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Outros / Transformações

Retrospectiva 2020: O esporte muda também no Brasil

Redação Publicado em 31/12/2020, às 14h37

Imagem Retrospectiva 2020: O esporte muda também no Brasil

O ano de 2020 se encerra com uma certeza. O esporte não voltará a ser como era. Para tentarmos entender as transformações que chegam, trazemos agora um breve resumo do que foi 2020 em cinco momentos marcantes da indústria esportiva brasileira.

1) Cadê o torcedor?

Na segunda quinzena de março, o esporte no Brasil teve de tomar uma decisão sem precedentes. Parar todas as suas competições por conta da pandemia do coronavírus. Com as pessoas confinadas em suas casas, o primeiro grave defeito de nossa indústria ficou escancarado. Onde está o torcedor? Sem um plano de atuação digital consistente, as entidades esportivas perderam qualquer contato com o fã. Com o conteúdo digital pautado pela agenda esportiva, o esporte não sabia mais como se aproximar do torcedor. Quem fez a “farra” com isso foi a TV. Dona do acervo das principais competições nacionais, as emissoras usaram os meses de abril e maio para reprisar jogos históricos, principalmente de times de futebol. Aos clubes, restou o consolo de usar essas reprises para fazer o que sempre foi feito. Aproveitar o evento para conversar com o fã.

Com a pandemia, os torcedores ficaram fora dos estádios.
Créditos: Reprodução

2) Olha a live!

Passado o susto inicial do sumiço do evento esportivo, o esporte começou a se reinventar no Brasil. Foi aí que uma alternativa apresentada pelo mercado musical ganhou a adaptação para o mercado esportivo. Entramos em maio e junho na era das lives. Se, no começo, as lives eram uma forma de as pessoas manterem alguma conexão em meio ao confinamento dentro de suas casas, agora ela passava a se transformar num negócio. A Brahma usou a popularidade de seus clubes patrocinados para realizar transmissões ao vivo com ídolos do passado e conversa com torcedores ilustres. O BMG também aproveitou o consumo de lives para promover encontros de antigos atletas de Atlético-MG, Corinthians e Vasco e tentar se aproximar dos torcedores dos três clubes.

Clubes acharam nas lives uma oportunidade de se manter próximo dos torcedores.
Créditos: Divulgação

3) A mídia pulverizada

Em 18 de junho, uma Medida Provisória assinada pelo presidente Jair Bolsonaro causou alvoroço no mercado de direitos de transmissão. A MP previa que o clube mandante de um evento se tornasse livre para assinar com quem quisesse o direito de transmissão do jogo. Com isso, a MP deu forças para o Flamengo, que pressionou pela retomada do Campeonato Carioca, de transmitir suas partidas como mandante do torneio estadual, já que ele não tinha assinado com a Globo no começo do ano. O que se viu nos dias seguintes à assinatura da MP foi uma guerra jurídica para mostrar ou não as partidas. O Flamengo acabou sendo campeão estadual com jogos exibidos no YouTube, no Mycujoo e no SBT. Foi o início de um processo de pulverização das transmissões esportivas no Brasil. A MP caducou em outubro e não virou lei, por mais que clubes e empresas interessadas diretamente nessa ruptura de modelo atual fizessem lobby com políticos e torcedores para aprovar a legislação. O maior legado desse debate é o empoderamento dos clubes, que passaram a olhar com mais atenção para algo primordial, que é ser o dono do conteúdo que eles produzem.

MP do Mandante caducou em outubro deste ano.
Crédito: Reprodução

4) O protagonismo do fã

Em meio à incerteza do retorno das atividades, a saída foi dar mais poder ao fã do esporte. Para tentar minimizar as perdas com o êxodo nos programas de sócio-torcedor, os clubes de futebol trataram de dar maior protagonismo ao fã. Em junho, o Atlético-MG criou a promoção “Manto da Massa”. Os torcedores fizeram o desenho do que consideravam ser a “camisa 3 ideal” do time. Alguns modelos foram colocados em votação exclusivamente para o sócio-torcedor. Depois, a camisa foi colocada em pré-venda. Ao todo, 100 mil peças foram vendidas, gerando um faturamento recorde ao clube e criando o maior case de relacionamento com o torcedor durante a quarentena. Depois do caso bem-sucedido do Galo, diversos outros clubes criaram ações semelhantes para motivar o torcedor, sempre colocando-o com poder de decisão e buscando aumento de vendas.


Em junho, o Atlético-MG criou a promoção “Manto da Massa” e os torcedores fizeram o desenho do que consideravam ser a “camisa 3 ideal” do time.
Crédito: Reprodução

5) O esporte mais humano

Assim como aconteceu no exterior, o esporte no Brasil percebeu que ele é um elemento transformador da sociedade. Tivemos, em 2020, alguns indícios de que as coisas começam a mudar. Manifestações de atletas se tornaram mais comuns e toleradas, ainda não na mesma proporção do que aconteceu no exterior. Mas as entidades esportivas entenderam que precisam assumir um papel de liderança nas transformações. O caso mais marcante do ano foi o do Bahia, que em novembro lançou o primeiro programa de trainee exclusivo para pessoas negras. A ideia do clube é inserir mais diversidade dentro do dia a dia da instituição. O clube também foi protagonista no caso envolvendo uma suposta injúria racial de seu jogador Indio Ramirez contra o meia Gerson, do Flamengo. O técnico Mano Menezes, que insinuou que Gerson havia se feito de vítima ao reclamar de ter sido chamado de negro pelo adversário, foi demitido do clube, que passa também por má fase técnica. Já Ramirez foi afastado até que o caso seja completamente apurado. O atleta diz que não ofendeu o flamenguista, mas o Bahia disse que precisa assumir o lado da vítima na história, como em qualquer caso de ofensa contra minorias. O caso deve se desenrolar no ano que entra, mas o esporte brasileiro passou a entender mais que precisa dar início às transformações.

Bahia criou um programa de trainee voltado exclusivamente para negros.
Crédito: Reprodução