O presidente do Flamengo, Luiz Eduardo Baptista, concedeu entrevista ao Mengocast, podcast da Flamengo TV, em que falou sobre a gestão do clube em áreas como direitos de transmissão, infraestrutura e marketing.
O dirigente avaliou o atual momento do futebol brasileiro e as movimentações para o ciclo de 2026, destacando que o sucesso Rubro-Negro, como o obtido na última temporada, quando conquistou o Campeonato Brasileiro e a Libertadores, exige eficiência financeira e planejamento de longo prazo.
Libra
Após sucessivas disputas judiciais e administrativas com a Liga do Futebol Brasileiro (Libra), da qual faz parte, e com clubes que a integram, Bap contou que o clube voltou ao comando do bloco.
Ele integra, junto com Raul Aguirre, CEO da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Bahia, o comitê gestor da Libra.
A discordância central do Flamengo com a entidade é na divisão de receitas dos direitos de transmissão, especificamente no percentual atrelado à audiência e ao desempenho comercial.
“O Flamengo aceita casar com comunhão parcial de bens. Sabe o que significa isso? Você tem R$ 1 [milhão], eu tenho R$ 10 milhões. Eu entrei no casamento com 10, você entrou com um, nós temos 11”, explicou ele.
“Tudo o que fizer além de 11, vamos discutir como é que vai dividir. Os meus 10 eu não vou ceder para ninguém”, acrescenta.
Bap afirma que, quando chegou na Libra, após ser eleito presidente do Flamengo, não havia um “casamento com comunhão de bens”, mas uma “certa desapropriação do ativo do Flamengo”.
“Estava definido que 70% do dinheiro da Libra era [dividido] em partes iguais, 30% estava escrito no contrato que dependia do tamanho e da audiência que cada clube tem” , conta o presidente do clube.
Bap defende que essa divisão seja de acordo com o percentual de assinantes de cada clube no Premiere, serviço de pay-per-view da Globo, que adquiriu os direitos dos jogos dos times da Libra como mandantes, em contrato que vai de 2025 a 2029.
“A gente já entubou 70% do dinheiro. Nos outros 30% eu vou brigar. Havia uma dissensão, eles entendiam que podiam decidir algo diferente. O estatuto dizia que tinha que ser por unanimidade. O Flamengo não ia dar unanimidade”, recordou Bap.
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Direitos de transmissão

A estratégia do Flamengo para negociação de seus direitos de transmissão já pensa em um cenário pós-2029, quando encerra o atual contrato com a Globo para o Campeonato Brasileiro.
A ideia de Bap é utilizar a Flamengo TV para adquirir conhecimento técnico e operacional que permita ao clube realizar vendas diretas ao consumidor (DTC, na sigla em inglês), eliminando a necessidade de intermediários em mercados estratégicos.
“Pode chegar um dia em que a gente não tenha um contrato de direito de transmissão assinado com ninguém. Vai depender do que vão pagar pelo Flamengo”, contou Bap.
“O Flamengo não vai aceitar receber menos dinheiro do que ele julga importante, porque vou ter condições de vender direto ao consumidor final, como hoje em dia Netflix, Apple e Amazon fazem”, acrescenta.
A partir de 2029, caso não receba uma proposta vantajosa, o presidente do Flamengo prefere estabelecer voo solo e se relacionar diretamente com o torcedor.
“Nessa hora eu não preciso de intermediários. O objetivo é preparar um negócio para fazer o Flamengo ser visto em qualquer lugar do planeta, vendendo diretamente ao consumidor, onde quer que ele esteja”, defende o cartola.
Tal estratégia já foi implantada no ano passado na venda dos 19 jogos do clube como mandante no Brasileirão para o mercado externo. Neste ano, houve um ajuste nessa estratégia. O clube desistiu de focar no streaming pago e tornou gratuitas suas partidas no Campeonato Carioca e no Brasileirão para o mercado externo.
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Estádio

