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Segurança em eventos: A lição sangrenta de Hillsborough e os perigos da superlotação

Tragédia histórica no futebol inglês serviu como base para mudanças drásticas de segurança em eventos de massa, esportivos ou não; paralelo com o Carnaval de rua no Brasil é necessário e urgente

Ivete Sangalo reuniu 1,2 milhão em Carnaval de rua - Sergio Barzaghi/SECOM

Ivete Sangalo reuniu 1,2 milhão de pessoas no Pré-Carnaval de rua em São Paulo (SP) - Sergio Barzaghi / Secom

⚡ Máquina Fast
  • A tragédia de Hillsborough em 1989 foi um marco que transformou a gestão de multidões e a segurança em eventos esportivos no Reino Unido.
  • O Relatório Taylor resultou em medidas radicais como estádios sem grades, capacidade controlada e treinamento especializado para stewards.
  • Blocos de Carnaval superlotados expõem a falta de cultura de gestão de multidões no Brasil, mostrando a urgência de priorizar a segurança em grandes eventos.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Na coluna deste mês, decidi fazer uma pausa no esporte para falar de um tema da mais alta importância e que impacta a todos nós em grandes aglomerações, sejam esportivas ou não: a gestão de multidões.

É como bem diz o lema em inglês: “Safety First” (“Segurança Primeiro”, em tradução livre). Nenhum espetáculo, bloco de Carnaval, jogo ou show tem razão de existir se a vida dos participantes não for a prioridade absoluta. Hoje, ninguém entende isso melhor do que os ingleses, considerados os pais da gestão moderna de multidões. Essa consciência, porém, não veio de graça: foi comprada com o sangue de 97 torcedores em uma tarde de futebol que mudou para sempre a história dos eventos de massa. 

A tragédia ocorreu em 15 de abril de 1989, no Estádio Hillsborough, em Sheffield, durante uma semifinal da Copa da Inglaterra entre Liverpool e Nottingham Forest. Com portões superlotados e sob pressão da multidão do lado de fora, a polícia autorizou a abertura de um portão de emergência, levando um fluxo massivo de torcedores para um setor já lotado. Os alambrados, comuns à época, transformaram o espaço em uma armadilha. As pessoas foram comprimidas contra as grades, sem conseguir sair.

O resultado foi a morte por esmagamento e asfixia de 97 pessoas, incluindo crianças e adolescentes. Por décadas, uma narrativa falsa da polícia culpou os torcedores por “comportamento bêbado e violento”, até que uma longa batalha das famílias provou a verdade: foi uma falha catastrófica do planejamento e da gestão policial. 

O choque levou à criação do Relatório Taylor, investigação oficial que se tornou o marco zero da segurança moderna. Suas recomendações, implementadas em todo o Reino Unido, foram radicais: 

  • Eliminação das grades nos estádios e a transição para arenas 100% com assentos;
  • Revisão total da capacidade dos estádios, com cálculos precisos de fluxo e lotação;
  • Priorização do controle de multidões sobre o controle de “hooligans”, mudando o foco da polícia;
  • Criação do “Green Guide”, o “manual bíblico” britânico que estabelece padrões rigorosos para planejamento, infraestrutura, comunicação e gestão de emergências em eventos; 
  • Necessidade dos “stewards”, profissionais treinados especificamente para gestão de público, orientação e primeiros socorros, atuando em conjunto (não em conflito) com a polícia. 

Hoje, um estádio inglês é uma máquina de segurança, onde cada movimento de público é estudado, cada rota de fuga é clara e cada membro da equipe sabe seu papel. 

Infelizmente, outras nações aprenderam da pior forma. A tragédia da Love Parade em Duisburg, na Alemanha, em 2010, com 21 mortos, foi um “Hillsborough em ‘slow motion'”. O desastre não foi dentro de um estádio, mas em um túnel que servia como única entrada e saída para o festival. O planejamento ignorou os princípios mais básicos de fluxo e capacidade, concentrando um funil mortal. Foi a prova de que as lições de Hillsborough são universais: não se trata de estádios, mas de qualquer espaço em que multidões se movem. 

Carnaval

Tudo isso nos traz um paralelo urgente e brasileiro: os blocos de Carnaval cada vez maiores. Os recentes incidentes nos megablocos expuseram, de forma alarmante, a falta crônica de uma cultura de gestão de multidões. Vimos imagens aéreas de uma superlotação absoluta, com pessoas imóveis, comprimidas, sem rotas de escape claras, passando mal e pulando grades para ganhar espaço. 

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Não era “muita gente animada”; eram cenários de alto risco, em que um tropeço, um pânico, uma briga ou qualquer mínimo fator poderiam desencadear uma tragédia. A sensação de claustrofobia e descontrole era a mesma descrita por sobreviventes de Hillsborough e da Love Parade: “não era possível levantar os braços”, “não dava para sair”. 

A lição é cristalina: “Safety First” não é um slogan de plaquinha. É uma filosofia que exige investimento, planejamento científico, profissionalização da equipe de rua e coragem para dizer “não”, seja para vender um ingresso a mais, seja para autorizar um evento em uma localização inadequada.

Os 97 torcedores de Hillsborough, as 21 vidas da Love Parade e o susto coletivo em São Paulo gritam a mesma verdade: multidões mal geridas são bombas-relógio. Honrar a memória das vítimas é garantir que a próxima grande festa seja apenas isso: uma festa. E não uma grande tragédia. 

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Romulo Macedo é mestre em Gestão da Experiência do Consumidor e especialista em Gestão Esportiva, com papéis relevantes em diversos eventos esportivos mundiais

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