Em um evento na manhã deste sábado (7), a Fórmula 1 anunciou que o Grande Prêmio de São Paulo permanecerá no calendário da categoria até, pelo menos, 2035. A nova prorrogação do contrato, que vencia em 2030, foi feita pouco antes da realização do GP de 2026.
A renovação era um desejo declarado da Prefeitura. No fim de outubro, em coletiva no próprio autódromo, o prefeito Ricardo Nunes já havia afirmado que a cidade tinha interesse em estender o vínculo de 2030 para 2035. Os valores do novo acordo não foram divulgados.
Como parte do compromisso, a Prefeitura de São Paulo seguirá fazendo investimentos no circuito, com o objetivo de melhorar a experiência de fãs e convidados nos próximos anos. A edição de 2027 do GP São Paulo também foi confirmada para os dias 5, 6 e 7 de novembro.
“O Brasil é uma parte importante da história da Fórmula 1 e do nosso futuro, e estou muito feliz porque essa prorrogação de cinco anos vai nos permitir continuar correndo em São Paulo até 2035. A paixão dos nossos fãs brasileiros é extraordinária, e sempre que voltamos a Interlagos sentimos a energia deles nas arquibancadas e na cidade de São Paulo”, afirmou na coletiva Stefano Domenicali, presidente e CEO da Fórmula 1.
Renovação ocorre em “boom” do GP
A renovação do contrato acontece num momento de crescimento em torno da prova, que desde novembro de 2020 passou a ser administrada pela Brasil Motorsport, empresa controlada pelo fundo Mubadala, de Abu Dhabi, sob o comando de Alan Adler.
Segundo dados divulgados pela Fórmula 1, o GP São Paulo de 2025 gerou impacto econômico de R$ 2,3 bilhões para a cidade, alta de 9,7% em relação ao recorde anterior, registrado em 2024. O público também segue em crescimento. A edição de 2025 recebeu 303.627 espectadores ao longo do fim de semana, ante 291.717 no ano anterior.
Para este ano, a tendência é de o evento seguir aumentando de tamanho, graças a diversas ações voltadas para gerar um fluxo novo de público. A presença de dois pilotos brasileiros no grid de largada depois de uma década (Gabriel Bortoleto terá, neste ano, a companhia de Rafael Câmara) foi outro ingrediente que aumentou o apetite pela prova.
Fora do autódromo, a base de fãs da categoria no Brasil chegou a 75,8 milhões de pessoas, um aumento de 6,5% entre 2024 e 2025. Desse total, 44% são mulheres e 41% têm menos de 35 anos, perfil que interessa diretamente a patrocinadores e anunciantes. A Fórmula 1 soma ainda quase 5,5 milhões de seguidores brasileiros em suas redes sociais.
“A extensão do contrato do Grande Prêmio de São Paulo até 2035 é motivo de enorme orgulho e representa o reconhecimento de um trabalho construído com dedicação, investimentos e uma visão de longo prazo. Esta renovação reafirma o lugar de São Paulo entre os grandes destinos do automobilismo mundial”, disse Alan Adler, CEO do GP São Paulo
A históra do Brasil e de Interlagos na F1
A garantia da renovação até 2035 acalma também o histórico recente da prova de Fórmula 1 em São Paulo, que foi marcado por pressões, ameaças de saída e disputas políticas. O acordo também ratifica o statuso da capital paulista como principal “casa” da F1 no país.
Interlagos recebeu a Fórmula 1 pela primeira vez em 1972, ainda em caráter extraoficial, e entrou no calendário do Circuito Mundial em 1973, com o nome de GP do Brasil.
A prova foi disputada no Rio de Janeiro em 1978 e, depois, por quase uma década, entre 1981 e 1989, no extinto autódromo de Jacarepaguá. A volta à capital paulista aconteceu em 1990. Desde então, a corrida foi realizada em Interlagos todos os anos, com exceção de 2020, quando foi cancelada por causa da pandemia de Covid-19.
Mas, durante meia década, diversas discussões quase fizeram o GP deixar o país e a cidade.
“Manter essa parceria significa assegurar previsibilidade para investimentos, fortalecer o calendário de grandes eventos e consolidar a cidade como referência mundial na realização de competições internacionais”, disse o prefeito Ricardo Nunes neste sábado.
Linha do tempo
2013-2014: obras asseguram renovação
O contrato que garantiu a prova em Interlagos até 2020 foi acertado pelo então prefeito Fernando Haddad com Bernie Ecclestone, chefão da Fórmula 1 na época, e assinado em 2014. A permanência ficou condicionada a uma reforma do autódromo orçada em R$ 160 milhões, que incluiu um novo prédio de boxes e a ampliação do paddock, antigas exigências das equipes. Mesmo assim, em 2016, Ecclestone chegou a dizer que aquela poderia ser a última edição em Interlagos, por questões financeiras.
2019: GP quase migra para o Rio
Em maio de 2019, o então presidente Jair Bolsonaro anunciou que o GP do Brasil seria transferido para um novo autódromo a ser construído em Deodoro, na zona oeste do Rio. Em junho, após receber Chase Carey, então CEO da Fórmula 1, Bolsonaro afirmou haver “99% de chance” de a prova ir para o Rio a partir de 2021. A Interpub, promotora do evento em São Paulo, reagiu informando que o contrato com a cidade seguia válido até 2020. O projeto carioca acabou travado por questões ambientais, já que o terreno escolhido ficava na Floresta do Camboatá, área de Mata Atlântica.
2020: novo modelo de negócio no Brasil
Em novembro de 2020, o então governador paulista João Doria anunciou a renovação de contrato de São Paulo com a Fórmula 1 por cinco anos, de 2021 a 2025. O acordo mudou a estrutura do evento. A prova passou a se chamar GP São Paulo, e a promoção saiu das mãos de Tamas Rohonyi, da Interpub, e foi para a Brasil Motorsport. A cidade também passou a arcar com a taxa de promotor paga à Fórmula 1, cobrança que não existia nos contratos anteriores. Na época, o prefeito Bruno Covas justificou o investimento com estudos que apontavam retorno de R$ 5,20 para a economia local a cada R$ 1 aplicado no evento.
2023: primeira extensão antecipada
Em 3 de novembro de 2023, também durante o fim de semana do GP, o prefeito Ricardo Nunes anunciou que havia prorrogado o contrato com a F1 até 2030. O anúncio veio após outras cidades brasileiras começarem a se movimentar para tentar pleitear o direito de receber a categoria. Segundo a Prefeitura, foram pagos R$ 100 milhões ao Mubadala para a organização da prova nos cinco primeiros anos do contrato.
2026: renovação garantida
Agora, com quatro anos de antecedência em relação ao fim do contrato vigente, São Paulo renovou com a Fórmula 1 até 2035. Em pouco mais de uma década, a relação passou de uma série de declarações públicas atravessadas e exigências de garantias de investimentos para um horizonte de calmaria e comprometimento de longo prazo.
