A Copa dos Campeões Feminina da Fifa 2026, mais popularmente conhecida como Mundial de Clubes, nasce menos como um torneio esportivo e mais como um instrumento de governança global. A escolha de Londres como sede, o formato concentrado, o recorte dos clubes participantes e a política de distribuição de mídia indicam que a entidade não está apenas organizando uma competição, mas também testando um modelo de negócio.
Ao colocar frente a frente Corinthians, Arsenal, Asfar e Gotham FC, a Fifa cria um ambiente controlado, em que quatro sistemas distintos de organização do futebol feminino entram em choque direto. Cada clube carrega consigo não apenas um histórico esportivo, mas uma lógica econômica, uma relação específica com o Estado, um grau diferente de dependência do mercado e uma função simbólica clara dentro de seus respectivos ecossistemas nacionais.
Londres como escolha política, não logística
A decisão de sediar o torneio em Londres, na Inglaterra, não atende a critérios neutros de infraestrutura. Trata-se de uma escolha política. A cidade funciona como ponto de interseção entre capital financeiro, mídia global, tradição esportiva e diplomacia cultural.
A Inglaterra é, hoje, o território mais avançado em termos de institucionalização do futebol feminino de clubes na Europa. A Women’s Super League (WSL) opera com os padrões de governança, audiência e patrocínio que a Fifa deseja escalar globalmente. Levar o torneio para Londres é, portanto, submeter os clubes não europeus a um ambiente regulatório e simbólico específico, no qual visibilidade, narrativa e valor de mercado são definidos a partir de parâmetros eurocêntricos.
Além disso, olhando para a capacidade de transformar o torneio em um espetáculo estruturado em quatro atos, Londres, o Arsenal e a base de torcedores das Gunners oferecem uma combinação de risco controlado e previsibilidade comercial. O histórico recente de partidas do Arsenal Women no Emirates Stadium, com públicos recorrentes acima de 35 mil pessoas, reduz a incerteza típica de eventos inaugurais e garante à Fifa um ambiente visualmente potente para televisão, patrocinadores e plataformas digitais.
Direitos de mídia
A política de transmissão da Copa dos Campeões Feminina é similar ao modelo aplicado na Copa do Mundo Masculina de Clubes 2025, com um parceiro responsável pela exibição mundial e parceiros estratégicos em cada país vinculado ao torneio.
O DAZN transmitirá gratuitamente os jogos decisivos em quase todo o mundo, com exceções relevantes. Os mercados nacionais dos semifinalistas permanecem protegidos, assim como a China.
Nos Estados Unidos, a transmissão ficará com CBS/Paramount+, DAZN e Fifa+. No Brasil, CazéTV. No Reino Unido e na Irlanda, Sky Sports. No Marrocos, SNRT.
Essa fragmentação controlada do acesso indica que o futebol feminino está sendo tratado como um produto em fase de engenharia, no qual distribuição, linguagem e alcance ainda estão em teste. Para Estados Unidos e Marrocos, o anúncio veio aos 45 minutos do 2º tempo e nem sequer consta nos conteúdos oficiais da Fifa.
Patrocínios
A lista de patrocinadores dos clubes participantes expõe com clareza a assimetria estrutural entre os modelos.
Corinthians
- Nike, Banco Bmg, Ezze Seguros, Esportes da Sorte, Gatorade, Remessa Online, Tecnogera e Vizzela Cosméticos.
O Corinthians opera a partir de uma lógica associativa, profundamente conectada ao consumo popular e à escala de torcida. O futebol feminino do clube é sustentado por marcas que buscam volume, capilaridade e identificação emocional. Há menos sofisticação financeira e mais dependência da força simbólica da instituição.
Arsenal
- Adidas, ABBYY, Athletic Brewing Co, Cadbury, Camden Town Brewery, ComAve, Emirates, eToro, Google Pixel, Hotels.com, IL Makiage, MG, NTT Data, Paramount+, Persil, Sobha Realty, Statsports e Visit Rwanda.
