O Coritiba e a Defensoria Pública do Estado do Paraná (DPE-PR) decidiram se unir com o intuito de tornar o futebol um ambiente mais seguro, acolhedor e acessível às mulheres. A partir de uma parceria entre as duas instituições, o Estádio Couto Pereira, na capital paranaense, passará a contar com uma sala especialmente destinada ao atendimento de mulheres que enfrentarem situações de assédio ou violência durante os eventos realizados no local.
A estrutura já estará à disposição nesta sexta-feira (11), no clássico diante do Athletico-PR, válido pela 27ª rodada da Série A do Campeonato Brasileiro.
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A iniciativa integra o protocolo “Não se Cale – Estádio Seguro”, desenvolvido para estabelecer um fluxo de acolhimento, proteção e orientação jurídica às mulheres. O procedimento prevê primeiro a identificação da situação, que pode ser feita pela própria vítima, pelas acolhedoras ou pela equipe de segurança do estádio. Depois, a mulher será encaminhada para uma sala reservada, onde ocorrerá a escuta qualificada, com garantia de sigilo e avaliação preliminar de risco.
O próximo passo será acionar uma defensora pública de plantão, que assumirá o atendimento jurídico. Em situações de risco imediato, o protocolo prevê o afastamento do agressor e o acionamento da segurança e da polícia, além de estabelecer procedimentos para preservação de provas, identificação de testemunhas e registro do relato inicial. A mulher ainda receberá informações sobre seus direitos e poderá decidir sobre o registro da ocorrência e a solicitação de medida protetiva.
Por fim, o atendimento não terminará necessariamente no estádio. Conforme cada caso, estão previstos encaminhamentos para uma rede de apoio, transporte seguro, medidas protetivas, registro de boletim de ocorrência ou outras providências legais. O protocolo determina ainda que o registro interno seja realizado sem exposição da vítima e prevê monitoramento posterior quando for necessário.
“Agradecemos à Defensoria Pública do Estado do Paraná por estar conosco nesta importante iniciativa. É um privilégio contar com o apoio de uma instituição reconhecidamente íntegra e que presta um serviço de enorme relevância à população”, afirmou Beto Matta, gerente de marketing e comunicação do Coritiba.
“Aqui no Coritiba, entendemos que é imprescindível a mobilização de toda a sociedade para coibir qualquer tipo de violência contra a mulher. Esse novo espaço no Couto Pereira foi pensado com muito cuidado, respeito e responsabilidade, e representa mais uma das frentes em que trabalhamos diariamente no clube. Garantir mecanismos concretos de prevenção, acolhimento e resposta é uma medida de proteção, mas também uma forma de contribuir para que cada vez mais mulheres possam acompanhar o futebol, torcer e viver plenamente tudo o que o esporte proporciona. Queremos que toda mulher que venha ao Couto Pereira saiba que este também é o seu lugar e que aqui ela deve se sentir respeitada, acolhida e segura”, acrescentou.
Como denunciar
Qualquer situação de violência e assédio contra a mulher, o que inclui racismo e LGBTfobia, pode ser denunciada. As vítimas podem procurar qualquer acolhedora, que estarão caracterizadas com colete roxo, e relatar a situação.
A acolhedora orientará e direcionará a vítima, além de averiguar se ela deseja ir para a sala de acolhimento. Na sala, a vítima será ouvida e orientada em relação aos próximos passos.
As acolhedoras ficarão circulando por todos os setores do Couto Pereira, mas o estádio também terá pontos fixos para o recebimento de denúncias. Esses locais serão divulgados em um mapa nos canais oficiais do Coritiba.
“A parceria entre a Defensoria Pública e o Coritiba representa um avanço muito importante na promoção dos direitos das mulheres, na medida em que leva para dentro dos estádios, um espaço ainda predominantemente masculino, discussões sobre assédio e violência de gênero”, salientou Mariana Nunes, coordenadora do Núcleo de Promoção e Defesa dos Direitos das Mulheres (Nudem).
“A partir dessa parceria, as mulheres que sofrerem qualquer forma de assédio ou violência dentro do estádio poderão contar com um espaço de acolhimento e atendimento jurídico especializado, realizado por uma equipe formada exclusivamente por mulheres. Com isso, buscamos fazer do estádio um espaço cada vez mais seguro, acolhedor e respeitoso para todas as mulheres”, completou.
Estudo
Vale destacar que a segunda edição do estudo “Futebol e Violência contra a Mulher”, divulgada no mês passado pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), identificou que os registros de lesão corporal decorrente de violência doméstica contra mulheres aumentam 28,8% em dias de jogos de futebol. As ocorrências de ameaça crescem 27,4%. Entre meninas e mulheres de 15 a 29 anos, o aumento dos dois tipos de ocorrência chega a 44,4%.
O levantamento analisou dados de 2023 a 2025 e cruzou registros policiais com partidas do Campeonato Brasileiro, da Copa Libertadores e da Copa Sul-Americana em cinco capitais brasileiras. A base reuniu mais de 308 mil ocorrências, sendo 219.595 registros de ameaça e 88.720 de lesão corporal.
De acordo com os responsáveis pelo estudo, os números não significam que o futebol seja a causa da violência. No entanto, demonstram uma associação estatística relevante entre dias de partidas e o agravamento de situações de violência que já fazem parte da realidade brasileira.
