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Em meio à crise, Cotia pode ser a última esperança para o São Paulo se reerguer

Tentativa de negociar categorias de base com investidor externo foi decisiva para que presidente Julio Casares derretesse politicamente

Centro de Formação de Atletas do São Paulo, localizado em Cotia - Reprodução / spfc.net

A derrota do São Paulo para o Cruzeiro por 2 a 1, na final da Copa São Paulo de Futebol Júnior 2026, realizada no último domingo (25), na Mercado Livre Arena Pacaembu, deixou um gosto agridoce para os torcedores do clube (que, no dia anterior, viram o time profissional ser atropelado pelo Palmeiras por 3 a 1, passando a flertar com a zona do rebaixamento no Paulistão).

Nas redes sociais do Tricolor, o post que informava o resultado da final da Copinha trazia uma série de comentários elogiosos feitos por torcedores ao elenco comandado pelo técnico Allan Barcellos, que possui contrato com a equipe até 2027 e conquistou, recentemente, o bicampeonato da Copa do Brasil sub-20.

Cotia, cidade da Grande São Paulo onde se localiza o Centro de Formação de Atletas (CFA) do Tricolor, converteu-se no sinônimo da base do clube, ganhando status de espaço quase que intocável para os torcedores.

No fim do ano passado, o CIES Football Observatory divulgou o ranking dos clubes que mais formam jogadores que atuam em 49 ligas ao redor do mundo. No relatório deste ano, o São Paulo aparece como o clube brasileiro mais bem colocado, ocupando a 12ª posição no cenário global.

A ideia de negociar as categorias de base do clube com um investidor externo foi decisiva para derrocada política do ex-presidente Julio Casares, que optou por renunciar ao cargo na semana passada, dias depois de haver sido afastado por decisão do Conselho Deliberativo.

O bom desempenho do São Paulo nas categorias de base contrasta com o péssimo momento vivido pela equipe masculina profissional, em tempos recentes. Cotia é vista como uma das últimas esperanças para o clube se reerguer.

História

O CFA de Cotia foi concebido durante a gestão do ex-presidente Marcelo Portugal Gouvêa, que comandou o São Paulo durante as conquistas da Copa Libertadores e do Mundial de Clubes, em 2005. A inauguração ocorreu naquele mesmo ano, em 16 de julho, pouco depois da vitória no torneio continental.

O alojamento dos atletas, por exemplo, projetado pelo arquiteto Ruy Ohtake, ficou pronto em 2012, durante a gestão de Juvenal Juvêncio. Contando com três pavimentos, nos quais estão distribuídos 67 apartamentos de cerca de 25 metros quadrados, o local tem condições de receber até 137 hóspedes e serviu de sede para a delegação da Colômbia, durante a Copa do Mundo de 2014.

No ano anterior, o CFA de Cotia – cujo nome completo é Presidente Laudo Natel, em homenagem ao banqueiro e ex-governador de São Paulo, que comandou o clube de 1958 a 1971 – ganhou um estádio batizado de Marcelo Portugal Gouvêa (àquela altura, já falecido), com 1,5 mil lugares.

Antes da criação do CFA, o Tricolor já possuía um trabalho de categorias de base na cidade de Cotia, alugando o espaço do antigo Centro de Formação de Atletas Profissionais (Cefap), conhecido como CT do Balão Mágico, numa referência à rua onde o espaço funcionava.

Ao mesmo tempo, o clube também alugava um Centro de Treinamento no bairro de Guarapiranga, em São Paulo, onde as categorias de base dividiam espaço com o time feminino.

Em suas primeiras décadas de existência, embora revelasse jogadores, o Tricolor não tinha um trabalho estruturado e específico para as categorias de base. Essa área ganhou impulso na década de 1970, com a criação da Escola de Futebol Vicente Ítalo Feola (homenagem ao técnico da seleção brasileira na Copa de 1958 e que treinou o clube em diversas ocasiões), que funcionou nas dependências do Estádio do Morumbi até meados da década 1990.

Ali foram relevados jogadores que brilharam pelo clube, incluindo o atacante Müller e o goleiro Rogério Ceni.

Com o CFA de Cotia, pela primeira vez o São Paulo passou a ter uma estrutura específica voltada à formação de atletas da base.

Segundo pesquisa feita por Michael Serra, do Arquivo Histórico João Farah, em Cotia foram revelados nomes que viriam a brilhar nos gramados do Brasil e do mundo, como Rodrigo Caio, Casemiro, Antony, Eder Militão e Lucas Beraldo.

