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Opinião / Opinião

Pelé podia ser ainda maior fora do campo

Duda Lopes Publicado em 23/10/2020, às 11h45

Imagem Pelé podia ser ainda maior fora do campo

É difícil apontar um atleta que, dentro do esporte, tenha sido mais significativo que Pelé. O brasileiro foi, provavelmente, o primeiro grande astro global dos gramados e até hoje encanta os fãs do futebol nas mais diversas partes do mundo. Ele conseguiu transformar o modo como o atleta, o futebol e o próprio Brasil são vistos. Mas não deixa de ser curioso como, fora das quatro linhas, ele nunca tenha usado sua força politicamente.

Vale a ressalva que isso não é uma crítica. Primeiro porque não é papel de ninguém se colocar no lugar do outro nessas questões; cada um sabe o que é relevante para si mesmo. Segundo porque seria absolutamente natural que Pelé tivesse receio de fazer o contrário e, talvez, perder o posto de Rei. Ninguém pode julgá-lo por preferir seguir um caminho mais seguro na carreira.


Ainda assim, vale a reflexão: como seria a imagem de Pelé caso tivesse se posicionado de maneira diferente?

Historicamente, Pelé foi situação. A ponto de trocar elogios e ser usado por Médici para promover o Governo; o militar foi o presidente no período mais duro da ditadura brasileira. Bem mais recentemente, demonstrou apoio a Bolsonaro. 


Mais estranha é sua relação com o racismo. A discriminação fez parte de sua vida, do apartheid silencioso na seleção dos anos 1950 aos apelidos jocosos que o cercaram, inclusive por parte da imprensa. Pelé foi inúmeras vezes vítima do preconceito profundamente enraizado no Brasil. Mas raramente se posicionou sobre isso. Na última década, chegou a criticar o goleiro Aranha por ter se irritado com cânticos racistas.

Ao longo de sua carreira, a pressão certamente foi pelo comportamento discreto no âmbito político. Hoje, seria estranho. Ídolos atuais usam e abusam de suas influências para mudar as estruturas do mundo. Basta para isso lembrar de posicionamentos recentes de Lewis Hamilton, LeBron James e Naomi Osaka. Na época de Pelé, era mais difícil, mas não foi o suficiente para calar nomes como Muhammad Ali e os Panteras Negras Tommie Smith e John Carlos.


Pelé é, acima de tudo, membro de um país historicamente aristocrático, onde atleta só é bem-visto dentro do seu próprio universo. E isso é algo válido até hoje, com constantes críticas a quem "mistura" política com esporte, como se houvesse hora para lutar por direitos. O direito de manifestação é o único grande legado que o "Atleta do Século" não deixou em 80 anos de vida.