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A evolução tecnológica e os negócios em torno das bolas das primeiras Copas do Mundo

Mundiais da Fifa na década de 1930 foram disputados com bolas de fornecedores locais dos países-sede e sem qualquer apelo comercial

Bola utilizada na primeira Copa do Mundo, em 1930, possuía fabricação totalmente artesanal - Reprodução

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  • A bola oficial da Copa do Mundo evoluiu de um objeto funcional para uma plataforma de storytelling comercial, como mostrado na próxima bola 'Trionda' da Copa de 2026.
  • Na final da primeira Copa do Mundo de 1930, foram usadas duas bolas diferentes devido à discordância entre os capitães, evidenciando a falta de padronização naquele período.
  • Em 1934, a bola oficial 'Federale 102' foi usada como instrumento político pelo regime fascista italiano, mas jogadores preferiram modelos britânicos pela qualidade superior.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

Atualmente, a bola oficial da Copa do Mundo cumpre um papel estratégico para a Fifa que vai além da sua função primordial dentro das quatro linhas. Nas últimas edições do Mundial, o objeto foi usado como plataforma de storytelling pela entidade máxima do futebol para amplificar o apelo comercial do torneio e ainda aumentar o engajamento do público por meio da estética dos modelos e ações interativas ao redor do mundo. 

Para a Copa do Mundo de 2026, tudo indica que Fifa e Adidas, fabricante das bolas do Mundial desde 1970, seguirão nesse mesmo caminho, porém com um foco ainda maior em gerar conexão e experiências através da “Trionda”, nome da bola do próximo Mundial.

LEIA MAIS: Adidas revela Trionda, a bola oficial da Copa do Mundo de 2026

Mas nem sempre foi assim. Nos primórdios da competição, que foi disputada pela primeira vez em 1930, no Uruguai, a bola não tinha qualquer tipo de apelo comercial e o seu único papel era fazer o jogo acontecer. 

A final com duas bolas (1930)

Na primeira edição da Copa do Mundo, disputada no Uruguai, em 1930, a Fifa não passou nem perto de produzir uma bola oficial para o torneio. Os responsáveis pelo item eram as próprias seleções, que forneciam as suas próprias bolas para as partidas, com a escolha do modelo que seria usado sendo feita em conjunto pelos capitães das equipes antes da bola rolar. 

Essa prática, no entanto, apresentava um risco, que era o de não se chegar a um consenso sobre qual bola utilizar no jogo. E isso aconteceu justamente na final do torneio, no duelo entre Uruguai e Argentina, em um dos episódios mais emblemáticos da história das Copas. À ocasião, os capitães não conseguiram chegar a um acordo sobre qual modelo usar na decisão e, a partir desse impasse, ficou definido que a partida seria disputada com duas bolas diferentes, uma em cada tempo.

Assim, a primeira etapa da final foi jogada com a bola argentina, chamada “Tiento”, enquanto a uruguaia “T-Model” ficou para o segundo tempo. Um detalhe interessante é que as bolas possuíam características diferentes, que refletiam as preferências de cada equipe.

A “Tiento” era um modelo com 12 painéis retangulares de couro que não possuía cadarços externos muito proeminentes e era considerada melhor para fundamentos como controle de bola e cabeceio. Além disso, também era percebida pelos jogadores como sendo menor e mais leve que a versão uruguaia.

Por outro lado, a “T-Model”, do Uruguai, era construída com 11 painéis de couro costurados à mão, com um formato característico que se assemelhava à letra “T”. O modelo ainda contava com uma abertura com cadarços de couro para fechar o acesso à câmara de ar interna, uma característica que tornava o cabeceio mais doloroso e imprevisível. No geral, as duas bolas eram feitas de couro natural e, por conta disso, absorviam água, o que as deixava mais pesadas em campos molhados.

Em relação à produção, não havia fabricantes oficiais licenciados pela Fifa na década de 1930, e as bolas eram produzidas por artesãos locais ou importadas de centros de produção estabelecidos, como a Grã-Bretanha. O processo era inteiramente manual, desde o corte dos painéis de couro até a costura e o enchimento. 

Essa fabricação artesanal ainda resultava em uma grande falta de uniformidade entre as bolas, sendo que cada uma delas podia variar em peso, forma e esfericidade, de acordo com a habilidade do artesão e do processo de enchimento. 

Também não havia uma marca corporativa por trás da fabricação das bolas ou qualquer tipo de marketing ou ação promocional em cima dos itens. O papel do objeto era estritamente funcional, sem qualquer apelo estético, comercial ou de merchandising, conceitos que nem eram conhecidos na época. 

Política até na bola da Copa (1934)

Depois de quatro anos do primeiro Mundial, a Itália foi escolhida para sediar a Copa do Mundo de 1934. Sob o governo fascista de Benito Mussolini, o evento foi extremamente politizado e usado como plataforma de propaganda para os interesses do regime italiano.

