O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, o Bap, afirmou, em entrevista à Flamengo TV, que não aceita uma divisão de receita mais igualitária, premissa para a formação de uma liga de clubes, que está sendo discutida por dirigentes da Liga Forte União (LFU) e da Liga do Futebol Brasileiro (Libra).
“Sabe quando que eu vou aceitar que eu receba no máximo 3,5 vezes a mais do que quem é pequeno? Nunca. Nunca não vai acontecer esse acordo nestas condições”, afirmou o dirigente fazendo um gesto de indignação.
“Isso é um processo de desapropriação de um ativo que é nosso, por nenhuma razão, por nenhum mérito, nenhum critério que possa ser aventado”, acrescentou.
O Flamengo é um dos três times que não aceitaram o memorando de entendimento (Memorandum of Understanding ou MOU, na sigla em inglês) que está sendo discutido entre os dirigentes de Libra e LFU. Segundo a Máquina do Esporte apurou, os outros foram Palmeiras e Corinthians, embora seus dirigentes ainda não tenham se pronunciado publicamente sobre o assunto.
O Flamengo se incomodou com os termos do acordo, que estabeleceram que o clube mais bem remunerado pelas receitas comerciais geradas pela liga brasileira ganhasse no máximo 3,5 vezes a mais que equipe que fosse receber a menor cota, normalmente a última colocada.
“Porque, no fim das contas, o discurso é lindo. Mas, na prática, todo mundo ganha dinheiro e o Flamengo perder? Quer dizer, Flamengo não vai ser tolo”, afirmou Bap.
Desigualdade
A distribuição de receita que consta no MOU discutido pelos clubes ainda é bastante desigual se comparada à da Premier League (EPL), a maior liga nacional de futebol do planeta.
Segundo a tabela de distribuição de receita da temporada 2023/2024, a última divulgada pela direção da liga, o campeão Manchester City, recebeu premiação de £ 175,9 milhões. Já o Sheffield United, último colocado e rebaixado à Championship, a segunda divisão inglesa, ficou com £ 109,7 milhões. Ou seja, o campeão recebeu 1,6 vez a mais do que o lanterna do campeonato.
Bap também conclamou os outros clubes de maior torcida a não aderirem ao modelo que está sendo discutido por LFU e Libra.
“Você que é torcedor do São Paulo, do Palmeiras, do Corinthians e do Vasco, devia estar atento também. Porque esses cinco clubes fazem mais de 50% da audiência no Brasil. Deviam estar preocupados com esse modelo, porque isso vai tirar dinheiro de vocês. Se o tamanho do bolo não cresce, quem vai perder? São os maiores”, comentou o presidente rubro-negro.

Placas
Outro incômodo de Bap é em relação à unificação de alguns ativos comerciais, como a comercialização das placas publicitárias nos estádios. Atualmente, o Flamengo possui um contrato individual vantajoso com a Brax Sports Assets pelas placas do estádio do Maracanã.
“Eu faço [R$] 65 milhões por ano com as placas. Tem clube da Série A que faz [R$] 5 [milhões”, contou o flamenguista.
“Eu faço 12 vezes mais do que ele. Vou botar os [R$] 5 [milhões] dele com os meus [R$] 65 [milhões] para fazer [R$] 70 [milhões]? Para eu ficar com [R$] 35 [milhões], ele ficar com [R$] 35 [milhões]? Quem em sã consciência faria isso? Ninguém”, completou.
A ideia do MOU, como ocorre nas grandes ligas europeias, é que as placas publicitárias das arenas sejam comercializadas de forma conjunta.
A distribuição dos ganhos não seguiria, ao contrário do que o dirigente deu a entender, um modelo totalmente igualitário. Seria dividida, assim como as demais receitas, no modelo 40% igualitário, 30% por performance e 30% por audiência.
Os critérios desse último item ainda não foram claramente definidos pelos clubes. Há ainda discussões para que essa distribuição aumentasse o percentual distribuído de maneira igual no futuro. No entanto, ainda não há consenso nem se isso irá acontecer, nem quando a mudança poderia ser implantada.
Conceito
Para Bap, outros aspectos deveriam ser discutidos para a formação da liga e não o ataque à pretensa desigualdade na distribuição de receitas.
“Uma liga é importante no Brasil. Então, vamos dividir a discussão da liga em dois assuntos, Um é toda a parte de governança, de organização do campeonato, de profissionalização de arbitragem, de Fair Play Financeiro”, defendeu.
Bap comentou que o Flamengo paga tudo em dia, mas que há muitos clubes inadimplentes. Segundo ele, há vários casos de falta de pagamento ao Rubro-Negro que estão pendentes na Câmara Nacional de Resolução de Disputas (CNRD), órgão responsável por punir os clubes que dão calote.
“Quando se fala de liga, tem uma parte que é toda conceitual, de governança, de gestão, que eu entendo que o Flamengo vai estar e tem que estar junto com todos os demais clubes”, afirmou o dirigente.
Procurados para comentar o assunto e como andam as discussões entre os clubes em relação ao MOU, Libra e LFU não se pronunciaram.
Entre os dirigentes ouvidos pela Máquina do Esporte, ninguém quis falar publicamente, mas as declarações geraram algum incômodo. Apesar disso, os clubes reconhecem a necessidade de haver entendimento para que Flamengo, Corinthians e Palmeiras sejam signatários do documento.