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Outros / Marco Antônio La Porta

Opinião: Podemos mais

A mil dias dos Jogos Olímpicos de Paris, Marco Antônio La Porta fala sobre os desafios olímpicos do Brasil

Marco Antônio La Porta, especial para a Máquina do Esporte Publicado em 30/10/2021, às 11h41 - Atualizado às 11h57

Marco Antônio La Porta posa com aros olímpicos e a mascote do Time Brasil - Divulgação / COB
Marco Antônio La Porta posa com aros olímpicos e a mascote do Time Brasil - Divulgação / COB

Completamos mais de dois meses do encerramento dos Jogos Olímpicos de Tóquio e estamos a mil dias de Paris 2024. Tempo suficiente para analisarmos, com calma, longe do calor das conquistas, o resultado obtido e prospectar o futuro. Muitas análises colocaram o Brasil como potência olímpica, outras apontaram que o resultado obtido ainda não está sedimentado.

A campanha histórica do Time Brasil nos Jogos Olímpicos de Tóquio, com o recorde de 21 medalhas (7 ouros, 6 pratas e 8 bronzes) e o inédito 12° lugar no quadro geral de medalhas, foi a materialização de um sonho para os mais de 700 integrantes da delegação nacional. Cada um sabe de sua importância para o resultado final.

Superar marcas, resultados e os próprios limites está no DNA do profissional que trabalha com esporte. Atletas, treinadores, integrantes de equipes multidisciplinares e gestores iniciam suas jornadas diariamente em busca de novos objetivos. Na maioria das vezes, toda uma vida é dedicada ao esporte.

Como Chefe de Missão, é motivo de imenso orgulho participar de experiências como as que vivemos, além de integrar uma gestão no Comitê Olímpico do Brasil (COB), com profissionais de extrema qualidade e comandada pelo presidente Paulo Wanderley, que é pautada em pilares importantes: austeridade, meritocracia, transparência, excelência e competência. Dessa forma, temos acumulado resultados esportivos extraordinários desde outubro de 2017. Já havia sido assim nos Jogos Pan-americanos de Lima 2019.

Porém, como mencionei anteriormente, a motivação do profissional do esporte se renova constantemente e, a partir do momento que certas barreiras são superadas, novas metas devem ser estabelecidas. Nos Jogos de Tóquio, o Time Brasil comprovou seu potencial esportivo ao ocupar uma posição de destaque no quadro de medalhas, ficando à frente de grandes forças econômicas, como Coreia do Sul, Espanha e Suíça. Mas e agora? Os resultados estão consolidados ou corremos o risco de voltar a patamares mais baixos?

Inicialmente, dois fatores foram fundamentais para o sucesso esportivo no Japão, apesar da redução financeira no pós-Rio 2016. O primeiro foi o legado esportivo do ciclo passado, com um aporte de recursos consideravelmente superior ao de ciclos anteriores, possibilitando um maior investimento na base e no alto rendimento. Em Tóquio, ainda colhemos esses frutos. Mas cabe um alerta: esse legado tem prazo de validade, talvez Paris 2024 ou Los Angeles 2028. Por isso, os investimentos de empresas precisam crescer novamente.

Já o segundo motivo está relacionado ao primeiro. As Confederações Brasileiras Olímpicas, em parceria com o COB, aperfeiçoaram sua governança corporativa. Por meio de boas práticas, lado a lado com suas Comissões de Atletas, elas têm aproveitado cada vez melhor os recursos disponíveis. Nos Jogos de Tóquio, 13 modalidades conquistaram ao menos uma medalha olímpica, e o Brasil foi o sétimo país do mundo em número de modalidades no pódio.

Os problemas ainda existem, mas a evolução da gestão é nítida. Os recursos são maiores na atividade fim (aquela diretamente relacionada ao objetivo da entidade), e o investimento no atleta cresceu, permitindo que eles tenham mais apoio e mostrem a qualidade que possuem, como ocorreu no Japão. Rebecas, Italos, Heberts, Anas, Isaquias, Martines, Kahenas...  vários atletas de alto rendimento espalhados pelo nosso país que têm sido muito bem apoiados.

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Marco Antônio La Porta, vice-presidente do COB
Divulgação / COB

Precisamos dar mais alguns passos, sendo o primeiro virarmos uma nação esportiva. A população precisa ter acesso à prática esportiva, principalmente nas escolas, e devemos incorporar políticas públicas eficientes. O Plano Nacional do Desporto, em tramitação lenta no Congresso Nacional, pode ajudar muito. O esporte tem pressa. Depois que atingirmos esse patamar, poderemos nos tornar uma nação olímpica e, por consequência, uma potência olímpica.

Analisando o quadro de medalhas, respondo ao segundo questionamento feito no início. O resultado, sim, está sedimentado, mas estamos em um grupo que vai do 11º ao 16º lugar no quadro de medalhas. Se Martine e Kahena não tivessem escolhido ir pela direita na Medal Race, perderíamos um ouro e cairíamos para o 16º lugar. Nesse caso, será que a repercussão teria sido tão positiva? Mas o “se” não existe no esporte, nem para justificar uma derrota, tampouco para tirar o brilho de um resultado incontestável. No entanto, para chegar ao Top 10, precisamos de mais investimento, que é o que ainda nos separa de Alemanha, Itália, Holanda, Japão, EUA e China, entre outros. Precisamos das empresas! O esporte traz um retorno fantástico para as marcas, e quem investiu em Tóquio percebeu isso. Não podemos esperar o ano dos Jogos. O investimento deve ocorrer durante todo o ciclo.

O Brasil tem potencial de sobra para nos transformarmos em uma potência olímpica. E, quando digo isso, não me refiro apenas à conquista de medalhas. Ser uma potência também é inspirar os jovens a iniciarem a prática esportiva, transmitindo os valores olímpicos e reforçando a importância de uma vida saudável. Não tenho dúvidas de que, com a junção desses fatores, podemos vislumbrar um futuro ainda mais promissor.

Marco Antônio La Porta é vice-presidente do COB e foi Chefe de Missão da delegação brasileira em Tóquio 2020