A insistência do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em anexar a Groenlândia, território autônomo da Dinamarca, desencadeou uma crise diplomática com repercussões na Copa do Mundo de 2026.
A competição, organizada por EUA, Canadá e México, tornou-se ponto central de discussões sobre um possível boicote por parte de seleções europeias.
Segundo o diário britânico The Independent, altos funcionários da Fifa e da Uefa estão “muito preocupados” com o impacto da tensão geopolítica sobre o torneio. A possibilidade de uma invasão militar ou sanções econômicas severas poderia levar a uma resposta em bloco das federações do Velho Continente, em solidariedade à Dinamarca.
França
Na França, o cenário é de divisão. O ministro dos Esportes afirmou que o governo não apoia, no momento, um boicote oficial.
“Até o momento, não há qualquer intenção por parte do ministério de boicotar esta competição. Agora, não vou antecipar o que poderá acontecer, mas também ouvi vozes se manifestarem em certos blocos políticos”, afirmou Marina Ferrari, ministra dos Esportes, Juventude e Vida Associativa da França.
“Sou alguém que acredita em manter o esporte separado [da política]. A Copa do Mundo é um momento extremamente importante para quem ama o esporte”, complementou.
No entanto, a oposição política pressiona. Éric Coquerel, deputado do partido França Insubmissa, de orientação de esquerda, defendeu que os EUA deveriam perder o direito de sediar o evento caso as ameaças se concretizem.
“Sinceramente, é difícil imaginar ir jogar a Copa do Mundo em um país que ataca seus vizinhos, ameaça invadir a Groenlândia e desrespeita o direito internacional”, enfatizou o parlamentar.
Diplomacia
O governo alemão adotou uma postura de distanciamento, transferindo a responsabilidade para as entidades esportivas.
“As decisões sobre participação ou boicotes em grandes eventos esportivos são de responsabilidade exclusiva das associações esportivas competentes, e não dos políticos”, disse Christiane Schenderlein, ministra do Esporte da Alemanha, à agência France Presse.
Nos bastidores, a pressão recai sobre o presidente da Fifa, Gianni Infantino. A proximidade do dirigente com Trump, simbolizada pela criação de um “Prêmio Fifa da Paz” concedido ao mandatário norte-americano, coloca a entidade em uma situação delicada. A falta de governança colegiada na federação internacional faz com que todas as atenções se voltem para a figura do presidente.
Especialistas apontam que a Copa do Mundo se tornou um “ponto de pressão óbvio”. A exclusão da Rússia de competições internacionais devido à guerra na Ucrânia criou um precedente que dificulta qualquer margem de manobra caso os EUA iniciem uma ação militar.
“Seria surpreendente se os líderes europeus não estivessem discutindo seriamente um boicote como opção”, avaliou Nick McGeehan, um dos fundadores e diretores da ONG de direitos humanos FairSquare.
Otan
Alemanha, Áustria, Bélgica, Croácia, Escócia, Espanha, França, Holanda, Inglaterra, Noruega, Portugal e Suíça já estão classificadas para a Copa do Mundo de 2026.
Desse grupo, apenas austríacos e suíços não integram a Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), aliança militar que está em xeque com as ameaças de Trump sobre a Groenlândia.
Ainda lutam pelas quatro últimas vagas na repescagem europeia 16 países: Albânia, Bósnia e Herzegovina, Dinamarca, Eslováquia, Irlanda, Irlanda do Norte, Itália, Kosovo, Macedônia do Norte, País de Gales, Polônia, República Tcheca, Romênia, Suécia, Turquia e Ucrânia.
Dessa lista, só cinco (bósnios, irlandeses, kosovares, suecos e ucranianos) não são membros da aliança militar ocidental.
Até o momento, porém, não houve reuniões oficiais ou declarações públicas definitivas das federações ou dos governos dos países, que ainda aguardam o desenrolar dos eventos geopolíticos.
