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OutField Capital faz um ano e vê mercado ainda em estágio inicial

Fundo de investimento revelou aprendizados e tendências após um ano de atuação

Erich Beting Publicado em 10/09/2021, às 08h15

OutField Capital foi lançada em agosto de 2020 para investir em startups do esporte - Reprodução
OutField Capital foi lançada em agosto de 2020 para investir em startups do esporte - Reprodução

Em agosto de 2020, a OutField anunciou a criação da “OutField Capital”, braço criado pela agência de marketing esportivo para realizar investimentos em empresas que prestam serviços de tecnologia à indústria esportiva. Em um ano de atuação, a empresa vê um mercado esportivo brasileiro ainda imaturo, mas com potencial para crescer.

Em um balanço feito com exclusividade para a Máquina do Esporte, os executivos da OutField Capital contaram o que aprenderam nesse primeiro ano, em que mais de 300 empresas foram analisadas pelo fundo.

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Pedro Oliveira, partner da OutField Capital - Divulgação

“Aprendemos muito não apenas sobre o papel da tecnologia no esporte, mas também sobre o estágio de fusão definitiva entre a indústria esportiva e setores como mídia, entretenimento, games e tecnologia. A linha nunca esteve tão turva entre esses territórios, o que cria uma oportunidade enorme para o desenvolvimento de novas soluções e geração de valor incremental para estes mercados e seus consumidores”, afirmou Pedro Oliveira, sócio da OTF Capital.

Segundo o executivo, 50 empresas receberam uma análise mais aprofundada da OTF Capital e apenas três delas foram contempladas com investimentos (Semexe, 2morrow e Final Level). O perfil de atuação das escolhidas mostra claramente o caminho que a agência enxerga para o futuro do esporte e da tecnologia.

A Semexe é um marketplace para o mercado de bicicletas, enquanto a 2morrow atua na gestão de programas de sócio-torcedor. A Final Level, por sua vez, é do mercado de games e e-Sports.

“Nos próximos anos, a creator economy, que já explodiu no mercado americano, ganhará contornos enormes também no Brasil, com mais e mais criadores de conteúdo, clubes de futebol e celebridades lançando seus próprios produtos, serviços e DNVBs”, disse Pedro.

Confira abaixo os cinco aprendizados e as cinco tendências que a OTF Capital observou em seu primeiro ano de atuação:

Aprendizados: 

1) Soluções boas não necessariamente precisam reinventar a roda do ponto de vista tecnológico: mentalidade inovadora e entendimento do problema a ser resolvido ganham jogo
Em um mercado que possui inúmeros gaps estruturais, não faltam problemas a serem resolvidos. Por isso, é fundamental que os empreendedores saibam focar em uma dor específica do consumidor ou dos players do mercado, sem se apaixonarem por uma ideia sem aplicabilidade prática e que não passou do MVP. Um bom exemplo disso é a alta taxa de mortalidade que acompanhamos dentre as sportechs em seus primeiros 12 meses de operação.
No último ano, monitoramos mais de 300 empresas e hoje identificamos que 1/4 delas não estão mais operando. Ou seja, temos uma taxa de mortalidade de 25% para empresas que morrem antes de completarem um ano de vida, com destaque negativo para o ultracompetitivo setor de mídia (35% de mortalidade) e o setor fitness, impulsionado pela pandemia, que chegou a 53% de mortalidade no período.

2) Não há mais intersecção entre esporte e entretenimento: é tudo a mesma coisa
Com a pandemia, a noção de que nosso tempo é o ativo mais valioso no mundo atual avançou completamente. Nesse contexto, a dinâmica de competição sobre nossa atenção ganhou contornos nunca antes vistos. Dessa maneira, potencializadas por telas e por conexões de alta velocidade, áreas até então próximas, porém não diretamente conectadas, se tornaram um grande poço integrado de entretenimento (esporte, mídia tradicional, redes sociais, videogames, séries, música) e disputam entre si, a todo momento, o “gráfico social” do consumidor.

3) O ecossistema ainda está muito imaturo e no início
Apesar de acompanharmos mais de 300 empresas, identificamos poucos cases com consistência para serem acelerados e chegar num Series A/B dentro dos próximos 24/36 meses, encontrando inconsistências do ponto de vista de valuation e visibilidade sobre modelo de negócios. Aqui temos o efeito “ovo-galinha” potencializado, uma vez que ainda não temos investidores tradicionais olhando para as sportechs e isso cria um cenário de escassez de capital que torna difícil para startups early stage passarem a rebentação. Ao mesmo tempo, existem poucos cases maduros o suficiente para atraírem a atenção dos grandes VCs. Sendo assim, o que deveria vir primeiro: o capital de risco ou os empreendedores abusados? A OutField Capital é a exata sinalização sobre como respondemos a essa pergunta por aqui.

