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Opinião / Pandemia

Opinião: Volta da torcida parece ser mais problema do que solução

Desempenho financeiro dos clubes com torcedores nos estádios tem sido muito fraco

Erich Beting Publicado em 17/09/2021, às 08h48

Torcedor do Atlético Mineiro durante jogo contra o River Plate pela Libertadores - Divulgação / Mineirão
Torcedor do Atlético Mineiro durante jogo contra o River Plate pela Libertadores - Divulgação / Mineirão

As cenas lamentáveis dos bastidores na discussão sobre a presença ou não de torcedores nos jogos da Série A do Campeonato Brasileiro mostraram, mais uma vez, o que há de pior em nossos dirigentes esportivos. A correria para cada um defender seus próprios interesses, em detrimento de um bem coletivo, é só mais um dos episódios que mostram quão improvável é ter a união dos clubes e dos cartolas em torno de algo bem maior do que eles: o futebol.

Como acreditar nisso é também ter convicção de que existe a Fada dos Dentes, Papai Noel e Coelho da Páscoa, então o melhor é tentar se ater a fatos para racionalizar sobre a volta dos torcedores aos estádios.

Ao analisarmos os primeiros resultados que alguns grandes clubes têm obtido, a pergunta se faz necessária: os dirigentes estão preparados para o custo da volta das torcidas aos estádios?

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Maracanã teve menos de 7 mil pessoas - Foto: Divulgação

Os dois jogos do Flamengo pela Libertadores no Mané Garrincha não conseguiram esgotar os ingressos. Nos dois casos, o tíquete médio beirou exorbitantes R$ 180. Na polêmica partida da Copa do Brasil contra o Grêmio, foram menos de 7 mil pessoas no Maracanã. O jogo estava ao vivo na TV aberta, e os ingressos iam de R$ 100 a R$ 900.

Na Série B, o Cruzeiro adotou uma nova tática após ter prejuízo na primeira partida com torcida. Deixou o Mineirão, onde pagou mais de R$ 100 mil para jogar, e foi para a Arena do Jacaré, rebatizada de Arena Buser pelo patrocinador do clube, que investiu em melhorias para o estádio poder abrigar as partidas. Até agora, o clube colocou menos de 5 mil pessoas por jogo. Mas tem conseguido um lucro mínimo com a operação.

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O único caso até agora plenamente satisfatório na lista de “volta da torcida” foi o jogo entre Atlético Mineiro e River Plate, pelas quartas de final da Libertadores. Os 17 mil ingressos colocados à disposição do público foram vendidos, mesmo com um preço médio de R$ 157. Há algumas razões para o sucesso da operação, que rendeu uma boa grana a Galo e Mineirão. O jogo foi transmitido apenas pela CONMEBOL TV, o Atlético está reencontrando um ótimo futebol e empolgando o torcedor, e a partida valia uma vaga na semifinal da Libertadores.

A realidade da volta da torcida é que os clubes, por mais que acreditem ser fundamental levar o torcedor para o estádio pensando em aumento de receita de sócio-torcedor, derretida desde março de 2020, não têm sabido qual a medida certa para a equação valor do ingresso x atratividade do jogo x ida do público ao estádio.

É hora de o dirigente pensar, primeiro, no que o torcedor quer, não no que o clube precisa.

Isso faz parte da realidade do futebol brasileiro desde sempre, mas na realidade em que vivemos, é surreal ver que as cabeças “pensantes” não mudaram suas convicções.

Antes de pensar em voltar o torcedor para o estádio, o futebol deveria saber o que ele realmente quer. Foi assim que americanos e europeus fizeram antes de abrir a porta para as pessoas entrarem.

Voltar a torcida para o estádio sem antes pensar como fazer isso é pedir para a solução virar problema.