A despedida de Lionel Messi da seleção argentina ultrapassou as fronteiras dos gramados para se consolidar como um grande marco econômico da história recente do esporte global.
O impacto imediato dessa comoção pôde ser medido na velocidade com que se esgotaram as entradas para o amistoso entre Argentina e Benim, realizado na noite desta terça-feira (6), no Estádio Monumental de Núñez, em Buenos Aires, e vencido pelos donos da casa por 3 a 0.
Foram necessários apenas 90 minutos para que chegassem ao fim os ingressos que chegavam a custar o equivalente a R$ 1,6 mil.
Para além das bilheterias, o adeus de Messi movimenta o mercado de patrocínios e grandes negócios corporativos, com as empresas parceiras do craque montando uma verdadeira operação de guerra comercial para promover ativações exclusivas ligadas ao evento.
A Adidas, fornecedora oficial de material esportivo do argentino, lidera o movimento com o lançamento de uma linha comemorativa de uniformes e chuteiras especiais com detalhes dourados, desenhados especificamente para eternizar a trajetória do camisa 10.
No campo comercial, o Messi possui pelo menos 11 grandes patrocínios, incluindo o da marca alemã, que rende US$ 25 milhões anuais. Outro bastante significativo é o da Apple, detentora exclusiva das transmissões da MLS (ver toda relação abaixo).
A Associação do Futebol Argentino (AFA) uniu forças com patrocinadores para erguer a fan fest oficial “Gracias, Leo” nas proximidades do estádio. O espaço interativo contou com telões gigantes, shows e experiências sensoriais patrocinadas por grandes marcas dos setores de bebidas e tecnologia
Nas redes sociais, a comoção em torno da hashtag oficial da despedida dominou as discussões em dezenas de países, gerando bilhões de impressões em poucas horas.
Desde 2007, Messi ganhou mais de US$ 700 milhões em salários e bônus, segundo estimativas Bloomberg. Essa renda astronômica, vale lembrar, é uma das causas do caos financeiro que se instalou no Barcelona, em tempos recentes, situação da qual apenas agora o clube catalão está conseguindo se libertar.
Descontando impostos e incluindo nesse montante receitas vindas de investimentos e patrocínios, o patrimônio líquido de Messi ultrapassou a marca de US$ 1 bilhão, de acordo com o ranking de bilionários da Bloomberg.
Isso o coloca ao lado do rival Cristiano Ronaldo (que se tornou o primeiro bilionário do futebol após assinar com o Al-Nassr, da Arábia Saudita, em 2023), entre os atletas mais ricos do mundo.
Messi, aliás, é a segunda personalidade em todo o mundo com mais seguidores no Instagram, com 516 milhões, atrás apenas de CR7, com 679 milhões.
Segundo estimativas da Forbes, as postagens patrocinadas diretamente na plataforma rendem cerca de US$ 2,7 milhões para o argentino.
Legado será mantido?
Para especialistas em gestão e marketing esportivo, este fim de ciclo não deve impactar em perda de receitas.
“A aposentadoria da seleção argentina não significa a aposentadoria comercial de Messi. Os grandes contratos pessoais tendem a continuar porque as marcas não compraram apenas o jogador da seleção, compraram um dos maiores ícones da história do futebol. A narrativa agora migra de performance e conquistas para legado, longevidade e influência global. Messi deixa de ser apenas um atleta em atividade pela Argentina para se transformar definitivamente em uma marca atemporal, e isso pode manter seu valor comercial em altíssimo nível por muitos anos”, analisa Fábio Wolff, sócio-diretor da Wolff Sports e especialista em marketing esportivo.
Para Thiciana Simão, CEO e cofundadora da AdSports, Messi consolidou-se como uma marca global que transcende os campos e os ciclos de sua carreira, atingindo o patamar de lendas como Michael Jordan e Serena Williams, cujo impacto comercial se mantém intenso mesmo após a aposentadoria.
“Seu legado, evidenciado pelo contrato vitalício com a Adidas e sua atuação no crescente mercado norte-americano pelo Inter Miami, desloca a narrativa comercial das convocações da seleção argentina para a celebração de sua história. Essa transição abre caminhos para que marcas se associem à sua trajetória simbólica, enquanto abre espaço para que novos patrocinadores apostem na próxima geração de atletas em ascensão”, explica.
Wagner Leitzke, que lidera a área de desenvolvimento de negócios da agência End to End, concorda que a aposentadoria da seleção não deve representar uma perda comercial para o Messi.
“A imagem dele já está em um nível de consolidação que transcende o atleta em atividade: ele passa a ocupar uma camada ainda mais valiosa como símbolo global. Na prática, pode até abrir novas oportunidades, já que uma agenda mais flexível permite ampliar presença em ativações, campanhas e projetos de marca. Esse movimento tende a se intensificar quando ele também encerrar a carreira nos clubes, transformando seu legado esportivo em um ativo comercial de longo prazo”, afirma.
