A série “Brasil 70 – A Saga do Tri”, que estreou nesta sexta-feira (29) na Netflix, apresenta um detalhado trabalho de reconstituição visual e narrativa sobre um dos períodos mais marcantes da história do futebol nacional.
A produção se destaca pelo cuidado técnico, alcançando resultados estéticos que reproduzem a colorização característica das transmissões e registros fotográficos do final da década de 1960 e início de 1970. Esse esforço estético serve de base para uma trama que busca ir além do resultado em campo, explorando as tensões que cercaram a preparação da equipe brasileira.
O elenco foi selecionado com foco em uma cuidadosa caracterização física dos personagens importantes daquela conquista. Entre as semelhanças, destaque para Lucas Agrícola como Pelé; Rodrigo Santoro, no papel de João Saldanha; e Bruno Mazzeo, que dá vida a Zagallo. O trabalho de imagem também aproxima Daniel Blanco de Rivellino, Ravel Andrade de Tostão e Caio Cabral do capitão Carlos Alberto Torres.
Humanização
A narrativa foca na desconstrução da imagem puramente heroica do Rei do Futebol. A série aborda as inseguranças e ressentimentos do jogador em relação à sua participação no Mundial de 1970.
Esse conflito interno é fundamentado nas lesões sofridas por Pela nas Copas de 1962, no Chile, e 1966, na Inglaterra. O Brasil vinha de uma participação vexatória no Mundial anterior a 1970, quando era apontado como favorito, mas acabou eliminado na fase de grupos pela última vez na história das Copas. A pressão nas costas do camisa 10 do Brasil era algo insuportável até para um ser mítico como Pelé se tornou.
João Saldanha é posicionado como uma figura central para a recuperação da autoestima da seleção brasileira após o desempenho negativo na Inglaterra. Comunista declarado e jornalista de prestígio, Saldanha é escolhido para o cargo de treinador em um período de repressão política da ditadura militar.
Mesmo após sua saída do comando técnico, motivada por mal desempenho da equipe às vésperas do mundial, além de divergências ideológicas e pressões governamentais, o personagem permanece importante na trama como jornalista, acompanhando o desenvolvimento da equipe em território mexicano.
Trajetória

A qualidade das cenas de futebol é um dos pontos altos da produção. A série utiliza técnicas de filmagem que prendem a atenção do espectador ao detalhar o processo de construção do time, mesmo sendo o desfecho da história amplamente conhecido.
O roteiro evidencia que o grupo de 1970 precisou superar obstáculos que, na ocasião, eram vistos como difíceis de transpor, incluindo o descrédito da torcida e o clima pesado dos anos de chumbo vividos pelo Brasil durante o governo do general Médici.
“Brasil 70 – A Saga do Tri” consegue superar -com méritos- o desafio de prender a atenção do público aos reconstruir uma história já amplamente conhecida. Com isso, consegue figurar entre as ótimas produções audiovisuais da Netflix voltadas ao esporte, sejam séries documentais ou ficcionais baseadas em fatos reais.
Mesmo para o público internacional, o título focado na realidade brasileira segue a linha de interesse gerada por séries como “F1: Dirigir para Viver”, “Senna” e “The English Game”, que reconstrói as origens do futebol também com ótima reconstrução histórica.
Focada nos desafios que Pelé enfrentou em um momento crucial de sua carreira para ser coroado como o Rei do Futebol, a série também lembra a reconstituição de trajetórias individuais no esporte como “O Caso Figo: A Transferência Que Mudou o Futebol”, “Beckham” e “Capitães do Mundo”.
