Opinião

Opinião: Venda centralizada é a única boa notícia do Campeonato Carioca

por Erich Beting
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O maior mérito do Cariocão 2021 é fazer, finalmente, uma venda centralizada dos direitos de mídia do torneio.
Crédito: Reprodução
O maior mérito do Cariocão 2021 é fazer, finalmente, uma venda centralizada dos direitos de mídia do torneio.
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Há vida fora da Globo? Logicamente que existe. Mas o futebol brasileiro precisará ver o que acontecerá com o Campeonato Carioca para entender o risco que significa, hoje, não estar próximo do maior parceiro comercial que existe no esporte no país.

O maior mérito do Cariocão 2021 é fazer, finalmente, uma venda centralizada dos direitos de mídia do torneio. Outro mérito foi buscar gente especializada nesse tipo de negócio para coordenar esse modelo. A venda na base do cada um por si que vigorou até o ano passado fez com que clubes e Ferj deixassem de arrecadar em 2021, pelo menos, R$ 70 milhões.

Não, você não leu errado. Essa é a diferença que deve existir de arrecadação do Carioca-2021 para o Carioca-2020, que terminou com uma batalha judicial entre clubes e Globo após o Flamengo implodir o modelo de venda que reinava até então.

Até o ano passado, os times recebiam R$ 120 milhões da Globo pela cessão exclusiva dos direitos de mídia do Campeonato Carioca. O Flamengo, argumentando que a emissora não repassava aos clubes o que faturava com o canal por assinatura Premiere, decidiu se colocar contra a empresa. Pediu R$ 81 milhões pelos direitos. Após a recusa da Globo, o clube não aceitou receber o mesmo valor pago a Botafogo, Fluminense e Vasco (R$ 18 milhões), não assinou o contrato e causou o apagão das transmissões esportivas durante o Carioca-2020.

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Depois, com a pausa forçada pela pandemia, o clube aproveitou-se de seu bom trânsito dentro da presidência da República e convenceu Jair Bolsonaro a editar Medida Provisória que acabava com os direitos dos visitantes na venda dos direitos de transmissão de eventos esportivos. Isso abriu espaço para que as semifinais e finais do estadual tivessem a transmissão apenas do time mandante. Foi assim que o Flamengo foi atrás de YouTube, Mycujoo e SBT para transmitir seus jogos. Sem dúvida o clube faturou com isso, mas muito menos do que teria ganho com a Globo pelo campeonato.

Já o restante dos clubes do Rio perdeu. Não naquele momento, mas a conta chegou agora. Os direitos de transmissão que valiam R$ 54 milhões aos times menores do Rio vão valer no máximo isso, sendo que esse total terá ainda de ser dividido com os quatro grandes.

É importante frisar, porém, que a solução que a Ferj encontrou para fazer a venda de direitos de transmissão é ótima. A entidade está, finalmente, fazendo o certo. Ela é quem produz toda a mídia relacionada ao torneio e passa a ter muito mais controle e poder de negociação sobre o produto. A mídia é apenas a intermediária que levará essa transmissão para a casa do torcedor.

O problema é que, não fossem a ganância e o egoísmo do Flamengo em 2020, e a Ferj poderia aproveitar o ano de 2021 para estruturar essa mudança de chave a partir do próximo ano. Num cenário pós-vacina, com a economia mais aquecida, provavelmente os ganhos seriam maiores com a venda dos direitos de transmissão.

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No atropelo, sem planejamento, o resultado é esse. Uma briga judicial em curso com a Globo e, no curto prazo, menos da metade do dinheiro assegurado com a mídia do torneio. Ao longo dos anos, os times do Rio vão ganhar, e muito, com a adoção das medidas que acabaram de tomar. Mas para isso, não precisavam ter detonado a granada justamente no colo de seu maior parceiro comercial.

O futebol parece encantado com a falsa ideia de que a vida fora da TV é mais rica do que junto dela. Não conseguiu entender que, para faturar mais com a mídia, não tem de necessariamente romper o acordo que tem com os parceiros. Essa é a boa notícia que o Campeonato Carioca traz. Mas não precisava ter passado pela enorme crise de 2020 para se chegar a isso.

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