Sobre a construção de uma arena própria no terreno do Gasômetro, o dirigente ressaltou que a viabilidade do projeto depende da conjuntura macroeconômica do país.
O custo financeiro da obra, atrelado às taxas de juros vigentes, é o principal entrave para o início imediato das intervenções no local. Bap diz que o clube irá priorizar a manutenção da competitividade esportiva em detrimento de um endividamento que comprometa seu fluxo de caixa.
“Nós não vamos fazer um estádio com taxa de juros como está no Brasil hoje. Custa R$ 3 bilhões um estádio, 15% de juros ao ano, são R$ 450 milhões, que são € 80 milhões. São dois Paquetás por ano de juros, sem pagar nada do principal”, contabiliza.
Para ele, fazer um estádio nessas condições significaria um “suicídio esportivo”. “Mas, com taxa de juros caindo e o Flamengo dobrando de tamanho, tenho certeza absoluta que daqui a três ou quatro anos essa visão que eu tenho hoje será alterada”, prevê.
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Patrocínios
A área de marketing foca na prospecção de parcerias com empresas que buscam crescimento acelerado de visibilidade, como os acordos vigentes com GAC, Ademicon e o BRB .
Segundo Bap, os patrocínios no uniforme hoje somam R$ 475 milhões por ano, fazendo da camisa do Flamengo a mais valorizada do futebol brasileiro.
“Quem está procurando só uma marca para botar na camisa, não está pensando em ter um parceiro que vai crescer. Aquele parceiro bota a marca ali e, em três meses, não deu certo, quer ir embora”, compara Bap.
“Aí o Flamengo é malvadão. Deu sorte com os patrocínios que escolheu. Os caras falam: ‘É incrível, vocês só escolhem patrocinador que não vai embora’. É tudo sorte”, ironizou o dirigente.
Moda

O presidente rubro-negro lembra que há outras formas de arrecadação. Uma delas será expandir a atuação do clube para o segmento de moda casual com o lançamento de uma marca própria.
“Estamos desenvolvendo o Flamengo para além dos 70 dias em que temos jogos no ano. Nos outros 295 dias tem vida. O Flamengo vai entrar na parte de moda casual e lifestyle”, conta Bap.
O dirigente afirma que o Flamengo será o primeiro clube do Brasil que irá desenvolver produtos voltados exclusivamente para o público feminino.
“Normalmente as lojas vendem a camisa P de modelagem masculina para as meninas. Elas compram, dão uma torcida, cortam uma coisa, emenda na outra, mandam costurar, vão na costureira”, relata o dirigente.
“Seus problemas vão acabar, como dizia o pessoal do Casseta & Planeta. Vamos ter moda feminina e vem muita coisa bacana no Flamengo fora do campo”, completa.
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Finanças
O presidente do Flamengo destacou também que a manutenção da saúde financeira do clube permite cumprir com todas as obrigações fiscais e trabalhistas. Bap justifica o reajuste das mensalidades do programa de sócio-torcedor como necessário para manter o equilíbrio nas contas.
“Não temos um único boleto atrasado, não temos um centavo de dinheiro atrasado de atleta, de salário de funcionário, de comissão de agente, de imposto que a gente deve. A gente não deve INSS. Não deve nada a ninguém”, lista ele.
“O Mengão campeão também sofre o efeito da inflação e você tem que, de alguma maneira, passar isso adiante. Senão, você perde competitividade e não consegue ter jogadores do nível que temos”, justifica.
Aerofla
Outra novidade anunciada por Bap é a implantação, em breve do Aerofla. Ele conta que, atualmente, 100% dos voos utilizados pelo Flamengo são fretados.
Para o meio do ano, o clube estuda o leasing de uma aeronave própria para garantir disponibilidade total de horários de acordo com o calendário de preparação do elenco em contrato de três ou quatro anos.
“Essa aeronave poderia prestar serviço para outros clubes. Ficaria mais barato para o Flamengo e para os outros clubes. Quando o Flamengo está no Rio, a aeronave estaria em chão”, conta o presidente do Rubro-Negro.
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