A saga da seleção italiana em busca de um técnico que seja capaz de devolver a Azzurra às Copas do Mundo parece não ter fim.
Depois de ter recusados os convites feitos a Pep Guardiola (que deixou o cargo de treinador do Manchester City, mas segue como consultor especial do City Football Group) e Carlo Ancelotti (que permanecerá à frente da seleção brasileira), a Federação Italiana de Futebol (FIGC) precisou desistir da contratação do ídolo Andrea Pirlo, um dos protagonistas da conquista do último Mundial pelo país, em 2006.
A decisão tem a ver com a parceria mantida pelo ex-meia com a casa de apostas russa Fonbet. O ex-jogador publicou um post no Instagram neste domingo (26), comunicando a desistência da entidade de nomeá-lo como técnico da seleção.
No texto, ele procurou justificar sua relação com a Fonbet. “A colaboração profissional em questão, que recentemente gerou controvérsia, faz parte da minha trajetória de trabalho nos Emirados Árabes Unidos e é exclusivamente de natureza comercial e desportiva. Atribuir uma história à colaboração significa atribuir-me crenças que nunca expressei e que não me pertencem”, afirmou Pirlo.
Fator Ucrânia
Dois aspectos ajudam a tornar polêmica a parceria de Pirlo com a Fonbet. Um deles tem a ver com o fato de a empresa estar sediada na Rússia, país que está sob sanções econômicas da União Europeia e dos Estados Unidos em decorrência da guerra contra a Ucrânia, que se desenrola desde 2022.
O conflito eclodiu depois que a Ucrânia tentou ingressar na Organização do Tratado do Atlântico Norte (Otan), criada durante a Guerra Fria para conter o avanço do bloco soviético na Europa.
Após a dissolução da União Soviética, em 1992, a Otan passou a incorporar diversas das antigas nações socialistas (14, no total), incluindo Polônia, Hungria e Romênia.
A possível entrada a Ucrânia no bloco militar foi entendida pelo governo do presidente Vladimir Putin como uma ameaça à Rússia, já que, em tese, deixaria o país vulnerável a eventuais ataques que poderiam ser desferidos a partir de uma base instalada na antiga república soviética.
Desde que a invasão à Ucrânia teve início, a Rússia enfrenta forte embargo econômico, que inclui a exclusão dos bancos e demais instituições financeiras do país do sistema internacional Swift.
No esporte, uma das consequências mais lembradas do embargo (além da exclusão de equipes e atletas russos da Copa do Mundo, Jogos Olímpicos e demais eventos internacionais) envolve o Chelsea, que se tornou um dos clubes mais vencedores da Inglaterra neste século, graças aos investimentos feitos pelo bilionário russo Roman Abramovich.
Em 2022, após a eclosão da guerra, o investidor teve seus bens no Reino Unido congelados, por conta de sua proximidade com Putin. Essa situação forçou a venda do clube à BlueCo, consórcio norte-americano formado por Todd Boehly e pela empresa de investimentos Clearlake Capital.
Decreto Dignità
Desde 2018, a Itália conta com uma legislação rígida sobre a publicidade do setor de apostas, conhecida como Decreto Dignità.
A norma foi editada com o objetivo de combater o avanço da dependência em jogos de azar, especialmente entre os jovens.
O país proíbe qualquer tipo de propaganda na mídia, em estádios ou eventos esportivos. Por essa razão, clubes profissionais italianos não contam patrocínios de bets em suas camisas.
A única brecha hoje existente consiste na possibilidade de as plataformas licenciadas criarem sites ou páginas com conteúdo informativo ou de entretenimento, nas quais podem utilizar suas marcas, mas sem divulgar apostas propriamente ditas.
As restrições em vigor na nação europeia são mais severas até do que as previstas no projeto que tramita na Câmara dos Deputados e que busca limitar a publicidade do setor no Brasil.
A proposta, que já foi aprovada pelo Senado Federal, busca proibir atletas e treinadores da ativa, assim como comunicadores e influenciadores, de realizarem propaganda de bets.
Na Itália, a atividade do setor é fiscalizada pela Agenzia delle dogane e dei Monopoli (ADM). Somente casas licenciadas podem fazer publicidade no país.
A legislação não proíbe, no entanto, um ex-atleta como Pirlo de firmar parceria com uma plataforma estrangeira, mesmo que não possua outorga local, desde que as ações publicitárias ocorram fora do território italiano.
Atualmente, a Fonbet possui licença para operar em mercados como os da Rússia e do Chipre.
A seleção italiana não se classifica a uma Copa do Mundo desde 2014, quando a equipe foi eliminada do torneio ainda na fase de grupos, numa chave que tinha Uruguai, Inglaterra e Costa Rica.
