Nesta semana, mais precisamente na segunda-feira (26), o paraguaio Alejandro Domínguez completou uma década à frente da presidência da Confederação Sul-Americana de Futebol (Conmebol).
Ele assumiu o comando da entidade um dia após celebrar seu aniversário de 44 anos, sucedendo Wilmar Valdez, que precisou ocupar o cargo de maneira interina entre 11 de janeiro de 2015 e 26 de janeiro de 2016, em decorrência da renúncia do titular Juan Angel Napout, que foi preso por envolvimento no escândalo do Fifagate, juntamente dos ex-presidentes da Conmebol Nicolás Leoz e Eugênio Figueiredo.
Valdez bem que tentou emplacar sua candidatura, mas decidiu abrir mão na véspera do pleito, de modo que Domínguez acabou sendo eleito por aclamação, sepultando de vez o grupo que deu as cartas no futebol sul-americano durante cerca de 30 anos, sendo 26 deles na pessoa de Leoz, que também era paraguaio e morreu em 2019.
O mandato de Domínguez na Conmebol tem sido marcado por transformações profundas no futebol sul-americano.
E também algumas polêmicas, como a ocorrida no ano passado, quando ele afirmou que a Copa Libertadores sem clubes brasileiros seria como “o Tarzan sem a Chita”.
A comparação com a célebre chimpanzé do cinema ocorreu enquanto Domínguez comentava as declarações da presidente do Palmeiras, Leila Pereira, que sugeria o boicote dos times do país às competições da Conmebol, por conta do racismo praticado por torcedores do Cerro Porteño, do Paraguai, contra o jogador Luighi, durante partida da Copa Libertadores Sub-20 daquele ano.
Em meio à repercussão negativa da frase, Domínguez publicou nota nas redes sociais, pedindo desculpas pelo ocorrido.
“Em relação às minhas recentes declarações, quero expressar minhas desculpas. A expressão que utilizei é uma frase popular e jamais tive a intenção de menosprezar nem desqualificar ninguém. A Conmebol Libertadores é impensável sem a participação de clubes dos 10 países membros. Sempre promovi o respeito e a inclusão no futebol e na sociedade, valores fundamentais para a Conmebol. Reafirmo meu compromisso de seguir trabalhando por um futebol mais justo, unido e livre de discriminação”, disse.
Valorização dos torneios
Declarações infelizes (e esporádicas) à parte, a gestão de Domínguez tem sido marcada pela mudança na estrutura dos torneios continentais, que ganharam ainda mais relevância no futebol sul-americano. E aqui não estamos falando da final em jogo único, implantada em 2019, nos moldes das copas europeias – tema que ainda é objeto de intensa discussão, por estas bandas.
Antes concentradas em alguns meses do ano, a Copa Libertadores e a Copa Sul-Americana passaram a ocupar grande parte do calendário anual, tornando-se prioridades para os grandes clubes.
A transformação veio na edição de 2017 da Copa Libertadores, vencida pelo Grêmio e que teve 42 semanas de duração, contra 27 no ano anterior.
O calendário estendido permitiu a inclusão de mais clubes de países como Brasil, Argentina, Chile e Colômbia nas competições.
No fim das contas, embora a Copa Libertadores estendida acabasse por, de certa forma, ofuscar campeonatos nacionais (que muitas vezes são deixados em segundo plano pelos clubes, especialmente os mais fortes e que vislumbram o título continental), o aumento de vagas promovido pela Conmebol serviu para apimentar as disputas locais.
Afinal, em um cenário em que as chances de ganhar a Série A do Brasileirão se tornaram cada vez mais restritas, um time não tão competitivo terá sempre a oportunidade de celebrar a conquista de uma vaga para a Copa Libertadores ou mesmo para a Sul-Americana.
O aumento das premiações em dinheiro também serviu para tornar ainda mais atrativos os torneios da Conmebol.
Em 2025, por exemplo, as duas principais competições promovidas pela entidade distribuíram US$ 302 milhões aos participantes, incluindo US$ 24 milhões pagos ao campeão da Copa Libertadores (o Flamengo).
