A ascensão recente da popularidade da WNBA nos Estados Unidos se deu pela combinação de dois movimentos principais. O primeiro deles ocorreu em maio de 2019 e envolveu a nomeação da primeira comissária da história da liga. A figura escolhida foi Cathy Engelbert, então CEO da Deloitte, que assumiu o cargo em julho daquele ano e foi a responsável por promover mudanças estruturais no modelo de gestão da WNBA, assim como nas suas estratégias comerciais e de mídia.
O segundo movimento foi a chegada de Caitlin Clark e de uma geração de atletas com audiência já consolidada pelo esporte universitário à WNBA em 2024, o que ajudou a acelerar o crescimento e a visibilidade da liga nos EUA.
Nesse sentido, mais de 54 milhões de espectadores únicos assistiram à temporada de 2024 na liga em emissoras nacionais dos Estados Unidos, o que estabeleceu um novo recorde para a competição. Além disso, a WNBA também registrou mais de 2,35 milhões de torcedores presentes nas arenas ao longo do ano e viu as vendas de produtos oficiais crescerem 601% em relação a 2023.
Vale destacar, porém, que esse crescimento observado em 2024 não representa o início do processo de ascensão da WNBA. Isso porque a liga já apresentava um aumento nos seus índices desde a temporada de 2022, a primeira sem impactos diretos da pandemia desde 2020.
A audiência da temporada regular de 2022 nas emissoras ABC, CBS e ESPN, por exemplo, havia crescido 16%, para uma média de 379 mil espectadores, o melhor resultado em 14 anos. Já em 2023, o índice voltou a subir 21%, enquanto a média de espectadores nos jogos exibidos por ABC, ESPN e CBS chegou a 505 mil pessoas. No mesmo ano, a presença do público nas arenas também aumentou 16%, para um total de 1,59 milhão de fãs.
Gestão
Cathy Engelbert assumiu o posto de comissária da WNBA com uma agenda voltada para transformar a liga em um negócio mais robusto. Antes mesmo de iniciar oficialmente no cargo, a executiva apontava como prioridades ampliar a base de receita, levar mais público às arenas, trabalhar a experiência de torcedores e atletas, assim como buscar novas formas de engajamento.
Um de seus primeiros movimentos à frente da liga foi a negociação do acordo coletivo anunciado em janeiro de 2020. O contrato elevou a remuneração das jogadoras, estabeleceu novos mecanismos de compartilhamento de receitas e incluiu melhorias em viagens, benefícios familiares e oportunidades de carreira. Além disso, o negócio também previu um plano integrado de marketing para a liga, aproximando a pauta trabalhista da estratégia de desenvolvimento do produto.
Na mesma época, a WNBA lançou a plataforma Changemakers, inicialmente com marcas como AT&T, Deloitte e Nike. O modelo foi desenhado para receber investimento financeiro dos parceiros estratégicos e utilizar essas empresas em iniciativas de marketing, construção de marca e melhoria das experiências de jogadoras e torcedores.
Investimento
Outro passo importante da gestão de Engelbert foi a captação de recursos. Nesse sentido, em fevereiro de 2022, a WNBA levantou US$ 75 milhões através da venda de 16% das suas ações para investidores com o objetivo de financiar áreas como marketing, transformação digital, internacionalização e relacionamento com fãs.
A operação foi apresentada pela própria liga como parte de uma estratégia destinada a abrir novas fontes de receita e enfrentar obstáculos que estariam limitando o seu crescimento.
Com uma capacidade maior de investimento, a WNBA também passou a trabalhar para melhorar as condições de trabalho das suas jogadoras. Em 2024, por exemplo, a liga iniciou a implementação de um programa de voos fretados para todas as suas franquias
Vale lembrar que a melhoria das condições de viagem era uma questão latente nos bastidores da competição e vinha sendo discutida há anos por atletas e dirigentes. Segundo a própria WNBA, a adoção dos voos fretados só foi possível depois da transformação do seu modelo comercial e da construção de uma estrutura econômica capaz de sustentar esse modelo.
O crescimento do poder econômico da liga também passou a figurar nas relações de trabalho. Neste aspecto, o novo acordo coletivo firmado pela WNBA, que começou a valer neste ano, estabeleceu um salário anual médio em torno de US$ 600 mil para as atletas da liga, valor que se limitava a US$ 120 mil no contrato anterior.
Já o salário máximo que uma jogadora pode ganhar saiu de cerca de US$ 250 mil no ano passado para US$ 1,4 milhão em 2026. Além disso, o teto salarial por equipe passou de US$ 1,5 milhão em 2025 para US$ 7 milhões nesta temporada graças ao novo contrato, que prevê ajustes futuros nesse valor de acordo com o crescimento das receitas da WNBA no futuro.
