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Por que um clube da segunda divisão resolveu pensar como startup e recorreu à Bolsa de Valores?

Cádiz, da Espanha, na verdade, não abriu capital e está testando um novo modelo de financiamento e com um outro grau de governança

Atualmente na segunda divisão espanhola, Cádiz busca ser inovador no mercado financeiro - Reprodução / cadizcf.com

No começo do mês, você pode ter visto um outro post no LinkedIn com um título chamativo como “Time da segunda divisão entra na Bolsa de Valores dos Estados Unidos” e pode ter se impressionado, afinal, raros grandes clubes têm tamanho bastante para serem listados na Bolsa (como os casos de Manchester United e Juventus). Por isso, vamos explicar o que aconteceu e, claro, o mais importante para quem lê a Engrenagem, por que isso importa.

O Cádiz, clube da segunda divisão da Espanha, na verdade, não abriu capital. O que foi levado à Nasdaq foi a Nomadar Corp., subsidiária do clube, testando um novo modelo de financiamento e com um outro grau de governança. Esse “braço” do Cádiz é voltado para inovação e concentra operações de alto rendimento esportivo, gestão de ativos físicos, eventos no estádio e projetos urbanos, entre outras questões. Ou seja: tudo que orbita o clube, mas não o futebol diretamente.

A estreia aconteceu no dia 31 de outubro, na Nasdaq, sob o ticker “NOMA”, por meio de um modelo chamado “direct listing”. Diferentemente de um IPO tradicional, o formato não envolve a emissão de novas ações para captação imediata de recursos junto ao mercado; o que acontece é um registro de ações que já existiam, pertencentes a acionistas atuais, que passam a ser negociadas livremente na Bolsa.

Os números ajudam a dimensionar a ambição. Cerca de 13,3 milhões de ações foram registradas, com preço de referência inicial de US$ 2, mas o papel chegou a estrear próximo dos US$ 30, elevando rapidamente a avaliação da companhia para algo em torno de US$ 390 milhões.

Como curiosidade: Desde então, o mercado tem reagido com alta volatilidade (veja aqui), movimento comum em empresas de crescimento em estágio inicial, especialmente quando ainda não há receitas relevantes. O volume diário de negociações é baixo, e as expectativas são muito sensíveis a qualquer mudança (na última quarta-feira (26), por exemplo, bateu alta na casa dos 20%).

O principal motor financeiro da operação é o projeto Sportech City, um complexo urbano-esportivo de aproximadamente 110 mil m², que prevê estádio multiuso para 40 mil pessoas, hotel, centro médico esportivo, spa, áreas comerciais e espaços para eventos corporativos. A iniciativa transforma o Cádiz, ao menos em tese, em algo mais próximo de um hub de entretenimento e serviços do que de um clube tradicional.

Além da construção do complexo, a Nomadar já firmou acordos fora da Espanha com academias e centros de desenvolvimento esportivo nos Estados Unidos, Índia e Japão. A ideia parece ser expandir atuações e atrelar a marca do Cádiz como “plataforma internacional de treinamento, turismo esportivo e licenciamento”. 

Essa separação entre “clube” e “plataforma” reflete uma transformação mais estrutural dos clubes que aos poucos tentam diminuir a dependência quase exclusiva do desempenho esportivo (direitos de transmissão e venda de jogadores) e passam a atuar em diferentes frentes pouco, ou nada, relacionadas ao jogo em si, como entretenimento, mercado imobiliário, turismo, saúde, etc.

Vai dar certo e revolucionar o mercado? Ou será um fracasso? É difícil prever, mas é um teste interessante para todos ficarem de olho.

O conteúdo desta publicação foi retirado da newsletter semanal Engrenagem da Máquina, da Máquina do Esporte, feita para profissionais do mercado, marcas e agências. Para receber mais análises deste tipo, além de casos do mercado, indicações de eventos, empregos e mais, inscreva-se gratuitamente por meio deste link. A Engrenagem conta com uma nova edição todas as quintas-feiras, às 9h09.