O Arsenal possui marcas globais envolvendo os segmentos de tecnologia, turismo, serviços financeiros e acordos de Estado, que coexistem em um ecossistema altamente profissionalizado. O futebol feminino é parte de uma engrenagem maior de branding territorial, exportação de imagem e diplomacia econômica.
Asfar
- Uhlsport, Loterie Nationale, Sidi Ali e Wafa Assurance.
No caso do Asfar, os parceiros institucionais constam nos canais oficiais do clube, porém não há exibição de marcas no uniforme, tanto da equipe masculina quanto da feminina. A ausência de propriedades comerciais visíveis diferencia o clube dos demais participantes e indica um modelo no qual a camisa não é utilizada como ativo central de monetização.
Gotham FC
- Nike, CarMax, Dove, Flamingo, LaCroix, RWJBarnabas Health e Tylenol.
O Gotham FC reflete o capitalismo esportivo norte-americano em sua forma mais pura. Há marcas de consumo massivo, saúde, bem-estar e lifestyle feminino.
Fifa
Até o fechamento deste conteúdo, a Fifa havia anunciado apenas um patrocinador do evento: a Kynisca, empresa fundada por Michele Kang. A empresária norte-americana de origem sul-coreana tem se consolidado como uma das investidoras mais influentes do esporte mundial nos últimos anos. Kang é a principal articuladora do primeiro modelo de gestão multiclubes dedicado exclusivamente ao futebol feminino, estruturado sob a marca Kynisca.
O portfólio do grupo inclui o controle majoritário do Washington Spirit (NWSL), do Olympique Lyonnais Féminin, o Lyon (França) e do London City Lionesses (Inglaterra). No caso do Lyon, a ascensão de Kang ao centro das decisões ocorreu em meio a tensões com a gestão anterior, em um processo que culminou na saída de John Textor do controle do clube feminino.
Asfar e o futebol feminino como política de Estado
O peso geopolítico do Asfar diante dos demais clubes da Copa dos Campeões Feminina é distinto. A presença da equipe em Londres é resultado direto de uma estratégia deliberada do Estado marroquino.
Fundado em 1958 por decreto real, o Asfar é parte orgânica das Forças Armadas Reais. A seção feminina, consolidada nos anos 2000, tornou-se o principal instrumento de projeção internacional do novo Marrocos idealizado por Mohammed VI. Sob a liderança de Fouzi Lekjaa, presidente da Federação Real Marroquina de Futebol, e acumulando poder político e esportivo, o país investe milhões de dólares por ano no futebol e direciona suas instalações tanto para o masculino quanto para o feminino.
Uma das últimas instalações inauguradas foi o Complexo de Treinamento Rei Mohammed VI, perto da capital, Rabat. De acordo com a BBC, o espaço serve como sede das seleções internacionais masculina e feminina, tanto na categoria sênior quanto na júnior. O centro de US$ 65 milhões possui, entre suas instalações, oito campos de futebol de tamanho oficial, quadras de futsal e de futebol de areia, academia, instalações médicas, uma piscina olímpica, salas de aula e um hotel cinco estrelas.
De acordo com o New York Times, após assumir a presidência da Federação Real Marroquina de Futebol em 2014, Lekjaa foi eleito para o Conselho da Fifa em 2021, ano em que também se tornou “ministro delegado do orçamento” de Marrocos, por recomendação do chefe de governo Aziz Akhannouch, um cargo que, essencialmente, significa que ele tem acesso irrestrito aos cofres do país.
O orçamento anual do futebol feminino no Marrocos era de US$ 65 milhões em 2023, ano da última Copa do Mundo de Futebol Feminino. Esse investimento não busca apenas resultados esportivos. Ele serve a três objetivos claros:
- Modernizar a imagem do país perante o Ocidente;
- Diferenciar Marrocos de seus vizinhos no Magreb, especialmente a Argélia;
- Utilizar o esporte como ferramenta de coesão nacional em temas sensíveis, como o Saara Ocidental.