4) Investidores tradicionais começaram a olhar para esse mercado, porém ainda timidamente
A escassez de tech-enabled solutions que melhoram a experiência de consumo não cria um cenário atrativo. Ainda assim, investidores tradicionais começaram a olhar para o setor, realizando aportes em cases mais consolidados e que já se enquadram no growth stage (ex: a rede de canais digitais NWB). Enquanto isso, no early stage (pre-seed/seed) a OutField Capital está fazendo o papel de apresentar muitas dessas oportunidades ao mercado tradicional, e temos visto um sensível aumento no nível de interesse por parte do investidor tradicional. Acreditamos bastante na ruptura da bolha do VC tradicional nos próximos anos, atraídos por temas como “creator/passion economy”, “gaming/e-Sports” e produtos de recorrência.

5) Mercado está quebrado, mas ainda funciona
Em outras palavras, sabemos que o mercado esportivo no Brasil (e na América Latina) está longe do seu ponto ótimo. Ainda assim, enxergamos taxas de crescimento superiores aos PIBs da região e a outros setores relevantes da economia. Por isso, acreditamos fortemente que a correção gradativa de gaps estruturais, potencializada pela aplicação tecnológica e pela mudança de mentalidade quanto à gestão profissional, serão catalisadores que nos colocarão no rumo certo para arrumar o setor e entrar em um horizonte de crescimento exponencial que atrairá ainda mais atenção do capital de risco nacional e estrangeiro.

Tendências futuras: 

1) O nascimento do omnicontent, da omniexperience e das realidades fundidas
A fusão definitiva entre esporte, entretenimento, mídia e digital dá origem a novas propostas de valor. Consequentemente, emergem variações de modelos de negócio até então não pensados. Exemplos diversos aparecem aqui, desde uma “love brand" como a Heineken lançando sua própria plataforma de relacionamento e engajamento com o consumidor (para simplificar, um sócio-torcedor da marca), até streamer gamer inaugurando sua própria hamburgueria e outro transmitindo os playoffs da NBA na Twitch. O mundo digital oferece as ferramentas para verticalizar a experiência de consumo e aqui entram novas tecnologias (blockchain, criptomoedas/NFTs, AR/VR) e também uma boa dose de inovação em modelos tradicionais, fazendo com que a atenção do consumidor se torne a commodity mais disputada por todos. Atenção, futebol: a fila do pão mudou bastante.

2) Em um mundo de pulverização de conteúdo, a propriedade intelectual se torna a principal fortaleza
O conteúdo é rei, mas quem dita a história emerge como o verdadeiro controlador das narrativas. Ou seja, em um mundo em que a atenção vira commodity, saber criar histórias e construir amor ao redor delas é o melhor diferencial competitivo que uma empresa pode ter. Nesse contexto, players do mercado esportivo/entretenimento/games saem na frente por serem máquinas vivas de novas histórias e por estabelecerem uma dinâmica passional em sua relação com a audiência/fan base.

3) Gaming não é jogo, é economia própria no mundo digital
Jogos eletrônicos são entretenimento interativo, e mídias sociais são espaços de engajamento e relacionamento. Assim, em um mundo que cada vez mais transfere as experiências do mundo real para o virtual, os games se tornam espaços de convivência e substituem as redes sociais como local de encontro e de construção para as novas gerações. Por conta disso, forma-se uma economia própria e altamente escalável em torno dessas plataformas. Basta olhar para exemplos como Fortnite, Roblox, Avakin Life e GTA que, nos últimos anos, fagocitaram grandes porções do mundo real para dentro de seus universos, incluindo shows, cinemas, campeonatos, parques de diversões e o mundo fashion.

4) Esporte, wellness e performance-health também se tornaram um só
Com a pandemia, a preocupação com o bem-estar (físico e mental) ganhou mais notoriedade no debate sobre saúde, indo muito além da atividade física. Alimentação, exercícios, meditação e lifestyle saudável são temas relevantes que passam a estar recorrentemente no radar de todos, potencializados por um acesso cada vez maior a tecnologias (wearables, dados, plataformas de treino) e com impacto direto em nossa produtividade e longevidade.

5) O ownership da jornada de consumo é o que mais importa
Quem controla e retem atenção ganha o jogo. Independentemente de quem você é – marca, agência, produto, serviço, clube, influenciador/creator, atleta –, se você tem audiência, go vertical! Por isso, nos próximos anos, a creator economy que já explodiu no mercado americano, ganhará contornos enormes também no Brasil, com mais e mais criadores de conteúdo, clubes de futebol e celebridades lançando seus próprios produtos, serviços e DNVBs.