Relevância financeira

Ao longo dos anos, as negociações de atletas, especialmente aqueles formados nas categorias de base, sempre representaram uma fonte de receitas importante para o São Paulo.

Em 2022, por exemplo, o clube foi o que mais faturou no Brasil com esse tipo de transação. Segundo o Relatório Convocados/Outfield 2023, o São Paulo ganhou R$ 229 milhões com a venda de jogadores.

Desse total, R$ 100 milhões foram proporcionados pela revenda de jogadores que já eram consagrados na Europa, como Antony e Casemiro, negociados com Manchester United.

Nos anos seguintes, ao mesmo tempo em que o time profissional foi se afundando nos maus resultados, o faturamento da base passou a cair de maneira significativa.

Em 2023, as negociações de atletas injetaram R$ 127 milhões no caixa do São Paulo. No ano seguinte, o total caiu para R$ 93 milhões.

Entre as explicações para esse movimento (além da perda de relevância do clube, em termos de resultados esportivos), está a própria necessidade da diretoria de negociar jovens promessas em um curto espaço de tempo, como forma de cobrir o rombo financeiro que hoje se aproxima de R$ 1 bilhão.

De acordo com o Convocados/Outfield, de 2020 a 2024 o São Paulo foi o terceiro clube brasileiro que mais faturou com negociações de atletas, com um total acumulado de R$ 768 milhões, ficando atrás apenas de Palmeiras (R$ 1,243 bilhão) e Flamengo (R$ 986 milhões).

A diferença é que, no mesmo período, os dois rivais tiveram crescimento ínfimo (no caso do Palmeiras) ou até mesmo redução no endividamento (situação do Flamengo). Enquanto isso, a dívida líquida do Tricolor foi a terceira a mais crescer, entre os times da Série A, com uma variação de R$ 519 milhões para mais.

Negociação polêmica

A saída encontrada pela gestão de Julio Casares para tentar contornar o problema do endividamento serviu para agravar ainda mais a crise política do clube.

Ao longo do ano passado, o então presidente do Tricolor negociou um acordo com o investidor grego Evangelos Marinakis, dono do Nottingham Forest, da Premier League, e do Olympiacos, da Grécia, que, na prática, passaria a deter um percentual sobre as categorias de base do São Paulo.

O argumento usado por Casares e seus aliados é de que não se tratava de uma venda, mas sim de uma parceria operacional, que atrairia novos investimentos a Cotia, permitindo que o clube incrementasse suas receitas com venda de atletas.

Casares esperava captar R$ 250 milhões, dos quais R$ 200 milhões seriam investidos na base, enquanto os R$ 50 milhões restantes serviriam para amortizar as dívidas do clube. Em troca, Marinakis ganharia 30% de tudo o São Paulo recebesse com a venda de jogadores formados em Cotia.

A ideia, porém, despertou desconfiança entre torcedores e associados, acabando por se converter no ponto de ruptura entre o presidente e o então diretor de futebol Carlos Belmonte, principal responsável pela articulação da chapa que elegeu Casares.

Com o surgimento das denúncias contra o dirigente, o projeto foi abandonado antes mesmo de chegar ao Conselho Deliberativo, para análise.

Hoje, o São Paulo vive um momento nebuloso, tanto dentro de campo quanto em termos financeiros. O atual presidente, Harry Massis Junior, exerce o poder em um momento de transição, que antecede o período eleitoral no clube.

Qualquer decisão sobre eventual mudança na estrutura administrativa do clube dependerá da próxima diretoria a ser eleita.

Por mais que o São Paulo tenha se deteriorado nos últimos anos, a base representa um ativo e tanto, capaz de atrair a atenção dos investidores do Brasil e do exterior.

Em outros clubes, esse movimento também pode ser percebido. O Bahia, por exemplo, passou a realizar investimentos de peso na atração de talentos para a base, após a chegada do City Football Group. O time nordestino caminha para se tornar um importante polo fornecedor de atletas para os demais clubes do grupo.

No Fluminense, a proposta de criação de uma Sociedade Anônima do Futebol (SAF) prevê que a base em Xerém passaria toda para as mãos do futuro investidor. Em 2024, as negociações de atletas movimentaram R$ 2,328 bilhões entre os time da Série A do Brasileirão.