A SAF Botafogo divulgou seu balanço financeiro com números que aumentam as preocupações em relação à capacidade de o clube se manter. O capital circulante (conjunto de recursos financeiros para manter a operação diária da equipe) chegou a número negativo de R$ 952 milhões.
As dívidas que superam o total de bens e direitos do Glorioso (que em termos contábeis é chamado de passivo a descoberto) atingiram R$ 431,9 milhões registrados ao fim de 2025 .Houve aumento de 205,9% em relação ao ano anterior nesse quesito.
Diante desse cenário, a SAF Botafogo protocolou, em 22 de abril, um pedido de recuperação judicial perante o Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJ-RJ) tentando gerenciar uma situação financeira que, desde então, tem se mostrado cada vez mais frágil.
Dívidas
De acordo com o balanço, as obrigações totais do passivo consolidado somam R$ 2,01 bilhões (aumento de 29,35% sobre o ano anterior).
O relatório do auditor independente BDO emitiu uma abstenção de opinião, citando múltiplas incertezas sobre a continuidade operacional e a ausência de confirmações externas de instituições financeiras e partes relacionadas.
O faturamento bruto da Sociedade Anônima do Futebol (SAF) do Botafogo atingiu R$ 1,4 bilhão em 2025. O Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização, na sigla em inglês) foi de R$ 604 milhões, valor superior ao resultado de R$ 80,9 milhões obtido em 2024, ano em que o clube conquistou o Campeonato Brasileiro e a Libertadores (aumento de 646,2%).
“O Ebitda é o indicador que melhor traduz a capacidade operacional da SAF Botafogo de gerar valor, pois elimina efeitos contábeis que não impactam o caixa, como depreciação, amortização e resultado financeiro, permitindo enxergar com clareza a performance do negócio futebol”, afirma o documento.
Prejuízo
Apesar desse crescimento operacional, o clube encerrou o ano com um prejuízo líquido de R$ 290,8 milhões (aumento de 9%). A administração atribuiu parte do resultado às despesas operacionais, que subiram de R$ 672 milhões para R$ 837 milhões devido aos investimentos em elenco, infraestrutura e administração (acréscimo de 24,5%).
“O modelo de colaboração multiclubes, que nos ajudou a atingir a melhor temporada dos nossos 120 anos de história, e com sucesso similar para nossos clubes parceiros, se provou extremamente frágil, criando desafios significativos à medida que buscamos manter nossa relevância global”, admitiu John Textor, presidente do Conselho de Administração da SAF Botafogo.
O gestor sofreu severas críticas pela gestão de caixa único entre os clubes que controlava, particularmente Botafogo e Lyon, que quase sofreu um rebaixamento administrativo na Ligue 1 no ano passado.
Receitas
A negociação de direitos econômicos de atletas foi a principal fonte de recursos do Botafogo, totalizando R$ 733 milhões. As transferências de Luiz Henrique para o Zenit (Rússia) e de Thiago Almada ao Atlético de Madrid (Espanha) foram as maiores operações do período em termos de valor. Outras saídas incluíram os atacantes Igor Jesus para o Nottingham Forest e Tiquinho Soares para o Santos.
Os direitos de transmissão geraram R$ 111,175 milhões em receita bruta, sendo R$ 93,175 milhões provenientes do contrato com o Futebol Forte União (FFU) para o Campeonato Brasileiro.
No setor de patrocínios e marketing, o faturamento foi de R$ 92 milhões (aumento de 64,3%). O contrato com a VBet, que passou a vigorar em 2025, representou um aporte anual de R$ 55 milhões. Também houve a assinatura de contrato com a Brax para as placas de publicidade no Nilton Santos durante o Brasileirão com validade até 2029.
As receitas de match day e relacionamento com a torcida apresentaram números estáveis. O programa de sócio-torcedor Camisa 7 arrecadou R$ 52 milhões, enquanto a venda de produtos oficiais superou R$ 60 milhões.
A bilheteria bruta totalizou R$ 17,494 milhões, com uma margem líquida de 8% sobre a renda dos jogos. A participação na Copa do Mundo de Clubes da Fifa rendeu R$ 147,8 milhões em premiações. O principal feito da equipe na competição foi a vitória sobre o PSG, campeão da Champions League, por 1 a 0. O Glorioso acabou eliminado nas oitavas de final ao perder para o Palmeiras, pelo mesmo placar.
Clube social
A dívida histórica do clube social apresentou uma trajetória de queda, com redução acumulada de R$ 550 milhões entre 2022 e 2025.
O saldo em dezembro de 2025 era de R$ 547,992 milhões, resultado de R$ 309 milhões em descontos obtidos em renegociações e R$ 240 milhões em pagamentos efetivados.
No entanto, a auditoria ponderou o risco de questionamentos da Receita Federal devido ao atraso no pagamento de parcelas do Programa Emergencial de Retomada do Setor de Eventos (Perse) pelo clube social, “que resultou na reativação integral dos respectivos débitos tributários”.