Vale destacar que, no início deste mês, a WNBA anunciou que Engelbert deixará o cargo de comissária ao fim da temporada de 2026. Segundo o comunicado oficial divulgado pela liga, a decisão partiu da própria executiva.
“Após mais de sete anos na WNBA e mais de 40 anos de experiência no mundo dos negócios, tomei a decisão de deixar o cargo de Comissária da WNBA. Em 2019, tive o privilégio de ser nomeada a primeira comissária e de liderar uma liga com enorme potencial, porém pouco explorada e significativamente subvalorizada. Ao longo dos anos, foi incrível ver as jogadoras da WNBA prosperarem e liderarem a enorme onda cultural em torno do esporte feminino”, destacou Engelbert em nota oficial.
Mídia
A expansão da cobertura da WNBA na mídia foi outra transformação que aconteceu antes da chegada de Caitlin Clark. Em 2023, a liga estruturou os seus direitos de uma forma que permitiu a transmissão de 205 jogos da temporada regular do torneio na TV e no streaming, por meio de plataformas como ABC, ESPN, CBS, ION, NBA TV e Amazon Prime Video.
O movimento ainda criou faixas recorrentes de programação e ampliou os pontos de contato entre a liga e o público. Com isso, a temporada regular de 2023 da WNBA foi vista por mais de 36 milhões de espectadores únicos em plataformas de mídia nacionais, o que representou o maior índice desde 2008 e um crescimento de 27% em relação à edição de 2022 da liga.
Em termos financeiros, o novo ciclo de contratos de mídia da WNBA, que começou a valer neste ano, trouxe uma valorização significativa para a propriedade. Segundo o Front Office Sports, os acordos domésticos assinados com Disney, NBCUniversal, Amazon, Paramount, Scripps, USA Sports e NBA TV renderão US$ 3,1 bilhões em 11 anos à WNBA, o que vai representar uma receita anual média de US$ 281 milhões no período.
Esse valor ainda é cerca de 6,5 vezes maior do que a média de US$ 43 milhões anuais que a liga recebia no ciclo anterior. Além da valorização financeira, também haverá uma maior distribuição dos jogos da liga na mídia, sendo que, em 2026, a WNBA contará com 216 jogos em canais nacionais de TV aberta, TV fechada e streaming.
Efeito Clark
Foi em um contexto de crescimento pós-pandemia que Caitlin Clark chegou à WNBA, em 2024. Antes do início daquela temporada, dados da YouGov já mostravam que 6,4% dos entrevistados nos Estados Unidos diziam estar dispostos a dedicar tempo para acompanhar a liga, maior índice desde que a empresa começou a fazer esse monitoramento, em 2018.
O levantamento também relacionou o interesse ao aumento da popularidade do basquete universitário feminino nos EUA, enquanto um outro estudo da YouGov divulgado poucos dias depois do início da WNBA 2024 apontou Clark como a terceira atleta da modalidade mais popular do país naquele momento, em uma métrica que considerava tanto o cenário masculino quanto o feminino.
A liga conseguiu aproveitar essa popularidade de Caitlin Clark logo na edição de estreia da jogadora. Nesse sentido, a audiência da WNBA nas plataformas da ESPN chegou a uma média de 1,19 milhão de espectadores, o que representou uma alta de 170% em relação a 2023 e o maior índice da história da emissora com a liga até então.
A mesma temporada regular ainda estabeleceu o recorde de 22 partidas com uma audiência televisiva média superior a 1 milhão de espectadores. Além disso, o Indiana Fever, franquia em que Clark atua, registrou um aumento de 319% no público presente nos seus jogos na WNBA de 2024 ao receber um total de 340.715 torcedores ao longo da temporada.
Já as assinaturas do League Pass cresceram 366%, enquanto as visualizações de vídeos nas redes sociais da liga chegaram perto de 2 bilhões, o maior índice da WNBA em uma única temporada e mais de 4 vezes o volume de visualizações alcançado em 2023, que foi de 378 milhões.
Vale destacar que esse processo de valorização e crescimento da WNBA também impactou as franquias, principalmente as que chegaram recentemente à competição. Nesse sentido, as taxas para uma equipe entrar na liga aumentaram cinco vezes em poucos anos.
O Golden State, por exemplo, pagou US$ 50 milhões em 2023 para passar a fazer parte da WNBA em 2025. Já as franquias de Cleveland, Detroit e Philadelphia tiveram que desembolsar US$ 250 milhões cada para poderem integrar a liga.
Com essas chegadas, a WNBA contará, em 2030, com 18 equipes, já que a franquia de Cleveland estreará na liga em 2028, a de Detroit, em 2029, e a da Philadelphia, em 2030.
