Opinião: Do rádio AM ao streaming: como a tecnologia mudou minha relação com o futebol

O dia 1 de novembro de 1992 foi um domingo. Eu estava em Boa Esperança do Sul, uma cidade pequena na região central do estado de São Paulo onde minha avó materna nasceu. Apesar de ser a terra da Vó Zezé, só fui conhecer a cidade naquele ano. Passou a ser um dos meus destinos favoritos, principalmente porque eu, aos 15 anos, jogava bola quase que o tempo todo quando estava por lá.

Na tarde daquele domingo, eu abri mão de jogar futebol com meus primos e amigos para ficar fechado no carro do meu pai, provavelmente um Opala ou um Monza. Era dia de clássico Palmeiras x São Paulo pelo 2º turno do Campeonato Paulista. Eu e meu irmão passamos alguns minutos no girar suave do seletor do rádio do carro, primeiro ouvindo o chiado terrível que era normal numa região remota que tinha poucas emissoras disponíveis.

Como num toque de mágica, um de nós conseguiu o ponto ideal para ouvir a linda voz de Fiori Gigliotti. Era a sintonia da Rádio Bandeirantes. Um tremendo privilégio. Naquela altura, estávamos dispostos a ouvir qualquer transmissão, mas paramos logo numa das nossas preferidas.

Assim eu acompanhei futebol na minha infância. Foram poucas visitas ao estádio porque meu pai tinha receio de multidões. Uma quarta-feira aqui, uma final de campeonato ali, a gente via o time de coração na TV. Então, eu ouvia muito rádio, de programas esportivos a transmissões, quase sempre na Bandeirantes com o Fiori e depois na Pan com José Silvério.

Era uma época em que eu imaginava o jogo mais do que via. Confiava na opinião do comentarista para saber o que ia bem e o que ia mal. Muitas vezes não via os gols, só o desenho das jogadas impresso no jornal. A única coisa a que eu tinha acesso além do meu time era o Campeonato Italiano, aos domingos, na tela da Band. 

Com a chegada da TV a cabo ao Brasil, veio a primeira grande transformação. Alguns dos jogos realizados em São Paulo, que quase nunca iam para a TV aberta, passaram a estar disponíveis no pay-per-view. Além disso, aumentou a oferta de campeonatos. Já era possível ocupar um fim de semana com diferentes transmissões esportivas. E eu via de tudo, colecionava camisas, começava a comparar e aprender. Passei a entender melhor o jogo, discutir tática, sugerir contratações e contestar substituições. 

Assim, quase sem perceber, saímos da nossa comunidade, do futebol que era focado na nossa cidade, e passamos a viajar pelo mundo. Nomes de jogadores, fisionomias e estilos de jogo ensinavam sobre diferentes nacionalidades e culturas. E foi mais ou menos a mesma época em que a União Europeia acabou com a restrição para estrangeiros do bloco. A mudança tornou ainda melhores aquelas ligas às quais já estávamos expostos todos os fins de semana.

O passo seguinte foi a expansão da internet, que facilitou o acesso à informação sobre os times de todos os lugares do mundo e a criação de bancos de dados que permitiam resgatar histórias que pareciam perdidas no tempo. Não sei dizer quantas horas passei no RSSSF [Rec.Sport.Soccer Statistics Foundation] viajando por tabelas e dados de jogos antigos. Quando as redes sociais explodiram, todo esse conhecimento ganhou um grande espaço para discussão.

Com o excesso de opções, passamos à era em que não só era possível preencher a programação de sábado e domingo com jogos de futebol do mundo todo, mas era preciso abrir mão de alguns deles para poder ter o mínimo de vida em meio às transmissões. A especialização do torcedor foi a consequência seguinte, com fãs questionando o conhecimento dos comentaristas e, algumas vezes, dedicando mais tempo a um time ou a uma liga do que um profissional consegue.

Outras novas formas de viver o futebol criadas numa época relativamente recente foram os jogos sobre os jogos. Videogames como FIFA e PES viraram febres globais. Se não tiver habilidade ou paciência pra mover os jogadores com o joystick, torcedores podem simplesmente usar um computador ou celular para escalar seus times e torcer a cada rodada com jogo tipo fantasy ou arriscar um dinheiro nas várias opções de apostas. 

Chegamos ao streaming com a popularização das plataformas para transmissão, avanço da tecnologia nas redes de transmissão de dados e a incrível capacidade que televisões, computadores e celulares possuem para exibir boas imagens. Hoje, o maior desafio para quem gosta de futebol é saber onde vão ser transmitidos os jogos preferidos, assinar os serviços que cabem no bolso, aproveitar o que ainda está disponível sem custo e organizar bem a agenda para ter vida além de ficar em frente a uma tela.

Difícil imaginar o que vem por aí. Aqui nos EUA, me divido entre ver meu time de coração em casa quando dá e quando tenho o serviço de streaming. Também me reúno com amigos para acompanhar os grandes jogos em festas ou bares, tudo isso sem ficar muito tempo longe dos estádios, que me fazem um bem danado.

A experiência dos meus filhos com tudo isso talvez inclua equipamentos para imersão nos eventos de forma virtual. E outras tecnologias que ainda não conhecemos. Só sei que será muito diferente do que eu vivi.

Sergio Patrick é especializado em comunicação corporativa e escreve mensalmente na Máquina do Esporte