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Show de horrores: O preconceito, mais uma vez, é pauta no futebol

Futebol precisa decidir, de uma vez por todas, que não há mais espaço para racistas e misóginos dentro do seu ecossistema; neutralidade, neste tema, não é prudência, é conivência

Árbitro aciona protocolo antirracismo após denúncia de Vini Jr., do Real Madrid, em jogo com o Benfica - Real Madrid/Divulgação

Árbitro François Letexier aciona protocolo antirracismo após denúncia de Vini Jr., do Real Madrid, no jogo contra o Benfica - Divulgação / Real Madrid

⚡ Máquina Fast
  • Vini Jr. sofre ataques racistas recorrentes e o futebol começa a reagir com mais firmeza contra o racismo.
  • Gustavo Marques causou polêmica ao justificar mau desempenho de árbitra pelo fato de ser mulher, revelando preconceito de gênero no futebol.
  • Futebol precisa implementar formação contínua contra racismo e machismo para eliminar preconceitos estruturais e promover transformação real.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Nas últimas semanas, vivemos momentos absolutamente tristes no mundo do futebol, um verdadeiro show de horrores. Mais uma vez, Vini Jr. foi alvo de atos de injúria racial. Como se não bastasse, Gustavo Marques, zagueiro do Red Bull Bragantino, concedeu uma entrevista lamentável, na qual tentou justificar o suposto mau desempenho de uma árbitra pelo simples fato de ela ser mulher.

E ainda houve os torcedores da Portuguesa que falaram uma série de impropérios para Hugo Souza, goleiro do Corinthians, e um torcedor chileno preso por racismo no duelo entre Bahia e O’Higgins, válido pela Pré-Libertadores, na Casa de Apostas Arena Fonte Nova.

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Peço licença ao leitor: este não é um texto sobre marketing no futebol. É um desabafo. Um choro engolido. Uma indignação que já passou da hora de ser colocada para fora.

“O futebol é apenas um recorte da sociedade.”

Poucas frases explicam tão bem o momento atual. O que vimos recentemente não nasce no gramado, nasce fora dele e apenas se manifesta sob os refletores. O problema é estrutural. E tem nome e sobrenome: preconceito, ignorância e falta de educação.

Vini Jr. sofre ataques racistas de forma recorrente. O episódio contra o Benfica entra para a coleção do “caso isolado número 8.962” (sim, contém ironia). Esses “casos isolados” se repetem com uma previsibilidade constrangedora. E não, não ferem só a pele, ferem a alma, desgastam a mente, corroem a dignidade.

Quem acompanha a trajetória do Vini sabe: isso não começou agora. Provavelmente começou ainda na base, quando ele era só mais um menino preto correndo atrás de um sonho. A diferença é que, hoje, ele tem voz e consegue gritar.

O que muda desta vez é que, finalmente, parte do ecossistema do futebol começou a reagir com mais firmeza. Sem a velha postura protocolar. Sem o silêncio conveniente. Nomes como Thierry Henry, Luisão, Liliam Thuram, Vincent Kompany e Rio Ferdinand vieram a público cobrar responsabilização. Era o mínimo. Ainda é pouco, mas já é um avanço.

Os jogadores do Real Madrid também se posicionaram. Kylian Mbappé foi direto, confirmou o relato de Vini e disse, sem rodeios, que Gianluca Prestianni não deveria sequer disputar a Champions League. É esse tipo de posicionamento que começa a mudar cultura.

Mas sejamos honestos: ainda falta gente nessa roda. Especialmente atletas, ex-atletas e treinadores brancos. O combate ao racismo não pode continuar sendo uma pauta carregada apenas por quem sofre na pele.

Se Vini já se sentiu sozinho tantas vezes, é porque o silêncio de muitos ainda fala alto demais.

Racismo é nojento. É asqueroso. No Brasil, é crime. Em muitos outros países, ainda não. E como o futebol não legisla sobre nações, precisa legislar sobre si mesmo. Precisa criar punições esportivas reais, duras, exemplares e, principalmente, cumpri-las. Sem relativização. Sem corporativismo. Sem passar pano.

Vale registrar: Prestianni não negou a fala. Disse apenas que “não foi racista”. O que, por si só, já revela muito. Revela o quanto certas culturas ainda normalizam a desumanização de pessoas pretas. E isso precisa ser dito sem rodeios.

Como se o campo não bastasse, as arquibancadas também deram seu espetáculo deprimente, com torcedores, inclusive crianças, imitando macacos. Crianças não vão sozinhas ao estádio. Se repetem esse comportamento é porque alguém ensinou ou alguém deixou passar. E essa conivência também precisa entrar na conta.

No Brasil, a entrevista de Gustavo Marques adicionou mais uma camada constrangedora ao debate. Ao atribuir o suposto mau desempenho da árbitra Daiane Muniz ao fato de ela ser mulher, o jogador não cometeu apenas um erro, ele expôs um pensamento que ainda circula com naturalidade demais dentro do futebol.

E isso, sinceramente, é inaceitável em 2026.

A arbitragem feminina em competições masculinas não é novidade. Está consolidada. Ana Paula Oliveira, Fernanda Colombo, Edina Alves, Daiane Muniz, Katiuscia Mendonça, todas profissionais altamente preparadas, testadas e aprovadas no mais alto nível. Quando um árbitro erra, ele é chamado de ladrão, fraco, despreparado, mas ele nunca “errou porque é homem”. Questionar desempenho faz parte do jogo. Desqualificar por gênero é puro preconceito.

Essa declaração serve como alerta máximo: ainda há muito preconceito escondido nos vestiários, nos corredores dos Centros de Treinamento e, sim, em algumas salas de reunião. Por isso, clubes, federações, Confederação Brasileira de Futebol (CBF) e a própria indústria do futebol não podem e não devem baixar a guarda.

Chega de nota de repúdio que dura 24 horas no feed. Chega de textão institucional que não gera consequência prática. Quem sofre esse tipo de violência já está cansado de promessas vazias.

O futebol precisa agir onde realmente transforma, ou seja, na formação. Se um atleta pode assinar contrato profissional aos 16 anos, ele também deve, obrigatoriamente, passar por programas estruturados de letramento racial, de gênero e de cidadania, não como palestra simbólica de pré-temporada, mas como política contínua de formação.

Porque no fim do dia não estamos falando apenas de jogadores melhores; estamos falando de seres humanos melhores.

O futebol precisa decidir, de uma vez por todas, que não há mais espaço para racistas e misóginos dentro do seu ecossistema, ou seguirá sendo cúmplice silencioso de um problema que já passou, há muito tempo, do limite do tolerável.

Neutralidade, neste tema, não é prudência. É conivência. E a história costuma ser implacável com quem escolhe ficar em cima do muro.

O artigo acima reflete a opinião do(a) colunista e não necessariamente a da Máquina do Esporte

Lênin Franco é especialista em marketing esportivo, possui MBA em Gestão de Projetos e trabalha no mercado do futebol desde 2006. Chegou ao Bahia em 2013 como gerente de marketing e, na sequência, passou a comandar o departamento de negócios. Em 2021, chegou ao Botafogo como diretor de negócios e ajudou o clube a se estruturar para a chegada do investidor John Textor. Em 2022, assumiu a diretoria de negócios do Cruzeiro, integrando o time de dirigentes da SAF Cruzeiro. Por fim, em 2023, assumiu as áreas de marketing e comercial da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), liderando principalmente a renovação do contrato da Nike com a entidade. Atualmente, é sócio da 94 Marketing & Football

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