O mercado de consórcios voltou a crescer no Brasil, com as empresas do ramo aproveitando o momento de expansão para investir cada vez mais no futebol, principal esporte de massas do país.
De acordo com dados da Associação Brasileira de Administradoras de Consórcios (Abac), o setor teve um aumento de 32% em relação a 2025, especialmente pelo volume de cotas comercializadas (quase 5 milhões), de participantes ativos (mais de 12,7 milhões) e em volume de negócios (mais de R$ 500 bilhões). Ainda segundo a entidade, o total de cotistas ativos cresceu mais de 50% desde 2022.
Em um cenário marcado pelo crescimento, mas também pela competitividade, as administradoras têm buscado se associar a clubes e competições esportivas, como forma de se destacarem junto ao público.
Caso do Flamengo, que nesta temporada fechou acordo com a Ademicon. A empresa passou a ter sua logomarca estampada na barra frontal da camisa rubro-negra. A companhia também já era parceira de São Paulo, Coritiba e Athletico-PR.
“O Flamengo tem uma preocupação para que cada um desses caras (patrocinadores) tenham sucesso no que eles vão fazer. Nós trouxemos uma empresa de consórcio, que está voltando a crescer no Brasil, taxa de juros alto, o consórcio vai crescer. Nós escolhemos ter uma empresa de consórcio séria, porque a gente acredita que isso vai ter um futuro no Brasil. Então essa é a razão, não é só um patrocinador, é um parceiro”, disse Luiz Eduardo Baptista, o Bap, presidente do clube.
A estimativa é de que, somada todas essas companhias que investem nesse esporte, os créditos comercializados por parte delas tenha atingido R$ 1 bilhão por ano originados no futebol.
A Embracon, que possui um contrato com a Federação Paulista de Futebol (FPF), por meio da LiveMode, com a presença da marca nas placas de publicidade nos estádios, recentemente firmou parceria de dois anos com o Palmeiras.
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Também nos últimos meses, a Rodobens, cuja sede é em São José do Rio Preto, no Noroeste Paulista, voltou a investir no esporte ao fechar patrocínio com o Mirassol, clube da região que disputa a Série A do Brasileirão.
A última vez que a empresa havia estampado uma marca em camisa de time de futebol foi no América de Rio Preto, nos anos 1990, quando a equipe disputada a Série A1 do Paulistão.
“A entrada de empresas de consórcio amplia a concorrência pelo mercado de patrocínios e isso tende a beneficiar os clubes. Quanto maior o número de setores e portanto de agentes econômicos disputando espaço no futebol, maior é o potencial de valorização dos ativos comerciais e de crescimento das receitas recorrentes das equipes”, afirma Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças do futebol.
Outros acordos
No fim do ano passado, quem também anunciou um contrato com uma empresa do segmento foi o Vitória, com a Alpha Consórcios. O acordo prevê a exposição da marca na parte superior traseira das camisas do time profissional masculino, feminino e das categorias de base.
No Corinthians, a Kasinski Consórcio (KSK) patrocina o futebol e o basquete feminino. Em 2024, foi iniciada uma parceria entre o Vasco e o Consórcio Tradição, válido por duas temporadas.
Na Série A, o acordo da Multimarcas com o Atlético-MG chega ao sétimo ano de parceria.
“Em um cenário em que o mercado de consórcios cresce ano após ano, nós utilizamos a força do futebol para ir além da exposição de marca no uniforme: buscamos a conexão real. Acreditamos em parcerias de longo prazo, nas quais a marca se conecta à história do clube e às necessidades do seu torcedor. Por meio de produtos customizados, transformamos o patrocínio em uma plataforma de negócios que gera valor e confiança. Não medimos o sucesso apenas pela visibilidade, mas pela solidez da relação que construímos com o torcedor ao longo dos anos”, explica Thales Rangel Mafia, gerente de marketing da Multimarcas Consórcios.
Um pouco antes da pandemia, em 2019, a companhia resolveu patrocinar o esporte, tornando-se uma das pioneiras junto ao Atlético-MG. Neste período, também já estampou a logomarca em outros clubes como Cruzeiro, Flamengo, Vasco, América-MG, Paysandu, Avaí, Fortaleza e Sport.
“Diferente do consórcio, que cresceu em um ritmo constante nos últimos 20 anos, as empresas de apostas esportivas cresceram de forma extremamente acelerada desde que chegaram ao Brasil, criando uma disparidade nos patrocínios esportivos em relação aos demais segmentos que investem nos clubes. Em contrapartida, os clubes também democratizaram os espaços para receber novos parceiros, tanto nas camisas como nos projetos especiais, em canais digitais, redes sociais e produtos personalizados ou licenciados. Isso cria alternativas para investimentos nos clubes de forma sustentável”, explica Thales.
Na visão do executivo, as ativações no futebol não apenas fortaleceram a marca, como aprofundaram o vínculo com os clubes e as torcidas, além de ajudar a potencializar os resultados concretos.
Somados, os produtos criados em parceria com os clubes patrocinados já resultaram em mais de R$ 500 milhões em créditos comercializados. Esse valor, somado, é relativo às ativações feitas em grupos de consórcios criados em parceria Atlético-MG (Consórcio da Massa), Vasco (Consórcio do Vascão) e Paysandu (Consórcio do Papão).
“O mercado de consórcios cresceu muito nos últimos anos e, naturalmente, os patrocínios tendem a acompanhar essa expansão, impulsionados, em grande parte, pela visibilidade excepcional que o futebol oferece. No entanto, a exposição por si só não basta. É essencial desenvolver ações estratégicas para ativar a marca e engajar verdadeiramente o torcedor. Na parceria com o Atlético-MG, por exemplo, criamos o Consórcio da Massa, um produto exclusivo para o torcedor, além de realizarmos ações especiais como no aniversário do clube. As ativações no futebol não apenas fortalecem nossa marca e aprofundam o vínculo com o clube e a torcida, como também geram resultados concretos”, acrescenta o executivo da Multimarcas.
“O futebol é uma excelente plataforma de negócios no Brasil. Nossa estratégia de patrocínio reforça isso. Mais do que aumentar a visibilidade da empresa, essas parcerias ajudaram a consolidar a nossa marca como uma empresa que entende e se conecta verdadeiramente com o torcedor. E esse é um dos nossos maiores diferenciais, a proximidade com o torcedor, que depois se torna cliente. Ao se posicionar como uma marca próxima aos torcedores, reforçamos a nossa mensagem de respeito e confiança, com o clube e sua torcida”, complementa Thales.
Além da Multimarcas, existem mais cinco outras empresas patrocinando o futebol no Brasil.
“Com a presença massiva das bets, o grande desafio para marcas de outros segmentos é se diferenciar criando narrativas autênticas e ativações que complementem a exposição no uniforme, transformando presença em conexão e lembrança real com o torcedor”, observa Ivan Martinho, professor de marketing esportivo pela ESPM e colunista da Máquina do Esporte.
Na avaliação de Alexandre Frota, CEO da FutPro Expo, o crescimento expressivo do mercado de consórcios no Brasil mostra como o setor vive um momento de consolidação e ganho de confiança do consumidor.
“O futebol, por sua capilaridade e conexão emocional com milhões de brasileiros, se torna um canal estratégico para essas empresas. Mais do que visibilidade, estamos vendo uma mudança de mentalidade, em que o patrocínio passa a ser tratado como plataforma de negócios e relacionamento”, analisa o executivo.