As atletas do Asfar são símbolos de progresso e instrumentos de influência, para além do futebol.
Modelos de negócios
A Copa dos Campeões Feminina da Fifa 2026 coloca em confronto quatro modelos de negócios.
Arsenal
O Arsenal Women representa o estágio mais avançado da financeirização do futebol feminino. Ao liderar o Deloitte Football Money League 2026, com receita total de € 25,6 milhões na temporada 2024/2025, o clube estabeleceu um novo teto para a modalidade. O crescimento de 43% em um único ciclo reflete uma operação baseada em inteligência de dados, precificação dinâmica e exploração intensiva dos dias de jogo (matchday) como principal motor de receita.
Com € 7 milhões arrecadados apenas em dias de jogo e cinco partidas acima de 35 mil torcedores no Emirates Stadium, o Arsenal transformou o futebol feminino em um evento de massa recorrente, capaz de sustentar hospitalidade premium, licenciamento e patrocínios globais. A contratação recorde da canadense Olivia Smith, vinda do Liverpool por € 1,16 milhão, consolidou o clube como formador e comprador de ativos de elite em um mercado que começa a operar com lógica de escassez e valorização patrimonial.
Corinthians
O Corinthians, por sua vez, ocupa uma posição singular nesse ecossistema. Com arrecadação superior a R$ 20 milhões em 2025 (aproximadamente € 3,3 milhões), o clube construiu o modelo mais sustentável da América do Sul sem acesso aos mesmos mecanismos do capital europeu ou norte-americano. A base desse sucesso está menos na maximização financeira e mais na apropriação simbólica do futebol feminino como ativo identitário.
A premiação recorde de R$ 11,8 milhões na Libertadores Feminina evidenciou a dependência parcial do modelo sul-americano de receitas esportivas variáveis, mas negociações internacionais como a venda da zagueira Tarciane para o Houston Dash, da NWSL (hoje ela já está no Lyon), indicam que o Corinthians começou a operar, ainda de forma seletiva, dentro da lógica global de valorização e exportação de ativos. O diferencial do Corinthians está na separação estratégica de patrocinadores do feminino, evitando a diluição de valor e permitindo que as Brabas operem como submarca com métricas próprias de engajamento, consumo e conversão.
Gotham FC
Já o Gotham FC representa o polo oposto dessa equação. Inserido no mercado mais maduro de esportes femininos do mundo, o clube opera sob a lógica do capital de risco e da valorização de ativos intangíveis. De acordo com o portal Sportico, após rodadas de investimento envolvendo personalidades como Eli Manning e Sue Bird, o NJ/NY Gotham FC foi avaliado em cerca de US$ 40 milhões, posicionando-se entre os clubes mais valorizados da NWSL e ilustrando a crescente atratividade econômica do futebol feminino nos Estados Unidos.
Dessa forma, o Gotham não mede seu sucesso apenas por receitas operacionais, mas também pelo potencial de crescimento futuro e pela atratividade para investidores estratégicos. O teto salarial da NWSL, fixado em US$ 3,3 milhões, funciona como um instrumento de controle competitivo, mas não limita a ambição do clube no mercado de transferências, como demonstra a compra de Jaedyn Shaw por US$ 1,25 milhão. O modelo de “celebrity ownership” (“propriedades de celebridades”, em tradução livre), com nomes como Kevin Durant e Eli Manning, insere o futebol feminino no ecossistema do entretenimento norte-americano, no qual esporte, mídia e cultura pop operam de forma integrada.
Geopoliticamente, o Gotham simboliza a resistência dos Estados Unidos à perda de protagonismo no futebol feminino global diante do avanço europeu, utilizando Nova York como vitrine para manter o país como destino preferencial do capital privado.
