Setor da economia responsável por 25,13% do Produto Interno Bruto Brasileiro (PIB) brasileiro em 2025, movimentado R$ 3,2 trilhões no período, o agronegócio ganhou status de pop em nosso país.
O agropop tem sua trilha sonora oficial (o sertanejo, em suas diferentes vertentes), seus megaeventos próprios (rodeios e exposições agropecuárias) e até mesmo um time para chamar de seu, o Cuiabá, que atua como um verdadeiro embaixador do segmento.
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Desde sua ascensão no cenário nacional, impulsionada a partir de 2015 graças aos investimentos da família Dresch, dona da Drebor (que adquiriu o clube em 2009), o Dourado tem se posicionado como a grande vitrine do agronegócio no futebol brasileiro.
Neste sábado (22), diante do Goiás, o Cuiabá levará a campo mais uma parceria com o setor, com a frase “Movido a Etanol” ocupando o espaço do patrocinador máster na camisa.
O jogo, que ocorrerá às 18h30 (horário de Brasília) na Arena Pantanal, será válido pela Série B do Brasileirão.
Milho vira combustível
O setor de biocombustíveis vive momento de expansão no Brasil, em meio a um cenário de disparada nos preços das fontes de energia derivadas de petróleo, por conta da guerra no Oriente Médio.
Nesta quarta-feira (20), a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou a estimativa de produção de etanol na safra deste ano, com o volume devendo chegar a 41,88 bilhões de litros.
E vem da Região Centro-Oeste, especialmente do Mato Grosso, o principal impulso para essa produção recorde, graças ao etanol de milho, cuja produção em 2025 deve crescer 17% no país em comparação ao ano anterior, alcançando 11,91 bilhões de litros no período. Enquanto isso, o álcool obtido a partir da cana deverá avançar 9,7%, com um total de 29,98 milhões de litros.
Atualmente, o Mato Grosso é o maior produtor de milho do Brasil, com uma média de 50 milhões de toneladas anuais.
O estado deve responder por 8,44 bilhões dos 41,88 bilhões de litros de etanol projetados para o país na safra deste ano, o que corresponde a 20,1% da produção nacional.
Desse total, 7,33 bilhões de litros serão obtidos a partir do milho, enquanto o 1,11 bilhão restante terá a cana-de-açúcar como matéria-prima. Mato Grosso detém uma fatia de 62% de todo o etanol obtido do processamento desse cereal no Brasil.
“Temos o compromisso de valorizar o estado do Mato Grosso e tudo aquilo que representa a força da nossa região. Essa ação demonstra justamente esse posicionamento, utilizando a visibilidade do Cuiabá para destacar a importância do etanol para o estado e para o Brasil. É uma forma de promover um setor estratégico para a nossa economia e, ao mesmo tempo, reforçar a identidade do clube e a nossa conexão com o Mato Grosso”, afirma Cristiano Dresch, presidente do Cuiabá.
Outras ativações com o agro
As ativações e parcerias do Cuiabá com o agro tornaram-se mais recorrentes a partir de 2022, seu segundo ano na Série A do Brasileirão.
Uma delas envolveu a primeira camisa de jogo do clube lançada pela marca própria Dourado, que fazia uma homenagem direta à soja e ao agronegócio de Mato Grosso.
O uniforme, predominantemente em verde e dourado, trouxe elementos visuais inspirados nos ramos da leguminosa e a frase “Soja, nossa riqueza dourada” gravada na barra. A camisa estreou na partida contra o São Paulo, na Arena Pantanal.
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O Mato Grosso, vale lembrar, é também o maior produtor de soja do Brasil, com uma área cultivada de 13 milhões de hectares e uma média superior a 50 milhões de toneladas colhidas (30% do total nacional).
A mais célebre das ativações do Cuiabá com o agro consistiu na “Colheitadeira do Dourado”, um carro-maca em formato de máquina agrícola, lançado na partida contra o Corinthians, pelo Brasileirão de 2022, e que contava até mesmo com um motorista caracterizado como fazendeiro.
A iniciativa foi resultado de uma parceria do clube com a Agro Amazônia, que patrocina o Cuiabá desde 2021.

Em 2023 a empresa fez parte de mais uma ação do clube, que consistiu no lançamento de uma camisa especial para o Dia da Consciência Negra, celebrado em 20 de novembro.
A peça utilizou referências à cultura africana e trouxe o punho cerrado como símbolo de combate ao racismo.
A ativação também envolveu funcionários negros da Agro Amazônia como modelos para fotos e vídeos realizados na Arena Pantanal.
Polêmicas em um país polarizado
Apesar de pop, o agro está longe de ser uma unanimidade em um país politicamente polarizado. Defensores (que tendem a ocupar o espectro político mais à direita) afirmam que o setor é a mola da economia brasileira, tendo sido responsável por um superávit externo de US$ 149,07 bilhões em 2025, garantindo que a balança comercial terminasse o ano com um saldo positivo de US$ 68,29 bilhões.
No mesmo período, os demais setores da economia brasileira (indústria, comércio e serviços) registraram um déficit acumulado de US$ 80,78 bilhões.
Os críticos (que costumam estar mais à esquerda), por outro lado, argumentam que esses resultados são obtidos a partir de uma política deliberada de desindustrialização do país, que direciona imensos subsídios públicos para um setor que entrega produtos primários ou de baixo valor agregado.
O Plano Safra 2026/2027, do Governo Federal, destinou R$ 525,1 bilhões aos grandes e médios produtores, sendo que a grande fatia (R$ 384,9 bilhões) foi voltada para bancar insumos e despesas de plantio e colheita em culturas voltadas basicamente à exportação (ou seja, sequer alimentam os brasileiros).
Os adversários do agro também afirmam que o setor ainda teria como pilares estruturas arcaicas como o latifúndio (modelo baseado em imensas propriedades, que foi abolido nos séculos 19 e 20 em todos os países capitalistas desenvolvidos), a exploração trabalhista extrema, o desmatamento e a degradação dos recursos naturais.
Os defensores alegam, porém, que o agro brasileiro modernizou-se nas últimas décadas, agregando novas tecnologias de produção e garantindo melhores condições de trabalho e renda para a mão de obra. Sustentam ainda que o setor seria o grande interessado em proteger o meio ambiente e preservar os recursos naturais.
Os próprios dados sobre o peso do segmento na economia do país são díspares. Considerando-se apenas a agropecuária, o setor teria uma participação de 7,1% no PIB do Brasil em 2025, contribuindo com R$ 775,3 bilhões dos R$ 12,7 trilhões gerados pelo país no decorrer do ano, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Mas e o percentual de 25,13%, citado no início deste texto? Ele consta no relatório do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada da Universidade de São Paulo (Cepea/USP) e da Confederação Nacional de Agricultura (CNA), que leva em conta tudo o que a cadeia produtiva do agronegócio (incluindo insumos, equipamentos, logística) movimentou em 2025, que foi em torno de R$ 3,2 trilhões.
Nesse universo marcado por polarização e disputa de narrativas, estar presente no principal esporte de massas do país acaba se mostrando uma boa solução para o agro, em seu esforço para continuar a ser pop numa nação de contrastes.