A Conmebol também complementa premiações em alguns torneios organizados por suas entidades filiadas, caso da Supercopa Rei, da Confederação Brasileira de Futebol (CBF).
Isto sem contar os valores que são distribuídos em outras competições próprias, caso da Copa América Feminina de 2025, que rendeu uma premiação de US$ 1,5 milhão à seleção brasileira pela conquista do título.
De acordo com informações divulgadas pela própria entidade, o valor das premiações distribuídas no futebol sul-americano pela Conmebol registrou um crescimento de 442% entre 2015 e 2025.
Acordos publicitários e de mídia
O salto verificado nos valores pagos pela Conmebol às equipes que participam de seus torneios tem relação direta com os contratos publicitários e de mídia firmados pela entidade, nos últimos anos.
Hoje, a Copa Libertadores tem patrocínios e parcerias com marcas globais ou de projeção regional como Amstel, Coca-Cola, Sporting.bet, Crypto.com, EA Sports FC, Mastercard, Mapfre, Mercado Livre, TCL, Avianca, DHL, Powerade, Puma, Rexona e Panini.
O novo acordo de transmissão fechado pela entidade para o ciclo de 2027 a 2030 aposta em um modelo segmentado, em detrimento do antigo formato, que se baseava na exclusividade direitos.
A estratégia atual, construída com suporte da IMG, distribui os jogos entre diferentes parceiros de mídia, adequando a oferta à capacidade de investimento das emissoras que atuam na região, conforme explicou Evandro Figueira, vice-presidente de mídia da agência, em entrevista ao podcast Maquinistas, da Máquina do Esporte.
Com isso, a Conmebol garante uma distribuição mais ampla, em diferentes plataformas, para seus torneios.
No Brasil, Globo ficará com os direitos da Copa Libertadores e da Recopa Sul-Americana no sinal aberto, enquanto ESPN transmitirá em no formato pago.
O canal da Disney também exibirá a Copa Sul-Americana nas plataformas pagas, enquanto a Warner Bros. Discovery transmitirá o torneio em sinal aberto, no TNT Sports.
Transparência e medidas anticorrupção
Um dos pontos que os comunicados oficiais da Conmebol mais têm procurado destacar nos últimos anos, desde que Domínguez assumiu a presidência, consiste nas medidas anticorrupção adotadas pelo presidente.
De acordo com a entidade, as iniciativas implementadas pelo cartola, que celebrou seu aniversário de 54 anos no último domingo (25), resultaram nas certificações ISO 37001 (antissuborno) e 37301 (conformidade). A Conmebol é única confederação de futebol no mundo a possuir os dois reconhecimentos.
Com Domínguez, as contas da Conmebol passaram a ser submetidas a auditorias externas internacionais e hoje a instituição conta com uma Diretoria de Ética e Conformidade.
Um dos orgulhos do dirigente é a recuperação de US$ 130 milhões desviados da entidade no Fifagate, incluindo recursos que estavam depositados em contas na Suíça, que tinham herdeiros de Leoz (morto em 2019) como beneficiários.
“Esses dez anos mostram que, quando se trabalha com regras claras e uma visão de futuro, o futebol sul-americano pode crescer de forma sólida e competir no mais alto nível mundial”, declarou Domínguez, que foi reeleito presidente da Conmebol por unanimidade, no ano passado.
O Fifagate é resultado de uma apuração conduzida em 2015 pelo Federal Bureau of Investigation (FBI), dos Estados Unidos, que desvendou um esquema de suborno e lavagem de dinheiro envolvendo dirigentes da Federação Internacional de Futebol (Fifa) e de entidades filiadas, como Conmebol e CBF.
Além da prisão de cartolas e empresários de diferentes nacionalidades (incluindo brasileiros, como o ex-presidente da CBF José Maria Marin e o jornalista J. Hawilla, do Grupo Traffic), o escândalo resultou em mudanças profundas no comando das entidades esportivas investigadas, com a ascensão de novas lideranças como Domínguez, sem contar o aumento expressivo da influência dos Estados Unidos sobre o esporte mais popular do planeta.
