Se ainda restava alguma dúvida, pelo visto ela chegou ao fim. Os rios de dinheiro que a Arábia Saudita vinha despejando em competições esportivas próprias, como LIV Golf e Saudi Pro League, parecem ter secado de vez.
Ou, pelo menos, ficarão durante algum tempo represados, em meio a um contexto geopolítico e econômico para lá de desfavorável, pelo qual o país atravessa.
A crise do projeto esportivo saudita já apresentava sinais claros nos últimos meses, quando o Fundo Público de Investimentos (PIF) anunciou corte de verbas entre US$ 200 milhões e US$ 400 milhões em Al-Hilal, Al-Nassr, Al-Ittihad e Al-Ahli, quatro clubes por ele controlados na Saudi Pro League.
Juntas, as equipes acumularam um rombo de mais de € 1 bilhão nas últimas janelas de transferências, resultado de contratações de medalhões que brilhavam na Europa, mas que não ofereceram retorno proporcional de mercado.
No caso do Al-Nassr, time do atacante português Cristiano Ronaldo, a dívida acumulada já está em torno de US$ 213 milhões, segundo informações do jornalista saudita Walid Al-Faraj.
O site norte-americano Semaphore, especializado em finanças, noticiou que representantes do PIF tiveram uma reunião secreta com interlocutores da RedBird Capital, dona do Milan, da Itália, para tratar da aquisição de 70% do clube saudita, em um negócio avaliado em US$ 267 milhões.
Nessa negociação, o fundo soberano faria uma injeção de capital (por meio de novos contratos de patrocínio corporativo e de parcerias comerciais) para sanear a dívida milionária, viabilizando a venda para a empresa norte-americana. Além disso, Cristiano Ronaldo assumiria 20% das ações do clube, passando de funcionário a sócio do Al-Nassr.
Por enquanto, a conversas ainda não foram oficializadas, mas o fato é de que há meses o PIF tenta se desfazer do Al-Nassr, como parte da nova política de freio nos gastos em eventos esportivos, que é muito mais do que uma simples reorganização interna, representando uma reposta do governo às dificuldades econômicas que o país enfrenta.
Saudi Vision 2030
Os investimentos vultuosos em esportes feitos pelo reino do Oriente Médio são parte do projeto conhecido como Saudi Vision 2030, que tem o objetivo de diversificar a economia, superando a dependência do petróleo, que hoje responde por 40% do Produto Interno Bruto (PIB) do país.
Com 95% do território coberto por deserto e sem acesso a matérias-primas agrícolas, a Arábia Saudita buscou no turismo uma forma de impulsionar seu crescimento de longo prazo.
Além das paisagens naturais e dos monumentos históricos e religiosos (seu território abriga alguns dos locais mais sagrados do Islã), eventos e competições esportivas tornaram-se as principais apostas para atrair visitantes.
O primeiro movimento saudita no esporte consistiu em investir em clubes e competições no exterior. Foi dessa forma que, em 2021, o Newcastle teve 80% de suas ações adquiridas pelo PIF.
Nos anos seguintes, a presença do país nas demais competições de diferentes modalidades ampliou-se, não apenas por meio do PIF, mas também pela atuação da estatal petrolífera Aramco, que se tornou uma das maiores patrocinadoras da Fórmula 1 e da Fifa, na Copa do Mundo.
A partir de 2023, porém, os sauditas resolveram ir além de turbinar sua própria liga local, a Saudi Pro League, contratando grandes astros que atuavam no futebol europeu, como Cristiano Ronaldo, Karim Benzema, N’Golo Kanté, Sadio Mané e Neymar.
Ao mesmo tempo, passou a ocupar com destaque calendários de competições que patrocinava, como na Fórmula 1, WTA ou mesmo conquistando o direito de sediar a Copa do Mundo de 2034.
Esse segundo movimento, que envolveria investimentos bilionários em infraestrutura esportiva, fazia sentido, já que os eventos esportivos eram vistos como um atrativo para tornar a nação um polo turístico global de peso. Essa lógica vinha fazendo sentido até o ano passado. Até que veio a guerra, que impactou os rumos do projeto.
Impactos da guerra
Principal aliado dos Estados Unidos no mundo árabe, o país passou a sofrer com os efeitos colaterais da guerra iniciada em fevereiro deste ano, após o ataque promovido por Israel e Estados Unidos ao Irã.
Como retaliação, a nação persa bloqueou o Estreito de Ormuz, que representava a principal rota de transporte de petróleo no planeta, além de passar a bombardear a infraestrutura produtiva saudita.
Em agosto deste ano, os embarques de petróleo da Arábia Saudita caíram em cerca de um terço, atingindo um nível de pouco mais de 3 milhões de barris ao dia, a menor média registrada desde 2013.
Os ataques à infraestrutura petrolífera fizeram a produção cair de 10,9 milhões de barris diários, em fevereiro deste ano, para 6,2 milhões, em agosto.
No segundo trimestre de 2026, as atividades relacionadas ao petróleo tiveram queda de 24,6% na Arábia Saudita, provocando uma queda de 4,8% no PIB. Para este ano, a projeção do Fundo Monetário Internacional (FMI) é de que a economia do reino recue em 3,3%.
No primeiro trimestre do ano atual, o país enfrentou um déficit fiscal de US$ 33,5 bilhões. Ao mesmo tempo, a Aramco informou uma queda de 12% em seu lucro anual, que caiu de US$ 121,3 bilhões para US$ 106,3 bilhões.
Foco em áreas estratégicas
Com a torneira dos petrodólares fechada, a Arábia Saudita viu-se forçada a recuar ou rever uma série de investimentos no esporte.
E isso não ficou restrito aos cortes no orçamento da Saudi Pro League, mas acabou por atingir a infraestrutura da Copa do Mundo de 2034, que contará com menos estádios (que tendem a seguir, também, projetos menos suntuosos).
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Isso não significa, porém, que o país irá abandonar o Saudi Vision 2030, por conta da queda brusca na produção petrolífera.
Os investimentos em e-Sports e games seguem intactos, mesmo com os cortes realizados na área esportiva.
Vale lembrar que, recentemente, o PIF tornou-se acionista majoritário da Electronic Arts (EA), em uma operação avaliada em US$ 55 bilhões, além de ser acionista minoritário de companhias como Nintendo, Capcom, Nexon e Take-Two Interactive.
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O país ainda comprou e fundiu as operações das duas maiores organizadoras de torneios de e-Sports do mundo, criando o ESL Faceit Group. Isto sem contar o aporte de US$ 235 milhões na Hero Esports (VSPO), garantindo o controle das transmissões e torneios de jogos eletrônicos em toda a Ásia.
A meta do governo saudita é destinar US$ 38 bilhões ao setor de games e e-Sports, de modo a gerar 39 mil empregos locais e fazer com que essa indústria contribua com o equivalente a US$ 13,3 bilhões com o PIB do país, até 2030.
