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Ataque de Trump à Venezuela põe à prova discurso de Fifa e COI sobre paz e fraternidade entre os povos

Sede da próxima Copa do Mundo e dos Jogos Olímpicos de 2028, Estados Unidos têm acirrado as relações com os demais países do globo

Gianni Infantino aplaude Trump, laureado com o Prêmio Fifa da Paz Reprodução / Instagram (@fifa)

Há exatamente um mês, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, era homenageado pela Federação Internacional de Futebol (Fifa) com o Prêmio Fifa da Paz – O Futebol Une o Mundo, entregue pelas mãos do dirigente máximo da entidade, Gianni Infantino.

Ao noticiar a honraria, entregue em 5 de dezembro do ano passado, a Fifa atribuiu a escolha aos “incansáveis esforços para promover a paz”, que teriam sido desempenhados por Trump nos últimos meses.

Como se estivéssemos em um universo paralelo, em que a realidade objetiva destoa dos discursos oficiais, menos de um mês depois de ganhar a medalha de pacificador, Trump ordenava o bombardeio de Caracas, capital da Venezuela, em pleno feriado prolongado de Ano Novo.

Durante a operação de guerra (que, todavia, ocorreu sem uma declaração formal por parte de Washington, algo que dependeria de aprovação do Congresso), o presidente da nação amazônica, Nicolás Maduro, foi capturado por militares dos Estados Unidos.

A justificativa de Trump é de que a operação buscaria combater o narcotráfico na região do Caribe. O governo norte-americano também acusa Maduro de ser um ditador, que viola as liberdades civis e os direitos humanos na Venezuela.

Até o momento, a Fifa preferiu se manter em silêncio em relação ao ocorrido. A tendência é que a entidade não tome qualquer atitude quanto a esse ataque militar, postura que deve ser seguida pelo Comitê Olímpico Internacional (COI) e todas as principais organizações esportivas.

A razão para isso é econômica e geopolítica e tem a ver com uma ordem internacional que começou a ser construída na década passada, no esporte global.

Fifagate

O futebol e os demais esportes tendem a ser compreendidos pelo senso comum como realidades apartadas da economia, da política e da sociedade.

A verdade, porém, é que o universo esportivo é diretamente afetado pelos grandes processos sociais e históricos.

O início deste século foi marcado pelo triunfo do modelo econômico neoliberal. No futebol, por exemplo, esse movimento foi marcado pela entrada de grandes investidores internacionais, dos quais o caso mais notório talvez seja o do russo Roman Abramovich, que, em 2003, comprou o Chelsea, da Inglaterra, convertendo-o numa das grandes potências da Europa.

Por volta dessa época, a Fifa, ainda sob o comando de Joseph Blatter, passou a se aproximar de países emergentes, que faziam investimentos pesados no futebol.

O auge desse processo foi a escolha da Rússia como sede da Copa de 2018, numa votação realizada em 2010.

As eleições que definiram as sedes desse Mundial e também da Copa de 2022 (realizada no Catar) serviram de argumento para um ação policial em larga escala liderada pelos Estados Unidos, que mudou os rumos do esporte mundial.

Alegando corrupção e compra de votos, o Federal Bureau of Investigation (FBI) passou a prender uma série de dirigentes, entre eles o brasileiro José Maria Marin, ex-presidente da Confederação Brasileira de Futebol (CBF), que foi capturado na Suíça.

Marco Polo Del Nero, evitava deixar o país para não ser detido pelos agentes norte-americanos e acabou sendo banido do futebol, em 2017, por conta das acusações feitas pelas autoridades dos Estados Unidos.

O chamado Fifagate não representou apenas o fim da linha para uma série de cartolas acusados de corrupção. As sedes das duas Copas envolvidas em denúncias foram mantidas. Mas o eixo de poder no futebol mundial foi alterado por completo, com o aumento da influência dos Estados Unidos sobre o futebol e o esporte em geral, situação que se aprofundou após o início da Guerra da Ucrânia, que resultou em sanções internacionais à Rússia.

Foi dessa forma que, em 2022, o Chelsea deixou as mãos de Abramovich e passou para o controle da BlueCo, liderada, não por acaso, pelos norte-americanos Todd Boehly e Mark Walter e que conta ainda com investimentos do fundo Clearlake Capital, dos Estados Unidos.

A década atual é marcada pelo domínio dos Estados Unidos e de seus principais aliados (caso da Arábia Saudita, que há décadas nutre relações muito próximas aos norte-americanos no Oriente Médio) sobre os esportes globais.

Além de adquirirem importantes clubes na Europa, os “ianques” também passaram a sediar alguns dos maiores eventos esportivos globais, seja no futebol, com a Copa do Mundo de Clubes de 2025 e a Copa do Mundo de 2026, seja nas demais modalidades, como no caso dos Jogos Olímpicos de Los Angeles 2028.

Constrangimento

O ataque ordenado por Trump à Venezuela coloca Fifa e COI diante da situação embaraçosa de terem se posicionar de maneira distinta, diante de fatos muito similares.

Em 2022, quando a Rússia invadiu a Ucrânia, sob o argumento de que o governo de Volodymyr Zelensky dava guarida a grupos neonazistas e violava os direitos e a segurança das populações russófanas do leste do país, as duas entidades foram prontas em condenar a nação liderada por Vladimir Putin, que acabou sendo banida das competições oficiais de futebol (incluindo a Copa do Catar) e também dos Jogos Olímpicos de Paris.

É fato que o conflito na Ucrânia tem sido mais duradouro e já resultou em milhares de mortes. Em contrapartida, Zelensky segue no poder, enquanto o presidente da Venezuela é mantido preso por militares norte-americanos, sem ao menos haver sido processado e julgado.

A situação se torna mais embaraçosa diante do fato de que Claudia Sheinbaum, presidente do México, uma das sedes da Copa de 2026 (que também terá jogos realizados no Canadá), condenou publicamente o ataque dos Estados Unidos à Venezuela.

As desavenças entre os mandatários dos dois países-sede ultrapassam a questão do regime de Maduro e envolvem política imigratória (uma das principais promessas de Trump é construir um muro separando o México dos Estados Unidos) e tarifária (a nação latina foi uma das que enfrentaram o tarifaço imposto pelo governo estadunidense).

Não se pode esquecer que a fúria fiscal dos Estados Unidos atingiu outros países de relevo no futebol mundial, inclusive o Brasil, que deve ser uma das grandes atrações da Copa do Mundo deste ano. Mais recentemente, após se reunir com o presidente Luiz Inácio Lula da Silva, Trump decidiu relaxar o tarifaço.

Nesse meio tempo, porém, o brasileiro Hugo Calderano, maior mesa-tenista da história das Américas, foi impedido de entrar nos Estados Unidos para disputar o WTT Grand Smash, porque antes havia estado em Cuba, nação considerada inimiga pelo governo norte-americano.

Sob o comando de Trump, o conceito de país inimigo dos Estados Unidos tornou-se muito amplo. A China, uma das principais potências olímpicas da atualidade, é um dos alvos preferenciais do presidente norte-americano.

Nesse cenário cada vez mais radicalizado, situações que hoje são vistas apenas como constrangedoras podem descambar para a ruptura completa (como no caso dos boicotes ocorridos durante a Guerra Fria, em 1980 e 1984). Se essa hipótese se materializar, as entidades e o próprio esporte é que acabarão pagando a conta pelos ânimos acirrados dos políticos.