Nas últimas duas décadas, o futebol deixou de ser apenas um esporte para se consolidar como uma das maiores indústrias de entretenimento do mundo. Direitos de transmissão, patrocínios, plataformas de streaming, casas de apostas, internacionalização de marcas e novos modelos de monetização transformaram clubes em verdadeiras empresas de mídia e conteúdo.
No Brasil, esse movimento ganhou escala com a profissionalização da gestão e a entrada de fundos de investimentos, junto com o avanço das SAFs. O valor econômico do jogo cresceu de forma acelerada. E, com ele, o impacto das decisões estratégicas tomadas hoje sobre o futuro dos clubes.
Discutir governança, estrutura de receitas e engenharia financeira é um debate fundamental que vai dizer quem serão os vencedores e perdedores num futuro próximo.
Os contratos de mídia, antecipações de receita e cessões de direitos não são detalhes operacionais. Muito pelo contrário, são decisões estruturais que moldam o poder de investimento, a autonomia e até a competitividade esportiva de um clube por décadas.
É por isso que qualquer mudança nesse campo precisa ser analisada de forma equilibrada.
O Grêmio discute, nos próximos dias, uma decisão que não é só esportiva: é uma decisão de finanças corporativas com impacto sobre a sobrevivência e sucesso do time. A possível ida do clube da Libra para a Futebol Forte União (FFU) vem embalada por um “alívio” imediato de caixa — mas, na prática, parece o tipo de engenharia financeira que pode comprometer o futuro do clube.
Pelo que foi noticiado pelo “GE”, a migração para a FFU faria o Grêmio receber um pouco mais de R$ 100 milhões nas próximas semanas, como antecipação de 10% da receita de TV firmada pelos próximos 50 anos. É um contrato que atravessa gestões, presidentes, conselhos, modelos de liga — e até mudanças estruturais do próprio mercado de mídia – que já tem mudado drasticamente.
A assimetria entre o “payback” e o prazo de cessão
O Grêmio é uma instituição tradicional, respaldada por uma base sólida e volumosa de torcedores. Pelas condições da proposta, o clube estaria trocando um fluxo de caixa recorrente por um adiantamento com alto custo de capital implícito.
Caso a antecipação gire em torno de R$ 109 milhões por 10% dos direitos por meio século, o modelo financeiro sugere que o fundo investidor recuperaria o montante aportado (payback) em aproximadamente 6 a 7 anos e, daí em diante, seguiria recebendo por mais de 43 anos.
Mesmo que pagasse uma gorda taxa de juros ao investidor (acima da SELIC atual), facilmente a antecipação seria devolvida ao investidor em menos de 10 anos. Se o Grêmio voltar a terminar em terceiro ou quarto colocado na Série A do Brasileirão, o payback encurta ainda mais.
São projeções, claro, mas a assimetria do contrato é objetiva: resolve o caixa de curto prazo vendendo um pedaço do futuro por meio século.
E essa conta é conservadora. O Grêmio divulgou balanço com receita de transmissão de R$ 178,6 milhões em 2024 (somando competições nacionais e internacionais), sendo aproximadamente R$ 160 milhões o relativo ao Campeonato Brasileiro. Se a base dessa receita é dessa ordem de grandeza, a fração cedida fica ainda mais valiosa no tempo.
O “alívio” de caixa
O argumento pró-antecipação sempre é o mesmo: “o clube precisa de caixa”. Sim! Mas a que preço?
O ativo “direitos de mídia” está em curva de alta. Não é o tipo de ativo que você deveria “fatiar” e vender por 50 anos para tapar buraco de curto prazo. É o tipo de ativo que você protege, melhora (performance + audiência) e usa como base para crédito mais curto e renegociável.
Basta observar exemplos recentes: o Athletico-PR vendeu 20% de seus direitos de transmissão por cerca de R$ 203 milhões, enquanto o Goiás fechou por aproximadamente R$ 152 milhões. Nesse cenário, os direitos do Grêmio foram avaliados de forma semelhante aos do Athletico e apenas 40% acima dos do Goiás.
Ocorre que o Grêmio opera em uma escala superior: é o clube mais popular do Sul e possui o triplo do engajamento digital do Athletico. Segundo a Atlas Intel, em 2025, o Tricolor tem a sétima maior torcida do país, com 9,9 milhões de torcedores, frente a 1,5 milhão do Athletico e 200 mil do Goiás.
Aqui não está em jogo apenas um adiantamento. É um valuation implícito de parte significativa do futuro do Grêmio. E, do jeito que está sendo apresentado, o valuation é muito baixo para um clube grande demais.
O Grêmio tem o direito de escolher a liga que melhor o represente. Mas não deveria tomar esta decisão considerando apenas o curto prazo e comprometendo o futuro do clube.
O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte
José Barreto de Andrade Neto é Mestre em Teoria Econômica pela USP e Economista especializado em Regulação Econômica
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