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Com Fair Play Financeiro, Anresf tenta fazer futebol brasileiro superar cultura de “comprar e não pagar”

Em entrevista à Máquina do Esporte, Caio Resende, presidente da agência, comentou sobre o trabalho desenvolvido até o momento

Caio Resende é o presidente da Anresf - Reprodução / Máquina do Esporte

⚡ Máquina Fast
  • A Anresf, criada pela CBF, conseguiu unificar apoio dos clubes das Séries A e B para implementar o Fair Play Financeiro no Brasil.
  • Desde 2024, todas as contratações têm que ser registradas na CBF, e clubes inadimplentes têm sido sancionados sem resistências significativas.
  • O Fair Play visa mudar a cultura de inadimplência dos clubes brasileiros, que antes priorizavam dívidas internacionais e ignoravam as nacionais.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Tema que vem ganhando grande repercussão no país nos últimos anos, o Fair Play Financeiro parece que enfim veio para ficar.

Em entrevista à Máquina do Esporte, o presidente da Agência Nacional de Regulação e Sustentabilidade do Futebol (Anresf), Caio Resende, avaliou o trabalho desenvolvido até o momento pelo órgão criado pela Confederação Brasileira de Futebol (CBF).

“Tivemos algumas tentativas de implementação do sistema de Fair Play Financeiro no Brasil antes. A própria CBF buscou implementar ali, por volta de 2020. As ligas [FFU e Libra] tentaram criar os seus próprios modelos, em 2022 e 2023. E eu acho dessa vez a hora do Fair Play Financeiro chegou”, afirmou.

Na avaliação do executivo, a CBF tomou algumas decisões que ajudaram garantir o sucesso da iniciativa atual.

“Uma delas foi não impor o modelo de cima para baixo, mas criar um grupo de trabalho que atuou durante três meses, ano passado, na concepção do modelo. A gente conseguiu explicar como funcionavam os grandes modelos do mundo, falar da importância e dos resultados que esses modelos alcançaram, e então propor discutir com os clubes ideias de como poderia ser o modelo brasileiro”, disse Resende.

Na visão dele, ao envolver os times nas discussões do modelo, a entidade conseguiu tornar a ideia do Fair Play Financeiro uma unanimidade.

“Não vi, no ano passado ou agora, nenhum presidente de clube de Série A e B do Brasileirão criticando a ideia de um Fair Play Financeiro. Obviamente, existem discordâncias sobre o prazo dessa e daquela regra. Essas críticas são naturais, mas eu acho que a gente tem encontrado um apoio unânime dos clubes da Série A e B para a existência do sistema de regulação financeira do futebol”, explicou.

Entre os aspectos positivos que ele observa no período de transição, hoje em vigor, está no fato de os clubes haverem avançado na capacitação sobre o regulemento.

“E, além disso, algumas regras já começaram a valer. Acho que a principal delas é que, desde o início do ano, toda contratação tem de ser registrada no sistema da CBF, com o valor total e a forma de pagamento. Já estamos vendo alguns casos de clubes que fizeram contratações este ano, não honraram com as suas obrigações e foram sancionados pela agência. E, também nesses casos, não encontramos qualquer tipo de resistência ou crítica à atuação da agência no sentido de sancionar esses clubes. O que se busca é uma composição, uma negociação, às vezes os clubes conseguem acordar entre si um outro plano de pagamento”, afirmou.

LEIA MAIS: Séries A e B do Brasileirão têm oito clubes ameaçados de transfer ban

Mudar cultura

Na visão do presidente da Anresf, o futebol brasileiro havia normalizada a inadimplência entre os clubes nas transações de jogadores.

“Eu acho que no Brasil a gente tem, infelizmente, naturalizado uma situação que é a do clube que contrata um atleta, não paga, usa esse atleta, às vezes vende, recebe e não paga a transação original. Ou contrata dois, três jogadores do mesmo time e não paga. Então isso tudo tinha se tornado muito normal no futebol brasileiro. Fazia parte, entre aspas, essa ‘coisa de vendi e não recebi’, ‘comprei e não paguei'”, ponderou.

Resende avalia que várias transações no futebol brasileiro deixaram de ser realizadas ou ocorreram a um custo mais alto, por conta desse “caldo de desconfiança”, em que muitos clubes não acreditavam que os outros iriam honrar com os pagamentos, resultando em um mercado disfuncional.

Um agravante, para ele, residia na ausência de mecanismos internos eficazes de aplicação das regras de Fair Play Financeiro.

“Se um clube estivesse devendo dois atletas, duas transações, uma internacional e uma nacional, e tivesse dinheiro para pagar só uma, ele pagaria sempre a internacional. Porque lá fora existe o Tribunal do Futebol da Fifa, que dá punições sérias no caso de descumprimento de obrigações. Enquanto aqui no Brasil, tinha uma instância, que é a CNRD [Câmara Nacional de Resolução de Disputas], mas que estava com um processo muito moroso. Então, o clube sempre preferia pagar a dívida internacional em detrimento do sua contraparte nacional”, explicou.