquista de Oscar, Marcel & Cia. no Pan-Americano de 1987.

Esses são apenas alguns exemplos, claro. Há muitos outros.

Mas isso não se chama cultura esportiva. Isso pode ser considerado memória afetiva.

Sim, momentos ligados à emoção, às lembranças e que, não necessariamente, guardamos por completo: poucos vão lembrar da parcial do set do vôlei, ou do placar do set derradeiro do Guga, do minuto do gol do Bebeto, de quem foi o segundo naquela prova na F1, do campeão da maratona.

A esse mesmo grupo de amigos, fiz outras provocações.

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Rebeca Andrade ganhou ouro e prata em Tóquio 2020

Quantas medalhas o Brasil conquistou em Tóquio? Ninguém acertou (21). Pedi então apenas nomes dos medalhistas de ouro. A maioria se lembrou de Rebeca (ouro e prata) e Rayssa (prata). E só. E olha que tem apenas pouco mais de 100 dias que os Jogos, repletos de simbolismos e significados, marcados por histórias e, definitivamente, marcados na História, chegaram ao final.

Depois, perguntei sobre os Jogos Rio 2016. Foi um desastre. E faz pouco mais de cinco anos que o Brasil foi sede dos Jogos.

É necessário, mais do que isso, é fundamental preservar a memória. As culturas esportivas (prática e conhecimento) precisam andar lado a lado para que nossos ídolos sejam sempre lembrados, tenham seus feitos eternizados e sigam inspirando as pessoas. Marcas, mídias e entidades precisam empenhar esforços para manter vivos esses momentos, para evitar o abismo de desinteresse que surge após a euforia dos Jogos.

Um bom exemplo foi dado pelo Comitê Olímpico do Brasil (COB). No início do mês, a entidade inaugurou uma pequena exposição com itens dos Jogos do Japão, com diversas peças usadas pela delegação brasileira em competições, inclusive na conquista de medalhas.

Que esta ação seja um estímulo para mais iniciativas deste tipo, que as marcas que apoiam o esporte, imprensa e confederações/federações colaborem para que a memória não se apague com o tempo.

As culturas esportivas agradecem.

Samy Vaisman é jornalista, sócio-diretor da MPC Rio Comunicação (@mpcriocom), cofundador da Memorabília do Esporte (@memorabiliadoesporte) e escreve mensalmente na Máquina do Esporte