MSL
Um estudo recente da Nielsen, divulgado em junho, aponta que a base de fãs de futebol na América do Norte cresceu 10,9% nos últimos cinco anos, ultrapassando 136 milhões de pessoas. O levantamento, que analisou as tendências de audiência nos países anfitriões da Copa do Mundo (Estados Unidos, Canadá e México), atribui esse avanço à chegada de Lionel Messi à Major League Soccer (MLS), para defender o Inter Miami.
A estreia do craque gerou um salto de 173% na audiência linear em comparação com a média histórica do torneio. O impacto também impulsionou o mercado doméstico. Segundo a Nielsen, a MLS registrou um crescimento de 97% na audiência de sua final em relação ao ano anterior, impulsionada pela campanha vitoriosa do Inter Miami, o que consolida o fortalecimento do futebol na região.
“A MLS tem uma posição única para inovar no futebol mundial. Muito controle sobre o produto, em um mercado altamente desenvolvido em tecnologia e anunciantes como os EUA, onde o futebol cresce bastante, mas ainda não é consolidado e mais estabilizado como a NFL e NBA, por exemplo. Isso permite que a Liga se entenda mais como um conglomerado de mídia e foque no que importa – conquistar a atenção das gerações atuais e futuras, moldando seus formatos e modelos de negócio para o que realmente pode não só apontar tendências, mas criá-las”, acrescenta Alexandre Vasconcellos, gerente regional da Flashscore no Brasil.
Desde que Messi chegou ao Inter Miami, a conta do clube (@intermiamicf) no Instagram teve um crescimento exponencial e hoje conta com mais de 18 milhões de seguidores, maior do que praticamente todos clubes da elite no Brasil, exceto Flamengo. Já a conta da @mls na plataforma atingiu mais de 5 milhões de seguidores neste mês.
“Imagine quantas centenas de milhões de pessoas ‘seguem'”‘ o jogador em redes sociais e aplicativos diversos. Todas essas pessoas, a cada semana, passaram a conhecer uma franquia da MLS. Messi é atleta da equipe de Miami, mas anunciante de toda a liga”, analisa Thiago Freitas, diretor de operações da Roc Nation Sports Brazil .
Um outro estudo do site norte-americano Sportico, divulgado no primeiro trimestre deste ano, apontou que o clube foi avaliado em US$ 1,45 bilhão e assumiu a liderança do ranking de franquias da MLS em 2026, com crescimento de 22% em relação ao ano interior.
“É um atleta capaz de atrair os olhares do mundo inteiro para si em razão da carreira vitoriosa que construiu ao longo dos anos e pelo que representa fora de campo também”, pontua Rene Salviano, CEO da Heatmap e especialista em patrocínios e ativações de marketing esportivo. “A enorme disputa para assistir Messi e o crescimento em receitas diversas comprova que o status de superstar do melhor jogador de futebol do mundo é capaz de atrair públicos que vão além dos amantes do futebol”, acrescenta Ivan Martinho, professor de marketing esportivo da ESPM e colunista da Máquina do Esporte.
Confira as principais parcerias comerciais de Messi:
Adidas: US$ 25 milhões por ano. A marca alemã é a parceira mais antiga e importante de Messi (juntos desde 2006). Em 2017, eles assinaram um contrato vitalício. Além do valor fixo, Messi recebe royalties e participações nas vendas de produtos com seu nome, o que impulsionou ainda mais seus ganhos após sua ida para o Inter Miami (clube também vestido pela Adidas)
Apple (Apple TV): US$ 50 milhões por ano. Embora técnico-comercial, este acordo foi fundamental para sua ida aos EUA. Messi recebe uma porcentagem da receita gerada pelas novas assinaturas do MLS Season Pass na plataforma de streaming.
PepsiCo (Pepsi / Gatorade / Lay’s): Estima-se que o pacote completo de marcas do grupo renda a ele múltiplos milhões anualmente (valores individuais não divulgados). Ele estrela as maiores campanhas globais do grupo.
Anheuser-Busch InBev (Budweiser / Michelob Ultra): Valores exatos não revelados publicamente, mas Messi é uma das principais peças de marketing da Michelob Ultra.
Mastercard: Acordo plurianual consolidado como um dos embaixadores globais da marca.
Bitget: US$ 6,7 milhões por ano. Contrato firmado com a corretora de criptoativos para promover a exchange.
Socios.com: US$ 20 milhões (total do contrato de 3 anos firmado anteriormente no período de PSG e mantido em parcerias de engajamento de fã-tokens).
Louis Vuitton: US$ 1,7 milhão por ano. Messi atua como embaixador de campanhas icônicas das linhas masculinas e de viagem da grife francesa.
Hard Rock International: Parceiro comercial de longa data em restaurantes, hotéis e produtos licenciados (como o “Messi Burger”).
PUBG Mobile / Epic Games: Valores sob sigilo, focados em licenciamento de imagem para ativações e skins dentro dos jogos.
Lowe’s e Stanley 1913: Acordos comerciais mais recentes focados no mercado norte-americano após sua mudança para a Flórida.
