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Das botas de trabalho às travas rosqueáveis: A evolução das chuteiras nas primeiras Copas do Mundo

Primeira reportagem da série especial da Máquina do Esporte aborda o desenvolvimento tecnológico e comercial das chuteiras nos Mundiais da Fifa entre 1930 e 1966

Entre 1930 e 1938, as chuteiras utilizadas nas Copas do Mundo derivaram de modificações feitas em botas de trabalho - Reprodução

⚡ Máquina Fast
  • As chuteiras na Copa do Mundo entre 1930 e 1938 eram pesadas, feitas de couro rígido e com biqueiras de aço, focadas na proteção e durabilidade.
  • A cisão entre os irmãos Dassler em 1948 deu origem à Adidas e Puma, impulsionando a inovação tecnológica e a rivalidade no mercado de chuteiras.
  • Na Copa de 1954, a Adidas introduziu chuteiras com travas rosqueáveis que contribuíram para a vitória da Alemanha Ocidental no 'Milagre de Berna', marcando uma revolução técnica no esporte.
Pontos-chave gerados por IA, com edição jornalística.Feito por shiftx

A indústria global de artigos esportivos, mais especificamente o segmento de chuteiras para futebol, passou por uma transformação estrutural desde as primeiras edições da Copa do Mundo da Fifa, que começou a ser disputada em 1930. O que se originou como um setor de manufatura artesanal fragmentado, focado principalmente na proteção física dos pés dos atletas, evoluiu progressivamente para um cenário voltado para inovação tecnológica e disputas comerciais.

Entre as edições de 1930 e 1938 do Mundial, a realidade da fabricação de artigos esportivos era a de um setor baseado na questão da utilidade. Assim, as chuteiras utilizadas nas Copas do Mundo desse período derivaram de modificações feitas em botas de trabalho.

Esses calçados eram construídos com couro rígido e espesso, contavam com biqueiras de aço reforçadas para evitar lesões por esmagamento nos dedos e se estendiam para acima do tornozelo dos jogadores, como uma forma de priorizar a segurança em relação à mobilidade.

Essa composição ainda impactava consideravelmente no desempenho em campo dos atletas, já que o peso médio desses calçados era de aproximadamente 500g a seco. Porém, como o couro não possuía impermeabilização, a absorção de água fazia com que as chuteiras ultrapassassem 1kg quando encharcadas pela água da chuva ou a lama dos gramados da época. Além disso, os solados contavam apenas com cravos fixos pregados ou travas metálicas.

Nesta época, o processo de produção era majoritariamente artesanal, fragmentado e focado no abastecimento regionalizado. Pequenas fábricas locais atendiam às necessidades limitadas do mercado em cada país, sendo que marcas europeias, como a britânica Gola, fundada em 1905, a italiana Valsport, de 1920, e a dinamarquesa Hummel, criada em 1923, figuravam entre as principais fornecedoras operacionais.

O modelo de fornecimento de chuteiras aos atletas ainda refletia o amadorismo comercial e institucional que cercava o futebol na década de 1930. A economia do patrocínio era inexistente. Então, diante desse cenário, os próprios jogadores frequentemente precisavam adquirir e customizar seus calçados, ou no máximo dependiam do limitado fornecimento do material por suas respectivas federações nacionais.

O contexto da mídia também não favorecia a exploração da imagem, já que a ausência de transmissões televisivas globais e as restrições regulatórias em relação à publicidade no esporte da época impediam a comercialização da imagem do atleta. Com isso, o desenvolvimento das chuteiras nessa época focava na durabilidade e na prevenção de fraturas ósseas, sem qualquer preocupação com atributos de performance técnica, como aerodinâmica, velocidade ou o refinamento no controle tátil da bola.

Virada de chave veio no pós-Guerra

A grande virada de chave estratégica e tecnológica desse cenário ocorreu no período pós-Segunda Guerra Mundial, em um movimento que também foi acelerado por uma disputa corporativa e familiar. A separação dos irmãos Adolf (Adi) e Rudolf Dassler resultou na dissolução da Gebrüder Dassler Schuhfabrik em 1948, evento que marcou o nascimento de Adidas e Puma. Essa cisão ainda estabeleceu uma rivalidade industrial feroz no segmento esportivo, que passou a ditar o ritmo do mercado global nas décadas seguintes.

Apesar da Copa do Mundo de 1950, sediada no Brasil, ter evidenciado ao mercado o contraste entre o calçado europeu mais pesado e as botas um pouco mais leves adotadas pelos sul-americanos, o modelo produtivo ainda estava preso ao paradigma do couro tradicional e das travas moldadas estáticas.

O ponto de inflexão nessa história e o salto para a engenharia mecânica nas chuteiras só foram acontecer no Mundial de 1954, disputado na Suíça. Naquela edição, a seleção da Alemanha Ocidental, que teve seu material esportivo fornecido pela Adidas, entrou em campo utilizando chuteiras mais leves, sem a biqueira rígida de aço, e com solados mais estreitos e equipados com travas rosqueáveis e trocáveis de náilon e plástico.

O impacto técnico dessa inovação foi visto, principalmente, na final da competição, conhecida como o “Milagre de Berna”. Jogando contra a favorita seleção da Hungria, em condições de chuva forte e em um gramado lamacento, a capacidade dos alemães de substituir rapidamente as travas das suas chuteiras no intervalo da partida gerou à equipe uma tração superior no campo encharcado, contribuindo para a vitória por 3×2 sobre os húngaros.

Chuteira da Adidas usada pela seleção da Alemanha Ocidental na Copa de 1954 – Reprodução

Em relação à propriedade intelectual, ocorreu uma complexa disputa de autoria desse tipo de trava. A narrativa corporativa e as peças de relações públicas da Adidas creditam a Adi Dassler a invenção. No entanto, os registros do Escritório Alemão de Marcas e Patentes (DPMA) apontam que o mestre sapateiro Alexander Salot já havia registrado oficialmente um sistema idêntico de travas substituíveis em 1949.

Apesar dessa polêmica documental, foi a execução estratégica da Adidas que validou a adoção massiva em escala global, utilizando a primeira Copa com cobertura televisiva expressiva na Europa como uma prova de conceito global e firmando a marca como sinônimo de alta tecnologia no esporte.

Entre o final dos anos 1950 e a Copa de 1966, a engenharia das chuteiras ainda se desenvolveu consideravelmente. O mercado presenciou o início da substituição em larga escala de placas e componentes pesados de metal por solados baseados em polímeros leves de borracha e estruturas de náilon, além do melhoramento ergonômico dos calçados, que passaram a integrar cadarços centrais e cortes mais baixos para aumentar a amplitude de movimento do tornozelo.

A dinâmica da relação entre marcas, confederações e atletas para o fornecimento de material esportivo  também se alterou. As recém-criadas Adidas e Puma começaram uma corrida para assinar acordos de fornecimento exclusivos com as principais seleções da Europa e da América do Sul, focando não apenas na infraestrutura dos times, mas também seduzindo atletas de forma individual.

O domínio de mercado gerado por essas estratégias foi tão relevante que, na Copa do Mundo de 1966, realizada na Inglaterra, estimativas comerciais da época indicam que até 75% dos jogadores que disputaram o Mundial utilizaram chuteiras da Adidas no torneio.