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Fair play financeiro: Caso Manchester City liga alerta para clubes brasileiros

Condenações na Europa e a implementação do modelo pela CBF colocam a gestão de finanças no centro dos debates

Jogadores do Manchester City comemoram gol marcado em partida da Premier League 2026/2027 - Divulgação

⚡ Máquina Fast
  • Manchester City foi considerado culpado de 115 violações financeiras na Premier League, envolvendo contratos fictícios e manipulação de receitas.
  • Sanções severas como perda de pontos, suspensão ou rebaixamento podem ser aplicadas, refletindo a rigidez do fair play financeiro na Europa.
  • No Brasil, a implementação do fair play financeiro pela CBF e a Anresf começam a impor punições rigorosas, incluindo transfer ban e rebaixamento, a clubes endividados.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Time mais vitorioso do futebol inglês nos últimos anos, o Manchester City iniciou a temporada 2026/2027 com uma péssima notícia. O clube foi considerado culpado de cometer 115 violações dos regulamentos financeiros da Premier League, em um caso que pode servir de sinal de alerta para clubes brasileiros, numa época em que normas de fair play financeiro passa ser implementadas nas Séries A e B do Brasileirão.

A liga considerou que o Manchester City organizou contratos falsos com diversos parceiros comerciais (especialmente os da patrocinadora máster Etihad Airways, que eram inflados de modo a camuflar investimentos do City Football Group, que burlavam as normas financeiras).

Além disso, registrou contas inexistentes, ocultou a verdade da situação financeira e violou os limites de gastos tanto da Premier League quanto da Uefa, além de cometer múltiplas violações de seus deveres de cooperação e boa-fé com a organização esportiva.

LEIA MAIS: Manchester City é considerado culpado de violar regras financeiras e pode ser punido pela Premier League

Por enquanto, ainda não está definida a punição a ser aplicada ao clube, que pode sofrer desde perda de pontos, passando pela suspensão da Premier League e até mesmo o rebaixamento.

“Esta é uma medida importante por parte da Premier League e mostra que os clubes, por maiores e mais relevantes que sejam, não estão livres para atuar como quiserem, com essa ‘criatividade’ financeira. Todos estão sob escrutínio. O futebol, hoje em dia, especialmente no futebol inglês, tem movimentado patamares enormes de dinheiro”, afirma Moises Assayag, sócio-diretor da Channel Associados e especialista em finanças no esporte.

Sanções pelo descumprimento das regras do fair play financeiro não são algo incomum no futebol europeu.

O Chelsea passou por uma situação semelhante, na qual foi multado em 10,75 milhões de libras por violar as regras do fair play financeiro da Premier League entre 2011 e 2018.

Outro caso emblemático aconteceu na temporada 2025/2026, quando o Leicester City foi rebaixado para a EFL League One, a terceira divisão do futebol inglês, em que sofreu uma redução de seis pontos após descumprimento das regras de lucro e sustentabilidade do fair play financeiro e caiu de divisão no final da temporada. Sheffield Wednesday passou pela mesma situação, em que perdeu 18 pontos e entrou para a história negativamente como o time mais precoce a ser rebaixado na história do futebol inglês, com 13 rodadas antes do fim da competição.

Na temporada 2023/2024, o Everton perdeu dez pontos na Premier League por violar as regras de rentabilidade e sustentabilidade da liga. A Juventus também enfrentou sanções da Uefa e da Serie A na temporada 2022/2023, tendo dez pontos retirados na liga italiana e, no ano seguinte, sendo removida da Conference League, além de receber multa de € 20 milhões.

“O caso do Manchester City, caso sejam referendadas todas as 114 acusações que foram provadas no julgamento de primeira instância, mostra uma leniência absurda por parte da Premier League, que, durante nove temporadas, praticamente fechou os olhos a inúmeras e contínuas infrações aos regulamentos financeiros. No Brasil, a primeira tarefa fundamental que a agência [Anresf] terá será garantir a adimplência dos clubes com relação às dívidas originadas das atividades do futebol. Para que isso seja efetivo, a agência deverá ter condições de tomar todas as medidas necessárias para punir os clubes que continuarem em situação de inadimplência, ainda que essas medidas sejam bastante duras, como a perda de pontos e, em casos extremos, até mesmo rebaixamento de divisão”, afirma Eduardo Carlezzo, advogado especializado em direito desportivo e sócio do Carlezzo Advogados.

