Em setembro de 2023, ao participar do programa Roda Viva, da TV Cultura, Júlio Casares afirmou que o São Paulo voltara a ser protagonista no futebol brasileiro.
Contestado pela então apresentadora Vera Magalhães (ela lembrou que os grandes títulos do país e do continente eram disputados de fato por Palmeiras e Flamengo), o presidente do Tricolor argumentou que seu clube estava na decisão da Copa do Brasil (eliminando o Verdão nas quartas de final), título que seria conquistado meses depois, diante do time rubro-negro.
Mais tarde, após o São Paulo derrotar o Palmeiras e levar o título da Supercopa Rei de 2024, o próprio Casares compartilharia o trecho da entrevista em sua conta oficial do Instagram, com a legenda: “Esse vídeo envelheceu bem demais”.
Era uma época em que o publicitário posava para selfies com torcedores. Os comentários mais recentes dessa publicação, porém, são bem menos amistosos e trazem várias figurinhas com a frase “Fora, Casares”.
O dirigente foi da condição de “arquiteto da reconstrução do São Paulo” (o próprio Casares compartilhou em seu Instagram um post que se refere dessa forma a ele) a um presidente sem sustentação política, que não mais consegue emplacar pautas positivas relativas a sua gestão.
O presidente Júlio Casares está na marca do pênalti. Nesta terça-feira (6), ocorre uma reunião do Conselho Consultivo do Tricolor, para analisar um pedido de impeachment contra o mandatário, apresentado no último dia 26 de dezembro.
O colegiado é composto pelos chamados “cardeais”, incluindo ex-presidentes da diretoria e dos conselhos. Cabia ao órgão emitir um parecer sobre uma série de denúncias envolvendo a gestão de Casares, como supostas irregularidades financeiras e possíveis desvios de recursos. A opinião majoritária do órgão foi de que não existem provas materiais que sustentem o impeachment do dirigente.
LEIA MAIS: São Paulo: Júlio Casares ganha sobrevida, com ajuda dos “cardeais” do Conselho Consultivo
Denúncias atingiram pessoas próximas a Casares
A situação do presidente foi agravada pelo vazamento de um áudio que mostra os diretores Mara Casares (ex-esposa do presidente) e Douglas Schawrtzmann, atualmente licenciados dos respectivos cargos, participando de um suposto esquema clandestino de comercialização de um camarote, nos shows internacionais realizados no Estádio do Morumbis.
Os “cardeais” não têm o poder formal de cassar o mandato de Casares. Quem decide essa questão é o Conselho Deliberativo, que hoje conta com 255 membros aptos a deliberar. Seriam necessários 171 votos para afastar o presidente. Antes, porém, Casares terá direito de apresentar sua defesa.
O Conselho Consultivo do São Paulo é presidido por José Eduardo Mesquita Pimenta (presidente do clube nas conquistas da Copa Libertadores e do Mundial Interclubes de 1992 e 1993 e que, até recentemente, era próximo a Casares).
Integram ainda o colegiado: Carlos Augusto de Barros e Silva (o Leco), Carlos Miguel Aidar (que perdeu o mandato por denúncias envolvendo o contrato com a Under Armour), Fernando Casal de Rey, Ives Gandra Martins, José Carlos Ferreira Alves, o próprio Júlio Casares, Marcelo Abranches Pupo Barboza, Milton José Neves, Olten Ayres de Abreu Junior (presidente do Conselho Deliberativo), Paulo Amaral Vasconcelos e Paulo Planet Buarque.
Denúncias agravam situação
No mesmo dia em que os “cardeais” se reuniriam para analisar o pedido de impeachment de Casares (denúncia esta assinada por 57 membros do Conselho Deliberativo), o dirigente tornou-se protagonista de uma notícia divulgada pelo portal UOL, de que recebeu em sua conta pessoal depósitos que totalizaram R$ 1,5 milhão, entre janeiro de 2023 e maio de 2025.
Segundo a reportagem, a conta do dirigente teria servido para custear despesas de sua ex-esposa Mara.
O caso, que foi identificado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), é investigado pela Polícia Civil de São Paulo, que apura também 35 saques em espécie, ocorridos entre 2021 e 2025, nas contas do clube.
Em nota divulgada no Instagram, Casares se posicionou a respeito das investigações:
“Os advogados Daniel Bialski e Bruno Borragine, que representam a defesa particular de Júlio Casares, afirmam que todas as movimentações financeiras de Júlio, contidas nos relatórios do Coaf, possuem origem lícita e legítima, com lastro compatível com a evolução de sua capacidade financeira.
