O Brasil aparece no radar da World Athletics como um dos mercados relevantes para o desenvolvimento do trail running, impulsionado pelo tamanho do universo de corredores e pela diversidade de ambientes naturais do país. A entidade, porém, entende que transformar esse potencial em crescimento sustentável exige considerar características que diferenciam o Brasil de mercados nos quais a modalidade já está mais consolidada.
Natacha Manchado, gerente de projetos da World Athletics, palestrou no TS Summit 2026, evento realizado pela Ticket Sports, e abordou o mercado do trail running ao redor do mundo.
Para a executiva, o primeiro passo para o desenvolvimento do trail running no Brasil é compreender que a modalidade não deve ser tratada como uma extensão da corrida de rua, pois cultura própria, baseada em valores e em um senso de comunidade que precisam ser preservados à medida que novos praticantes, marcas e organizações passam a se aproximar do esporte.
“Precisamos ter em mente que o trail é outro mundo. Existe essa questão de podermos acabar refletindo algumas ações que a gente já faz com a corrida de rua, mas precisamos entender que é um ambiente completamente diferente. Podemos aprender sabendo que tem essas limitações de especificidade dentro do trail”, disse Natacha Manchado, à Máquina do Esporte.
Expansão
A cautela não significa, porém, que a World Athletics enxergue o trail como um mercado restrito. Durante palestra sobre o desenvolvimento da modalidade, Natacha apresentou dados que mostram uma expansão acelerada do esporte e o aumento dos investimentos feitos por empresas ligadas ao setor.
Segundo os dados apresentados, a indústria global do trail running já movimenta cerca de US$ 20 bilhões e cresce em ritmo superior ao da corrida de rua. Nos Estados Unidos, um dos mercados nos quais a modalidade apresenta maior desenvolvimento, observa-se um crescimento anual de 8% ao longo de um período de cinco anos.
“É importante saber que o trail é uma das maiores histórias de crescimento no mundo esportivo. Existe um senso de comunidade bastante único do trail. A cultura é muito forte, existem valores que eles colocam que não são replicáveis pela corrida de rua e vice-versa”, reforçou a gerente de projetos da World Athletics durante a palestra no TS Summit 2026.
O aumento da participação e dos investimentos indica que o trail deixou de ocupar apenas uma posição periférica dentro do universo de esportes de resistência e passou a atrair atenção comercial de longo prazo.
Realidade brasileira
O Brasil já possui uma grande comunidade de corredores de rua, de aproximadamente 14,6 milhões de pessoas, e, na avaliação de Natacha, o avanço desse mercado também cria condições para que o trail amplie sua presença.
“O mercado brasileiro é um mercado bastante relevante no mundo da corrida. Isso obviamente engloba a corrida de rua e corrida de montanha ou trail. Com esse crescimento expressivo do número de corredores, é claro que é um país importante que a gente entende para a corrida”, exaltou a executiva.
A dimensão desse público, no entanto, não significa que a expansão do trail possa seguir no Brasil o mesmo caminho de países com tradição de esportes de montanha. A própria geografia é uma das diferenças apontadas pela executiva.
“Não é tão simples a gente comparar o mundo com o Brasil por diferenças regionais, por relevos. A gente pensa na montanha, altitude, a gente não vive nessa realidade. Eu não posso comparar um cenário Brasil com a França, os Alpes”, ponderou Natacha Manchado.
A formação cultural da modalidade ainda é distinta, enquanto fatores sociais e econômicos interferem diretamente no acesso às áreas nas quais o esporte pode ser praticado.
A segurança e o acesso também aparecem como obstáculos. Enquanto determinadas regiões europeias possuem uma estrutura consolidada para a prática de esportes de montanha, no Brasil o acesso a esses ambientes pode ser condicionado pela renda e pela própria disponibilidade de locais adequados.
A perspectiva da entidade, não é transformar o mercado brasileiro em uma reprodução de mercados mais maduros, mas encontrar uma forma de inserir o país em uma estrutura internacional sem passar por cima das particularidades locais.
Federação
O entendimento da World Athletics é que a expansão internacional do trail precisa vir acompanhada de uma estrutura capaz de estabelecer parâmetros comuns para a modalidade, ao mesmo tempo em que permite que cada mercado desenvolva o esporte de acordo com suas características.
A entidade já possui regras dedicadas à montanha e ao trail e criou, em outubro de 2024, um conselho específico para as modalidades. A expectativa é que uma estratégia específica de longo prazo para montanha e trail seja aprovada pelo Conselho da World Athletics em dezembro de 2026. A partir daí, a entidade pretende colocar em prática um plano de ação estruturado para a modalidade.
Entre os objetivos estão a ampliação das ações antidoping, inclusive fora do período de competições, a expansão das certificações de provas e a criação de um sistema semelhante aos selos utilizados na corrida de rua. A ideia é estabelecer padrões para os eventos e, a partir deles, construir um calendário global que também facilite o planejamento dos atletas de alto rendimento.
Outro projeto é a criação de um ranking mundial único, que substitua a fragmentação atual entre diferentes índices e sistemas de classificação. A medida deverá ajudar a estabelecer critérios mais claros para a participação em competições internacionais e, principalmente, para a classificação para o Campeonato Mundial.