Desafios no Brasil

No futebol brasileiro, casos como esse ainda são raros. O mais recente e emblemático envolveu o Cruzeiro, que, em 2020,foi punido pela Fifa, após o não pagamento de uma dívida com o Al-Wahda, dos Emirados Árabes Unidos, referente à compra do volante Denílson, e iniciou a Série B com menos seis pontos.

Apesar disso, a tendência é que as punições fiquem mais presentes no Brasil, principalmente após a criação da  Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf).

“Durante muito tempo, os clubes brasileiros se acostumaram a fazer altos gastos em contratações e acumular dívidas sem sofrer qualquer tipo de punição esportiva, algo que já acontece há anos na Europa. Agora, com o fair play financeiro em vigor no Brasil, a tendência é que, caso as equipes mantenham uma gestão temerária, medidas como essas se tornem cada vez mais frequentes”, explica Veridiano Pinheiro, diretor executivo da FutPro Expo.

O primeiro caso registrado de punição por fair play financeiro aconteceu com a Ponte Preta em junho de 2026, quando o clube foi excluído do Programa de Apoio à Reestruturação Financeira de Clubes da Série B (PARF-B) por causa dos atrasos salariais.

“É uma mudança importante na gestão dos clubes brasileiros porque estabelece limites e cria um meio de fiscalizar para evitar que os gastos sejam maiores que os cofres dos times. A tendência é que os clubes precisem ter cada vez mais planejamento, controle de custos e, principalmente, responsabilidade na formação do elenco para a temporada. O objetivo dessa regra é fazer com que os clubes se adequem aos imprevistos que surgem durante o ano e reduzir o risco de que os problemas financeiros comprometam os clubes a longo prazo”, explica Pedro Weber, especialista em finanças no esporte e CEO da NextPlay, empresa da Chenus Holdings.

Implementado em janeiro de 2026, o Fair Play Financeiro da CBF está em um período de transição que se estende até 2030. No ano passado, apenas três clubes da Série A seriam aprovados nos critérios do novo modelo regulatório: Flamengo, Palmeiras e Juventude.

“Estamos há três anos consecutivos com superávit, resultado de uma gestão baseada em responsabilidade e no nosso próprio modelo de ‘fair play financeiro’. Nosso compromisso é preservar o equilíbrio financeiro, independentemente do desempenho esportivo, com processos focados no crescimento sustentável das receitas. Com a consolidação oficial do modelo de fair play financeiro introduzido pela CBF, a tendência é que os clubes avancem para um cenário rigoroso e de segurança, algo que o Juventude já vem colocando em prática”, afirma Fábio Pizzamiglio, presidente do Juventude, que conquistou a Certidão Negativa Federal.

O documento comprova que o clube está com a situação fiscal e tributária regularizada e não possui dívidas pendentes.

No Brasil, o modelo aplicado tem foco em quatro quesitos: controle de dívidas em atrasos dos clubes, equilíbrio financeiro na operação, controle de custos com o elenco e controle das dívidas de curto prazo.

LEIA MAIS: Séries A e B do Brasileirão têm oito clubes ameaçados de transfer ban

Caso ocorra o descumprimento, os clubes podem sofrer sanções que incluem: advertência pública, multa, retenção de receitas, transfer ban, dedução de pontos, rebaixamento e não concessão ou cassação da licença.

Conforme noticiou a Máquina do Esporte, atualmente oito clubes nas Séries A e B do Brasileirão correm o risco de sofrer transfer ban imposto pela Anresf, por conta de dívidas não pagas.

Integram essa lista dos ameaçados de transfer ban na Série A: Atlético-MG, Grêmio, Internacional e São Paulo. Já na Série B, podem receber a punição e ficar impedidos de registrar novos atletas: Ceará, Fortaleza, Náutico e Ponte Preta.