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São Paulo: Cerco a Júlio Casares se fecha, na semana de votação do impeachment

Conselho Deliberativo decidirá na próxima sexta-feira (16) o destino do presidente do Tricolor, que viu base de sustentação derreter em meio a denúncias

O presidente do São Paulo, Júlio Casares, durante a comemoração de seu aniversário, em 2025 - Reprodução / Instagram (@juliocasares_sp)

O torcedor do São Paulo que ligou a TV na noite do último domingo (12) teve a oportunidade de sofrer intensamente com o clube, em dois canais diferentes. Na Record, o são-paulino viu o time do coração ser atropelado por 3 a 0 pelo Mirassol, em sua estreia na Série A1 do Paulistão 2026.

Quase no mesmo horário, o Fantástico, da TV Globo, exibiu uma reportagem que abordou as denúncias envolvendo o presidente do São Paulo, Júlio Casares.

A matéria de destaque em um dos programas de maior audiência da principal emissora aberta do país representa um duro golpe para Casares, em sua luta para permanecer no poder no Tricolor até o fim do ano, quando está previsto o encerramento de seu mandato.

Isto porque a reportagem amplia o alcance das denúncias que são base de um pedido de impeachment contra o cartola, que será votado pelos membros do Conselho Deliberativo do São Paulo na próxima sexta-feira (16), a partir das 18h30 (horário de Brasília).

Aliado de Casares, o presidente do órgão, Olten Ayres de Abreu Junior, realizou manobra regimental que pode dificultar o afastamento do dirigente máximo são-paulino.

Inicialmente, a reunião extraordinária que analisaria o pedido de impeachment estava marcada para ocorrer na quarta-feira (14).

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No novo edital, porém, Abreu Junior especifica que a participação dos conselheiros terá de ser de forma presencial. A oposição defendia que a votação fosse em formado híbrido, por temer que, devido ao período de férias, a reunião possa terminar esvaziada.

Além disso, o percentual mínimo de votos para o afastamento de Casares foi alterado de 70% para 75%. Ou seja, o pedido de impeachment só passará se tiver o apoio de mais de 190 dos 254 conselheiros aptos a participar da escolha (eram 255, mas Mara Casares, ex-esposa do cartola, pediu licença do órgão após ter seu nome envolvido em denúncias sobre negociações irregulares de um camarote durante shows internacionais no Morumbis).

Essa mudança de quórum toma por base o artigo 58 do Estatuto do São Paulo, que exige pelo menos 75% dos votos para que o afastamento seja aprovado.

Já o artigo 112, que seria usado anteriormente, determina que o percentual para aprovação do impeachment é de 70%. Questionado pela imprensa, Abreu Junior disse que a decisão pelo número maior segue o princípio de “In dubio pro reo”, expressão latina que pode ser traduzida como “em dúvida, a favor do réu”.

Na última semana, Casares obteve uma vitória no Conselho Consultivo, composto por 12 associados ilustres e que já ocuparam cargos de relevo na estrutura do clube, como presidência da diretoria ou de algum dos conselhos.

Os chamados cardeais, liderados pelo ex-presidente do São Paulo José Eduardo Mesquita Pimenta, optaram por dar parecer contrário ao pedido de impeachment, alegando não existirem provas materiais de desvio de dinheiro, irregularidades financeiras ou de gestão temerária praticados por Casares.

Dos nove cardeais que participaram da votação, apenas o desembargador José Carlos Ferreira Alves votou a favor do pedido de impeachment.

A decisão do Conselho Consultivo é de caráter opinativo e pode ou não prevalecer na votação de sexta-feira.

Ela indica que, àquela altura, Casares ainda dispunha de certa força política no Morumbis, já que contou com votos favoráveis de diversos ex-presidentes como Carlos Augusto de Barros e Silva (o Leco), Carlos Miguel Aidar, Paulo Amaral e o próprio Mesquita Pimenta.

Outro que votou pela rejeição do impeachment de Casares foi o jurista Ives Gandra Martins, que chegou a ser citado no documento assinado por Mesquita Pimenta.

O texto lembrava que, em casos de impeachment, a destituição de um mandatário tem uma base jurídica inicial, mas que a decisão final é sempre política e depende de o indivíduo apresentar ou não condições de seguir à frente do cargo.

E é justamente aqui que reside o problema de Casares, especialmente depois que as denúncias contra ele furaram a bolha e foram repercutidas na maior emissora do país.

O fator Belmonte

Casares chegou ao poder graças a uma ampla coalizão, que reuniu sete diferentes grupos do Morumbis e que, no auge, contava com cerca de 200 aliados, contra apenas 55 da oposição.

