Coração financeiro do Brasil, a Avenida Faria Lima, em São Paulo (SP), experimentou um verdadeiro turbilhão de emoções, na manhã desta quinta-feira (28), em decorrência da megaoperação liderada pela Polícia Federal (PF), batizada de “Carbono Oculto”.
Criada inicialmente para apurar irregularidades em postos de gasolina, a investigação, que mobilizou cerca de 1,4 mil agentes em todo o país, descobriu uma rede criminosa que operava em toda a cadeia de distribuição de combustíveis e que usaria fundos de investimento para lavar dinheiro em benefício do Primeiro Comando da Capital (PCC).
Entre as empresas que operam no mercado financeiro e se tornaram alvo da operação da PF está a Reag Investimentos, que se tornou conhecida no meio esportivo por conta de alguns investimentos recentes, em especial a aquisição do controle da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Juventus, da Mooca, firmada em junho deste ano.
A sede da Reag, em São Paulo, foi visitada por agentes da PF, que cumpriram mandado de busca e apreensão no local. O fato foi reconhecido pela própria empresa, em comunicado enviado à imprensa:
A REAG INVESTIMENTOS S.A. (“Reag Investimentos”) e a CIABRASF – CIA. BRASILEIRA DE SERVIÇOS FINANCEIROS S.A. (“CIABRASF”, em conjunto com a Reag Investimentos, as “Companhias”), em cumprimento ao disposto no artigo 157, §4º, da Lei n.º 6.404, de 15 de dezembro de 1976, conforme alterada, e na Resolução CVM nº 44/2021, informam aos seus acionistas e ao mercado em geral que, na data de hoje, estão sendo cumpridos mandados de busca e apreensão em suas respectivas sedes no âmbito da Operação Carbono Oculto.
Trata-se de procedimento investigativo em curso. As Companhias esclarecem que estão colaborando integralmente com as autoridades competentes, fornecendo as informações e documentos solicitados, e permanecerão à disposição para quaisquer esclarecimentos adicionais que se fizerem necessários.
As Companhias manterão seus acionistas e o mercado informados sobre o desenvolvimento dos assuntos objeto deste Fato Relevante.
São Paulo, 28 de agosto de 2025
A nota é assinada por Dario Graziato Tanure, diretor-presidente e de relações com investidores da Reag, e Thiago Souza Gramari, da Ciabrasf.
Investigação
A Operação Carbono Oculto identificou ao menos 40 fundos de investimento que seriam usados para movimentar recursos ilícitos do PCC, em um patrimônio que totalizaria R$ 30 bilhões.
A Reag tornou-se alvo da operação por conta de um fundo responsável pelas aquisições de empresas, usinas de etanol e ocultação de patrimônio dos investigados.
Informações divulgadas pelo blog do jornalista Fausto Macedo, no Estadão, mostram que a companhia administra o Location Fundo de Investimentos e Participações Multiestratégia.
O fundo em questão seria do empresário Mohamad Hussein Mourad, proprietário da distribuidora Aster Petróleo, uma das investigadas pela operação.
O investidor seria ligado ao empresário Roberto Augusto Leme da Silva, mais conhecido como Beto Louco, e também à formuladora de combustíveis Copape, além de supostamente comandar uma rede de postos operados por “laranjas”.
O Location contava com apenas um investidor, de nome Renato Camargo, que realizou cinco depósitos no fundo, totalizando R$ 54 milhões.
Essa quantia seria incompatível com o patrimônio do cotista, fato que levou o Banco Santander a comunicar a anomalia ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf). Pelo menos R$ 45 milhões depositados pelo suposto “investidor” seriam, na verdade, provenientes de uma conta pertencente a Mourad.
O dinheiro que Camargo aplicou no Location foi usado na compra da Gasp Investimentos, controladora da Copape e da Aster.
Ainda segundo a publicação de Macedo, Walter Martins Ferreira III, um dos sócios da Reag, teria ajudado a ocultar o verdadeiro beneficiário do fundo Location.
A operação da PF também apura a participação do BK Bank, que teria sido usado para realizar as movimentações financeiras do grupo investigado.
Due diligence
A Máquina do Esporte procurou o presidente do Juventus, Dilson Tadeu Deradeli, mas nem o dirigente nem a assessoria de imprensa do clube retornaram as ligações.
O presidente do Conselho Deliberativo do Juventus, Carlos Eduardo Gomes Pedroso, também não respondeu às tentativas de contato.
A Assembleia de Sócios que autorizou a venda da SAF ocorreu em 28 de junho deste ano. A Reag integra, nesse negócio específico com o clube, um consórcio que conta com a participação da Contea Capital e que é assessorado pela P&P Sport Management, empresa com sede no principado de Mônaco e que agencia uma série de atletas ao redor do mundo.
A proposta apresentada pelas duas empresas previa a realização de uma due diligence jurídica, contábil, financeira e de governança do clube, que teria início logo após a aprovação da SAF. Essa análise, que avalia os potenciais riscos de um negócio, tem um prazo de até 90 dias para ser concluída.
Portanto, em tese, a operação na sede da companhia candidata a dona da SAF ocorre justamente no período em que estava prevista a realização da due diligence.
O consórcio levou a melhor sobre o conglomerado italiano AlmavivA e a brasileira Total Player, representada pelos irmãos Paulo e Calucho Jamelli. Inicialmente, os dois grupos entraram na disputa de maneira individual, mas acabaram optando por não apresentar suas propostas aos conselheiros, alegando suposto favorecimento à Reag/Contea.
Posteriormente, AlmavivA e Total Player decidiram unificar sua oferta, prontificando-se a pagar R$ 37 milhões pela compra de 90% da SAF.
O consórcio vencedor, por sua vez, ofereceu R$ 20 milhões pelo controle do futebol do Moleque Travesso. Tanto a proposta de Reag/Contea quanto a de AlmavivA/Total Player previam investimentos de até R$ 500 milhões, no decorrer do contrato.
“É uma honra para a Reag Capital Holding fazer parte desse novo capítulo da história do Clube Atlético Juventus. Como sócio do clube, ex-atleta de basquete, oriundo da Mooca e de família italiana, é particularmente importante este processo, e vamos trabalhar com seriedade e profissionalismo para devolver o Juventus ao lugar que nunca deveria ter saído, ou seja, o topo do futebol estadual”, afirmou João Carlos Mansur, presidente do Conselho Administrativo da empresa, à época em que a decisão de venda foi sacramentada.
Vale lembrar que a assinatura dos documentos definitivos de venda da SAF para Reag/Contea só ocorrerá após a conclusão da due diligence. A partir de então, os compradores deverão realizar de maneira imediata o aporte de R$ 20 milhões, previsto na proposta.