O universo do esporte sempre se organizou em comunidades. Hoje, essas comunidades são digitais, e no esporte há um ingrediente extra: não lidamos apenas com seguidores. Lidamos com fãs. Isso o mercado conhece bem.
A base de fãs é saudável, apaixonada, paga a conta, constrói junto. Mas, nesse mesmo ambiente, outro personagem ganhou protagonismo: o fanático. É ele que quero destrinchar nesta coluna.
Quando as redes sociais viram uma armadilha
O fanático consome o clube, o evento ou o esporte com o qual se identifica, e se confunde com ele. Não apenas gosta: se transforma na marca. Olhando só para os números, costuma ser um “excelente cliente”.
O problema é que ele não se relaciona de forma saudável com o mundo ao redor. O fã constrói, provoca, brinca, às vezes exagera. O fanático não dialoga. Ataca.
Protegido pelas redes sociais, ele se sente autorizado a destruir tudo o que não corresponde exatamente à sua visão. E isso cria um desafio novo para as marcas esportivas.
Paixão dodói
O fã escolhe. O fanático depende. No running, por exemplo, existe um exército sempre à espera de um gatilho. As redes são desenhadas para isso: o ódio ecoa, engaja, recompensa. Xingar dá “like”.
E o fanático raramente muda de ideia. O custo social é alto demais. Não é só uma opinião em jogo: é a própria persona digital que ele construiu. Manter a raiva se torna mais importante do que escutar.
Corrida de rua: O problema se intensifica
No mercado de eventos esportivos, o cenário é ainda mais delicado. Eventos são complexos: erramos, ajustamos e evoluímos. Mas, na lógica do fanático, complexidade vira binarismo.
“Eu mesmo sou a corrida.”
Quando o evento depende diretamente dos participantes para existir, as redes facilmente se transformam em “tretas”. Falar contra seria temerário. E entender esse comportamento é o primeiro passo para lidar com ele.
Discernimento antes do combate
Argumentos inflexíveis voam por aí. Problemas precisam ser dimensionados pelo que são, não pelo tamanho que o fanatismo quer lhes dar.
Sim, existe uma dor real ali, que precisa ser validada. Mas isso não justifica comportamento radical, fundamentalista ou terrorista.
Fomos treinados para gerir crises com pedidos de desculpa e promessas de solução. Hoje, talvez não seja mais tão simples.
O ódio vicia, funciona como arma política e corrói a relação saudável entre fãs e marcas. Ignorar ainda funciona? Apanhar calado é estratégia? Não sei.
Mas sei qual é o primeiro passo: entender esse fenômeno como comportamento humano, se aprofundar nele e buscar novas ferramentas além do silêncio.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
Daniel Krutman é empreendedor e publicitário. Formado em Comunicação Social, pós-graduado em Ciências do Consumo e mestre em Marketing Digital, ocupa atualmente o cargo de CEO da plataforma de vendas de inscrições Ticket Sports, além de ser fundador da The Squad Academy, hub de conteúdo para o esporte
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