Nesse contexto, os governantes da Itália ordenaram que a bola oficial do torneio fosse de fabricação italiana, estabelecendo um precedente do país-sede do torneio fornecer o item para a competição. Porém, apesar dessa designação do regime italiano, na prática, o “ritual” de os capitães das equipes escolherem a bola antes de cada partida continuou prevalecendo, o que fez com que diversas bolas fossem utilizadas ao longo da Copa do Mundo. 

No geral, três modelos destacaram-se no Mundial de 1934. A bola oficial italiana, chamada de “Federale 102”, era produzida pela empresa estatal Ente Centrale Approvvigionamento Sportivi (Ecas), em Roma. Sua construção era de 13 painéis poligonais de couro costurados à mão. A principal inovação tecnológica foi a substituição dos tradicionais e duros cadarços de couro por cadarços de algodão, o que tornava o cabeceio significativamente mais seguro e menos doloroso para os jogadores.

Os outros dois modelos que marcaram a Copa de 1934 eram de origem britânica. A “Globe”, fabricada pela empresa Cliff’s, era um modelo mais tradicional de 12 painéis, similar aos usados na edição de 1930. Já a “Zig-Zag”, versão mais utilizada no torneio, era produzida pela William Sykes e também contava com 13 painéis, mas com um design inovador de cortes em formato de “T” e bordas em zigue-zague.

A qualidade e a popularidade da “Zig-Zag” entre os jogadores ainda fez com que a bola fosse escolhida para ser usada na final da competição, entre Itália x Tchecoslováquia, com o título ficando para os donos da casa. 

Em relação à “Federale 102”, o desenvolvimento da bola foi um projeto de nacionalismo industrial, impulsionado diretamente pelo governo fascista para promover a capacidade produtiva italiana. No entanto, a indústria britânica de artigos esportivos ainda era a referência de qualidade no mundo.

Dessa forma, a preferência dos jogadores e árbitros pelos modelos “Globe” e “Zig-Zag”, especialmente na final, demonstrou que a reputação e a qualidade percebida dos produtos britânicos superavam a imposição política da bola oficial italiana.

Por outro lado, a introdução dos cadarços de algodão na “Federale 102” foi uma melhoria técnica bem recebida, pois facilitava um jogo mais aéreo e dinâmico. Contudo, as questões políticas associadas ao modelo e, principalmente, o histórico de qualidade dos modelos britânicos pesaram mais na escolha para a maioria das partidas.

O marketing em cima da “Federale 102” ainda foi exclusivamente político e focado no mercado interno. A Ecas, sendo uma organização ligada ao regime da Itália, promovia a bola como um “produto italiano genuíno” e também exigia que os clubes locais substituíssem as bolas estrangeiras em um claro gesto de autossuficiência nacionalista. 

Assim como em 1930, não houve campanha de marketing voltada para o consumidor final ou para o mercado internacional, com o objetivo das comunicações a respeito da “Federale 102” sendo apenas reforçar a mensagem ideológica do fascismo por intermédio do esporte.

O começo da padronização (1938)

Dando sequência ao movimento iniciado no Mundial da Itália, a bola da Copa do Mundo de 1938 também foi produzida no país-sede do torneio, a França. Uma empresa chamada “Allen” foi a fornecedora escolhida, consolidando a prática de fabricação local para o evento. 

A bola da “Allen” não representou um grande salto tecnológico em relação às suas precursoras. A construção era muito similar à da “Federale 102” de 1934, composta por 13 painéis de couro costurados à mão e utilizando cadarços de algodão para fechar a abertura da câmara de ar. A principal diferença visual estava no corte dos painéis, que na Allen apresentavam bordas mais arredondadas, o que a deixava com uma aparência um pouco diferente.

Estabelecida em Paris, a “Allen” já era uma empresa com experiência no fornecimento de bolas para competições esportivas de elite. A companhia também foi responsável por produzir artigos esportivos para os Jogos Olímpicos de Paris 1924. Em relação à produção, o processo continuou sendo artesanal, com as bolas costuradas à mão e enchidas individualmente.

No geral, a bola da “Allen” foi considerada um equipamento padrão para a época. Porém, algumas imagens históricas do torneio sugerem que outros modelos de bolas, com 12 ou até 18 painéis, também podem ter sido utilizados em algumas partidas. Não se sabe o motivo por trás disso, mas é algo que indica que, embora houvesse uma bola “oficial”, a padronização completa em todos os jogos ainda não era uma realidade.

Além disso, a Copa do Mundo de 1938 foi palco de um dos primeiros exemplos documentados de marketing de emboscada no futebol. A fabricante francesa das bolas do torneio desenvolveu uma estratégia de marketing em que, antes do início das partidas, uma bola com a marca “Allen” visivelmente impressa era colocada sobre um pedestal no círculo central do campo.

Esta versão era destinada exclusivamente para ser fotografada pela imprensa, garantindo exposição para a marca. No entanto, as bolas que de fato eram usadas durante os jogos não tinham qualquer marca ou logotipo. Ali se começava a perceber algum valor comercial ou publicitário em torno das bolas do Mundial.