A atual temporada do futebol feminino do país começou agitada. Na tarde desta quinta-feira (8), foi oficializada a dança das cadeiras no Brasileirão Feminino A1.
Em comunicado divulgado no período da tarde, a Confederação Brasileira de Futebol (CBF) confirmou as saídas de Fortaleza e Real Brasília da competição.
As vagas de ambos serão herdadas por Vitória e Mixto, equipes que fizeram as melhores campanhas no Brasileirão Feminino A2, entre aquelas que não haviam conquistado o acesso à primeira divisão.
Os últimos dias dias de 2025 haviam sido de muita especulação, depois que Fortaleza e Real Brasília anunciaram o encerramento de seus respectivos projetos no futebol feminino.
À primeira vista, os dois casos podem parecer isolados, já que envolvem situações peculiares de cada clube.
No Fortaleza, a razão alegada para o fim do time feminino é a queda da equipe masculina para a Série B do Brasileirão. O clube projeta um cenário de redução drástica de receitas para temporada 2026. No site oficial do Leão da Pici, a logomarca da Cassino.bet já não é mais exibida.
Anunciado em 30 de janeiro do ano passado, o acordo de dois anos com a casa de apostas renderia ao Fortaleza o valor global de R$ 54 milhões, podendo chegar a R$ 60 milhões, com as eventuais bonificações.
Após o Fortaleza divulgar o comunicado de encerramento do time feminino, alegando as questões financeiras, passaram a circular rumores de que a equipe poderia ser mantida em funcionamento, mediante acordo com o projeto R4, do ex-jogador Ronaldo Angelim.
Se a ideia vingasse, as operações do departamento de futebol feminino do Tricolor seriam transferidas para Juazeiro do Norte (CE). Porém, essa solução acabou não saindo do papel.
No caso do Real Brasília, o encerramento das atividades do futebol feminino tem relação direta com a não renovação do contrato de patrocínio máster com o Banco de Brasília (BRB).
O banco público do Distrito Federal vive um momento delicado, por conta da liquidação do Banco Master. O BRB havia adquirido R$ 12,2 bilhões em créditos e quase chegou a comprar a instituição financeira comandada por Daniel Vorcaro.
Posteriormente, o Banco Central identificou que esses créditos eram inexistentes. Em novembro do ano passado, o BRB precisou substituir ou liquidar R$ 10 bilhões em carteiras adquiridas junto ao Master, como modo de preservar o patrimônio dos clientes e evitar que o sistema financeiro do país fosse contagiado pela situação.
Em nota à imprensa, o Real Brasília lembrou que a criação da modalidade feminina ocorreu, inicialmente, sem obrigação regulamentar, e que a equipe permaneceu por seis temporadas consecutivas na elite do futebol feminino nacional, inclusive garantindo o direito esportivo de disputar a Série A1 em 2026.
No mesmo comunicado, o clube mencionou desafios enfrentados ao longo dos últimos anos, como o período da pandemia, episódios de difamação e uma punição recente aplicada, segundo sua versão, sem a garantia do direito de defesa. De acordo com o Real Brasília, essas situações estão sendo questionadas nas esferas administrativa e judicial.
No decorrer desta semana, mesmo com os dois clubes já havendo informado que deixariam de competir no futebol feminino, a CBF evitou inicialmente confirmar mudanças na tabela do Brasileirão A1 2026, já que não havia sido oficialmente notificada por Fortaleza e Real Brasília, quanto às desistências.
Faltando menos de um ano e meio para a Copa do Mundo Feminina 2027, que terá o Brasil como sede, os a modalidade enfrenta momento de refluxo nos clubes, que vivem realidades distintas em matéria de investimentos.
Desafios
A CBF tem adotado medidas buscando expandir a categoria no país. A principal delas consistiu no lançamento do novo calendário do futebol feminino, em novembro do ano passado, que prevê o fortalecimento de competições como Brasileirão Feminino A1 (que passará a contar com 18 clubes, a partir deste ano) e a Copa do Brasil Feminina, além da ampliação nas cotas de participação e nas premiações para os times.
Alguns clubes têm elevado os recursos destinados a seus departamentos de futebol feminino, caso do Palmeiras, que decidiu reinvestir na modalidade os R$ 5,88 milhões recebidos do Boston Legacy pela venda de 80% dos direitos econômicos da atacante Amanda Gutierrez, ocorrida no ano passado.
Já o Grêmio planeja dedicar em torno de R$ 20 milhões ao futebol feminino na atual temporada, R$ 4 milhões a mais do que foi gasto em 2025.
No Cruzeiro, a expectativa é de que os investimentos na área fiquem em R$ 16 milhões, 6% acima da quantia aplicada na última temporada.
Em outros clubes, porém, o cenário é de cortes nas despesas com o futebol feminino. Um dos exemplos mais notórios é o do Flamengo, que dispensou sete jogadoras no fim do ano passado.
Os movimentos ocorridos no clube têm despertado polêmica, por conta das recentes declarações do presidente Luiz Eduardo Baptista, o Bap, apontando para suposta a baixa rentabilidade financeira proporcionada pelo futebol feminino (situação agravada pelos comentários misóginos do cartola sobre a aparência da jornalista Renata Mendonça, que criticava a falta de estrutura para as jogadoras da equipe rubro-negra).
Em 2025, o Flamengo alega ter investido R$ 22 milhões na categoria, mas faturado apenas R$ 11 milhões, amargando prejuízo de R$ 11 milhões.
No Santos, a projeção para 2026 é de redução de mais de 50% no orçamento do futebol feminino, que deverá ficar em R$ 4,5 milhões, contra R$ 9,9 milhões destinados na última temporada.
Vale lembrar que, no masculino, o clube flertou com o rebaixamento durante grande parte do Brasileirão 2025 e só conseguiu escapar nas últimas rodadas.
Outro que se salvou por pouco da degola na temporada passada foi o Internacional masculino. No feminino, a previsão é de redução nas receitas dedicadas à modalidade. Para 2026, a meta é gastar R$ 12,4 milhões, contra 15,7 milhões que foram destinados para a área em 2024.