Peça fundamental para a construção dessa coalização, o ex-diretor de futebol Carlos Belmonte chegou a ser visto, inicialmente, como sucessor natural de Casares na próxima eleição presidencial do clube, que ocorrerá no fim deste ano.

Nos últimos meses, porém, a relação dos dois se estremeceu, ao mesmo tempo em que o atual superintendente Márcio Carlomagno ganhou força junto à atual gestão.

No fim do ano passado, Carlomagno ganhou o status de provável ungido por Casares para a disputa presidencial.

A saída de Belmonte, que renunciou ao cargo de diretor de futebol no fim de novembro de 2025, após o São Paulo ser goleado por 6 a 0 pelo Fluminense, pela 36ª rodada da Série A do Brasileirão, precipitou o derretimento político de Casares, situação agravada pelas denúncias que surgem a toda hora contra o presidente são-paulino.

Desde que o tema impeachment ganhou força nos corredores do Tricolor, aumentam os rumores sobre aliados que estariam abandonando o cartola e publicitário.

Dos sete grupos que apoiaram a chapa que elegeu Casares, apenas dois ainda estariam ao lado do dirigente, com um total de 67 conselheiros.

Os outros cinco uniram-se ao grupo de oposição Salve o Tricolor Paulista, que encabeçou o pedido de afastamento do mandatário.

Em tese, os grupos contrários a Júlio Casares contariam com 187 conselheiros, número ainda um pouco abaixo do quórum definido por Olten Ayres de Abreu Junior para a aprovação do pedido de impeachment.

O vice-presidente Harry Massis Junior, que tem 80 anos de idade e integra o grupo Vanguarda, hoje na oposição, declarou ao GE que votará pelo afastamento de Casares. Esse posicionamento indica que a movimentação política tem sido intensa no clube e que o risco de queda é real para o presidente são-paulino.

Se o impeachment passar, Massis Junior assumirá a presidência até o fim do ano, quando será escolhido o novo titular do cargo.

Vale lembrar que a Independente e a Dragões da Real, duas maiores torcidas organizadas do São Paulo, publicaram em suas redes sociais manifestos exigindo a renúncia de Júlio Casares da presidência do Tricolor.

A Independente, inclusive, convocou um protesto que será realizado no Morumbis, no horário da reunião que selará o destino do presidente são-paulino.

As denúncias

A reportagem do Fantástico recuperou informações já trazidas por outros órgãos de imprensa, a respeito da apuração de movimentações financeiras suspeitas ocorridas no São Paulo, com destaque para os R$ 11 milhões em espécie sacados das contas do clube, entre 2021 e 2025.

Segundo a reportagem, o uso de uma empresa especializada em transporte de valores foi algo que chamou a atenção do delegado Thiago Correia, da Polícia Civil de São Paulo, responsável pela investigação.

Na visão do delegado, a situação, em que os funcionários da empresa de carros-fortes retira o dinheiro do clube diretamente na boca do caixa, poderia tornar os recursos mais difíceis de ser rastreados pelas autoridades.

A matéria também abordou os depósitos em dinheiro, totalizando R$ 1,5 milhão, feitos na conta pessoal do dirigente são-paulino.

Essas movimentações despertaram a atenção do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf).

Ao Fantástico, o advogado do São Paulo disse que o clube não é alvo de investigação e alegou que todos os recursos sacados foram usados para cobrir gastos do próprio clube no dia a dia.

A defesa de Casares, por sua vez, sustenta que os depósitos não têm relação com os saques feitos na conta do clube e lembra que, antes de assumir a presidência do Tricolor, ele havia construído uma carreira de sucesso no mercado publicitário, com passagens por grandes empresas.

Esse posicionamento já havia sido divulgado na semana passada, nas redes sociais do cartola, quando surgiram as primeiras notícias envolvendo os depósitos que somavam R$ 1,5 milhão. Um detalhe curioso é que Casares desabilitou os comentários em seu perfil pessoal no Instagram, onde vinha recebendo críticas ferozes de torcedores.

Segundo a reportagem da TV Globo, a Polícia Civil também apura a conduta do ex-diretor adjunto Nelson Marques Ferreira, mais conhecido como Nelsinho e que deixou a gestão do clube em novembro do ano passado, juntamente de Belmonte e de Fernando Bracalle Ambrogi, mais conhecido como Chapecó, que hoje são nomes de peso na oposição a Casares.

O ex-dirigente teria criado 15 franquias e 15 empresas em shoppings centers, no período de 2022 a 2023. O caso da comercialização irregular do camarote do Morumbis, que envolve os ex-diretores Mara Casares e Douglas Schwartzmann, também foi citado na matéria.