Depois de quase dois anos de rompimento, a paz voltou a reinar no basquete brasileiro. Nesta quarta-feira (2), a Confederação Brasileira de Basquete (CBB) e a Liga Nacional de Basquete (LNB) anunciaram um acordo que contou com as bênçãos da Federação Internacional de Basquete (Fiba).
O entendimento homologado junto à entidade máxima do basquete mundial definirá a governança do esporte no país a partir da próxima temporada.
A paz entre as duas entidades faz com que o Novo Basquete Brasil (NBB) volte a ter a chancela da CBB, podendo classificar seus times para competições internacionais oficiais da Fiba e de suas entidades filiadas.
O acordo enterra de vez a ideia de um Campeonato Brasileiro de Basquete próprio, da CBB, que seria organizado em parceria com a Dream Factory.
Conforme noticiou a Máquina do Esporte, o projeto foi lançado em 2023 e previa a participação de ao menos 10 equipes. A chancela oficial, que garantiria aos times a chance de obterem vaga para competições internacionais, era vista como o grande trunfo do possível torneio.
Em setembro daquele ano, Guilherme Kroll, então vice-presidente de esportes olímpicos do Flamengo, declarou à Máquina do Esporte que o clube (que, no futebol, tem a maior torcida do país) estava propenso a disputar a nova competição.
Uma das razões alegadas por ele eram as vantagens financeiras sinalizadas pela Dream Factory para a equipe rubro-negra aderir ao projeto.
“A Dream Factory garante um contrato de 10 anos e irá bancar despesas de viagens, hotel, alimentação, todas as taxas de arbitragem, produção dos jogos e mais um investimento financeiro em que todos os clubes serão contemplados”, contou Kroll.
“Ainda tem alguns ativos publicitários que estão sendo negociados com o nosso [departamento de] marketing, como placas de publicidade e espaços estratégicos na quadra de jogo”, completou o dirigente.
Projeto subiu no telhado
A empolgação em torno do projeto era grande, a ponto de a Dream Factory anunciar que pretendia distribuir uma premiação entre R$ 1 milhão e R$ 1,5 milhão para a primeira edição do torneio.
O campeonato estava previsto para começar na segunda quinzena de novembro de 2023, com término na segunda quinzena de junho de 2024.
A ideia, porém, não avançou e acabou subindo no telhado. No ano passado, o acordo da CBB com a Dream Factory chegou ao fim. Ao mesmo tempo, a entidade foi retomando o diálogo com a LNB.
No dia 7 de março deste ano, Rodrigo Montoro, presidente da LNB, e Sérgio Domenici, CEO da organização, estiveram presentes à solenidade de posse de Marcelo Sousa e Fábio Deschamps como presidente e vice-presidente da CBB, respectivamente.
Com o anúncio do acordo entre as entidades, os dirigentes trocaram afagos em suas declarações.
“É um novo momento para o basquete brasileiro. Conseguimos, todos nós, junto à Fiba, e com grande suporte do nosso presidente de honra, Guy Peixoto Jr., chegar em entendimentos que têm tudo para termos ganhos para a modalidade, e que beneficia todo o ecossistema. Vamos trabalhar juntos para que a história do basquete brasileiro siga vitoriosa, trazendo mais desenvolvimento em todas as áreas”, disse Marcelo Sousa.
Peixoto Jr., citado pelo atual presidente da CBB, participou das conversas com a Fiba, que resultaram no acordo com a LNB.
“Desejo um futuro brilhante para o basquete brasileiro. Só vejo uma forma de crescermos, que é todos juntos. O ecossistema unido pela modalidade. É uma conquista de todos que participaram desse projeto. Tenho certeza de que vamos colher frutos desse processo”, afirmou o ex-presidente.
NBB segue como liga profissional da primeira divisão do Brasil
O principal reflexo imediato da decisão foi manter o status do NBB como a liga profissional da primeira divisão do basquete brasileiro.
“É com muita alegria que celebramos esse novo momento do basquete brasileiro. As duas entidades, junto à Fiba, souberam transformar as divergências em um propósito comum para a modalidade, o que nos traz muita motivação para construir uma nova história. Esperamos que nosso basquete fique cada vez mais unido e que consigamos, juntos, desenvolver ainda mais a modalidade no Brasil”, destacou Rodrigo Montoro.
Mas as causas e consequências desse movimento vão muito além da competição de basquete masculino profissional.
Em junho de 2023, quando a CBB oficializou o fim da chancela ao NBB, muito se comentou acerca da polêmica envolvendo a indicação do representante brasileiro para o Campeonato Sul-Americano daquele ano.
À época, a CBB optou por ignorar o NBB e indicar a Liga Sorocabana para disputar a competição. A escolha contrariava o Termo de Cooperação, assinado pelas duas entidades 14 anos antes.
A Liga Sorocabana não tem vínculo com o NBB e disputava a segunda divisão nacional. A LNB defendia que o indicado fosse o Paulistano, fato que não ocorreu.
O desempenho do time de Sorocaba (SP) foi ruim. A equipe venceu o San Martin, da Argentina, na estreia (69 a 68), mas sofreu duas derrotas acachapantes nas partidas seguintes, para Titanes, da Colômbia (75 a 51), e Punto Rojo, do Equador (77 a 60). Com isso, foi eliminado na primeira fase.
Outros pontos sensíveis
Mas os pontos de atrito entre CBB e LNB não diziam respeito apenas ao basquete profissional. A Máquina do Esporte apurou que o papel de cada uma das entidades na gestão das categorias de base era uma questão que suscitava polêmica.
Desde 2011, a LNB organiza a Liga de Desenvolvimento de Basquete (LDB), que se consolidou como maior campeonato de base do esporte no país.
Ao longo de sua história, a competição utilizou diferentes limites de idade. Em alguns momentos, chegou a ser Sub-20. Atualmente, podem participar da LDB atletas de até 22 anos.
O atrito surgiu porque a CBB não desejava que a LNB fosse mais além nas categorias de base, com torneios para faixas etárias mais jovens.
Por enquanto, as duas entidades ainda não informaram qual será o papel de cada uma nessa área específica. A expectativa é de que ambas façam um anúncio conjunto em breve, definindo as funções das organizações no novo modelo de governança do basquete brasileiro.