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Futebol / Gestão

Para especialistas, SAF não é única solução do futebol brasileiro

Executivos do mercado dizem que há diversos modelos que podem ser seguidos com sucesso no país

Adalberto Leister Filho - São Paulo (SP) Publicado em 31/03/2022, às 09h00 - Atualizado às 09h10

Claudio Pracownik, CEO da Win The Game, acredita que a SAF não é o fim, mas um meio para os clubes melhorarem - Cleiby Trevisan / Divulgação
Claudio Pracownik, CEO da Win The Game, acredita que a SAF não é o fim, mas um meio para os clubes melhorarem - Cleiby Trevisan / Divulgação

Encarada como a salvação para as finanças da maioria dos clubes brasileiros, a Sociedade Anônima do Futebol (SAF) não resolverá todos os problemas de gestão do futebol do país. Pelo menos é o que acreditam executivos que trabalham em diferentes projetos de estruturação de SAFs em times do Brasil.

“O que existe é uma certa injustiça no momento em que se concentra na SAF as soluções de todos os problemas do futebol brasileiro. SAF não é fim, é meio. Os clubes podem se organizar, independentemente de se constituir uma SAF”, afirmou Claudio Pracownik, sócio e CEO da Win The Game, joint venture criada com o BTG Pactual para atuar no ramo do futebol e entretenimento.

Para ele, os clubes precisam se profissionalizar, melhorar seu processo de gestão e estabelecer objetivos a serem alcançados. E isso pode vir por meio de uma SAF ou não.

“A SAF é simplesmente um instrumento jurídico de constituição de uma empresa. Estamos vivendo uma gênese no futebol brasileiro. O mercado sempre encontra o seu equilíbrio”, analisou Pracownik, cuja empresa assinou contrato com Fortaleza e Sport para melhorar o processo de governança nos clubes.

O que existe é uma certa injustiça no momento em que se concentra na SAF as soluções de todos os problemas do futebol brasileiro. SAF não é fim, é meio

Nas últimas semanas, houve percepções diferentes sobre o trabalho de estruturação das SAFs de Botafogo, Cruzeiro e Vasco, clubes com trabalhos mais adiantados neste novo modelo de gestão. O Botafogo voltou a investir no mercado da bola, contratando atletas como Patrick de Paula, revelação do Palmeiras, por R$ 32,7 milhões por 50% dos direitos federativos do jogador. Foi seu maior investimento e a quarta negociação mais cara entre clubes brasileiros na história. 

Já o Cruzeiro enfrenta turbulências em relação ao contrato assinado entre Ronaldo Nazário, investidor da SAF do clube, e a diretoria. O contrato prevê que o ex-atacante possa adquirir 90% da SAF do Cruzeiro por R$ 50 milhões. A notícia irritou os cruzeirenses, já que inicialmente havia sido divulgado que Ronaldo investiria R$ 400 milhões no time mineiro.

O Vasco, por sua vez, estrutura a venda de 70% de sua SAF para a 777 Partners por R$ 700 milhões. Há desconfiança, entre membros do Conselho do clube, de que o time de São Januário possa assinar contrato semelhante ao do Cruzeiro, e isso ligou um sinal de alerta. Jorge Salgado, presidente do Vasco, porém, garante que esse valor está garantido para ser injetado no time.

Com maneiras diversas de estruturação de SAFs já estruturadas no Brasil, Pracownik afirmou que não há só uma forma de se criar a Sociedade Anônima do Futebol. “Não é porque uma SAF deu certo que será necessariamente o modelo que vai perdurar. E se uma SAF der errado, não será o modelo a ser abandonado por completo. Há coisas que poderão ser aproveitadas em todos os modelos”, destacou.

Cleiby Trevisan / Divulgação
Para Fred Luz, da Alvarez & Marsal, modelo associativo pode ser mantido
Cleiby Trevisan / Divulgação

Para Fred Luz, diretor da Alvarez & Marsal, consultoria especializada em gestão e reestruturação de empresas, há bons exemplos de governança em clubes que seguem o modelo associativo, como o Flamengo, que tem realizado gestão eficiente e sustentável, equalizando receitas e despesas. Por isso, nem todo clube brasileiro deve adotar o modelo de SAF nos próximos anos.

“Não existe somente um remédio para tudo. Existem empresas mal administradas e outras que vão muito bem no mercado. A mesma coisa vale para as associações. Dependendo do estatuto que se monte na associação, pode haver garantia de que haja responsabilidade fiscal e que vão ter investimentos para aumento de receitas. É a criação de um círculo virtuoso, que é o crescimento de arrecadação que melhora o time, e o time, com desempenho melhor, gera aumento de receitas”, comentou Luz, cuja empresa, no momento, realiza consultoria de gestão no São Paulo.

Segundo ele, os trabalhos no tricolor paulista devem durar até dois meses e não preveem necessariamente a criação de uma SAF do clube.

Não existe somente um remédio para tudo. Existem empresas mal administradas e outras que vão muito bem no mercado. A mesma coisa vale para as associações

“Estamos fazendo uma avaliação financeira do São Paulo para identificar oportunidades de melhoria de desempenho. Não tem nada relacionado diretamente à SAF. É claro que, quando avaliamos o ambiente como um todo, vemos todas as possibilidades que estão acontecendo no futebol brasileiro. Mas não tem uma encomenda específica [de SAF]”, explicou o executivo, que foi um dos debatedores no Sportainment Lab, evento promovido em São Paulo por BTG Pactual, Hubstage, Bichara e Motta Advogados e Win the Game.

Além do time paulista, a Alvarez & Marsal também presta consultoria no Figueirense, Coritiba, Cruzeiro e Azuriz, clube-empresa do Paraná que tem o lateral-esquerdo Marcelo, do Real Madrid, como investidor.

O Coritiba, que semana passada teve deferido pela Justiça seu pedido de recuperação judicial, é outro clube que estrutura uma SAF no momento. O Figueirense, por sua vez, apresentou plano de recuperação extrajudicial no final de 2021. O clube, que disputará a Série C do Brasileirão neste ano, estava com dívida de R$ 165 milhões. O time catarinense tem prazo de 10 anos para pagamento de débitos trabalhistas e 15 anos para dívidas cíveis. O clube estruturou sua SAF e procura investidores.