Asfar
Por último, o Asfar opera fora das lógicas tradicionais de mercado. O modelo é institucional, sustentado por financiamento estatal direto e alinhado a uma estratégia nacional de longo prazo. O clube funciona como braço esportivo da Federação Real Marroquina de Futebol e das Forças Armadas Reais, com acesso privilegiado ao Complexo Mohammed VI, uma das infraestruturas mais avançadas do futebol mundial.
Diferentemente de Arsenal, Corinthians e Gotham, o Asfar não busca equilíbrio financeiro imediato nem “valuation” de mercado. O objetivo central é a produção de capital simbólico. Ao dominar a Champions League da Confederação Africana de Futebol (CAF) e atuar como principal exportador de atletas para ligas como França e Espanha, o clube consolidou Marrocos como novo polo do futebol feminino no mundo árabe. O retorno esperado é diplomático, cultural e geopolítico.
Premiação e troféu
A premiação do torneio é de US$ 2,3 milhões ao clube campeão, enquanto o vice ficará com US$ 1 milhão. O valor é muito próximo ao que o Corinthians recebeu na Conmebol Libertadores 2025 (US$ 2,05 milhões) e que o Arsenal recebeu pela Women’s Champions League da última temporada (US$ 1,8 milhão).
Além dos finalistas, as duas equipes eliminadas nas semifinais receberão US$ 200 mil cada uma pela participação. Já os clubes que saíram nas fases anteriores — Auckland United (Nova Zelândia) e Wuhan Chegu Jiangda (China) — terão direito a US$ 100 mil cada um.
O troféu foi apresentado na semana passada e conta com seis mapas que representam a localização de cada nação participante, dispostos em torno de um emblema central.

Redes sociais
O Arsenal possui redes sociais independentes para os times feminino e masculino. Ainda assim, apenas às vésperas do torneio o clube publicou um conteúdo direcionado à sua torcida com apelo explícito de engajamento em torno da competição.
Confira a base de seguidores das Gunners nas principais plataformas:
| 2,1 milhões | |
| 5,7 milhões | |
| X | 800,8 mil |
| TikTok | 926,4 mil |
O Corinthians também opera com perfis independentes para o futebol feminino. Diferentemente do Arsenal, as Brabas realizaram uma campanha consistente de conexão com o público, com postagens recorrentes ao longo dos 15 dias que antecederam o torneio.
As ações incluíram sessões de fotos das jogadoras em cenário lúdico inspirado em Londres, recepção no aeroporto da capital inglesa com transmissão ao vivo pela Corinthians TV, colaboração com a CazéTV e conteúdos de bastidores voltados à construção narrativa do Mundial.
Confira a base de seguidores das Brabas nas principais plataformas:
| 1,9 milhões | |
| 309 mil | |
| X | 391,5 mil |
Diferentemente dos demais semifinalistas, o Gotham FC não nasceu associado a um clube masculino tradicional. É o caçula entre os quatro, fundado em 2006 como Jersey Sky Blue e rebatizado oficialmente como NJ/NY Gotham FC em 2021, já sob a lógica de franquia da NWSL.
A produção de conteúdos específicos para a Copa dos Campeões Feminina foi intensificada apenas na semana que antecedeu o torneio.
Confira a tabela de seguidores do Gotham FC:
| 223 mil | |
| 309 mil | |
| X | 84,1 mil |
| TikTok | 38,4 mil |
| YouTube | 2,31 mil |
Entre os semifinalistas, o Asfar é o clube com menor presença digital. A equipe mantém perfis independentes apenas no Instagram e no Facebook, e as publicações relacionadas ao novo torneio da Fifa tiveram início apenas três dias antes do evento.
| 16,2 mil | |
| 21 mil |
Conclusão
A edição de 2026 da Copa das Campeões Feminina da Fifa representa a primeira tentativa formal da entidade de organizar um torneio global de clubes femininos sob uma lógica comercial unificada. Independentemente de desdobramentos futuros, o evento estabelece um marco institucional na trajetória recente da modalidade e cria, pela primeira vez, um ambiente comparável para a análise dos diferentes sistemas mercadológicos que estruturam os clubes femininos.