Esclareça-se que antes de assumir a presidência do São Paulo Futebol Clube, nosso constituído desempenhou e exerceu funções de alta direção na iniciativa privada, com boa remuneração.
Ademais, a origem e o lastro de tais movimentações serão detalhadas e esclarecidas no curso das investigações – com a apresentação de provas, declarações e informações fiscais – justamente para rebater qualquer ilação que se fizer e, ainda mais porque não tiveram acesso à integralidade do inquérito policial.”
Perda de apoio político
A enxurrada de denúncias envolvendo a diretoria do Tricolor é o reflexo do acirramento político interno, situação que tende a ser agravar em ano eleitoral no clube.
Uma série de fatores contribuiu para a perda de apoio por parte Casares, fato que pode vir a custar seu mandato.
Os maus resultados colhidos pelo time em campo foram essenciais para que o dirigente passasse a ser cobrado por virulência pelas arquibancadas.
Na temporada 2025, o São Paulo acumulou decepções, incluindo eliminações na Copa do Brasil, diante do Athletico-PR que jogava Série B do Brasileirão, e na Copa Libertadores, contra a LDU, do Equador.
Contribuiu para os fracassos o grande número de atletas contundidos. Um levantamento divulgado pelo GE em novembro indicava que, ao longo de 2025, 70% do elenco do Tricolor havia passado pelo Departamento Médico do clube.
O clima, que era de cobrança, azedou de vez depois da goleada de 6 a 0 sofrida pelo time diante do Fluminense, na 36ª rodada da Série A. No fim das contas, o Tricolor Paulista não conseguiu se classificar para a Copa Libertadores deste ano e terá de se contentar com a participação na Sul-Americana.
Maior torcida organizada do São Paulo, a Independente emitiu nota exigindo a renúncia de Casares, que, ao mesmo tempo, enfrenta pressões internas na luta para permanecer no poder.
Nos últimos meses, o dirigente já vinha sendo questionado por conta do endividamento do clube, que ultrapassa R$ 900 milhões.
Ainda assim, no fim do ano, pouco depois de explodir o escândalo do camarote, ele conseguiu aprovar por 112 votos a favor e 107 contra o orçamento para 2026, que prevê receitas de R$ 931,8 milhões e projeta um superávit de R$ 37,9 milhões – isso, claro, se a equipe conseguiu faturar R$ 180 milhões com transferências de atletas.
Apesar da vitória política, detalhes do orçamento, como os R$ 3,5 milhões que serão destinados à festa junina do clube social, ajudaram a desgastar ainda mais a gestão Casares na mídia.
Mesmo diante do desgaste sofrido pelo cartola, vale observar que, se ele for capaz de mobilizar os conselheiros que deram sim ao orçamento de 2026 (ou pelo menos uma quantidade parecida), estará a salvo do impeachment.
Por outro lado, quando a projeção financeira foi aprovada pelos membros do Conselho Deliberativo, as denúncias não atingiam diretamente o presidente, mas sim pessoas próximas a ele.
Um agravante nessa situação reside no rompimento entre Casares e o ex-diretor de futebol Carlos Bemonte, que entregou o cargo logo após a derrota para o Fluminense, em novembro, tornando-se um dos principais críticos do atual presidente.
Belmonte foi uma das figuras centrais na coalizão que elegeu Casares e que reuniu sete grupos distintos do Morumbis, com cerca de 200 aliados no Conselho Deliberativo, contra 55 membros da oposição.
O relação entre os dois se estremeceu justamente por divergências quanto ao rumo a ser tomado pela coalização na próxima eleição presidencial do clube, que ocorrerá no fim deste ano.
Com Casares enfraquecido, a tendência é de que Belmonte converta na grande força capaz de definir o futuro político do clube, já que é o nome capaz de arrastar consigo parte dos conselheiros que hoje estão na situação.
Mesmo que Belmonte não venha a ser candidato para comandar o clube de janeiro de 2027 a dezembro de 2029 (hipótese vista como pouco provável), dificilmente alguém chegará à presidência do São Paulo, na atual conjuntura, sem contar com as bênçãos do ex-diretor de futebol.
Vale lembrar que, se Casares vier a sofrer impeachment, será substituído pelo vice Harry Massis Junior. Ele permaneceria no cargo até a próxima eleição do clube, que será feita de forma indireta, apenas com a participação dos membros do Conselho Deliberativo.
