“Superastros” do futebol adotam estratégia de esperar fim do contrato para trocar de clube

Nas últimas décadas, tornaram-se recorrentes, na mídia esportiva, as comparações entre Lionel Messi e Cristiano Ronaldo, até pelo fato dos dois serem os principais astros do futebol na atualidade. Quantidade de gols, de Bolas de Ouro ou de títulos, tudo acabava sendo pesado nas balanças dos analistas. Existe um aspecto, porém, em que os dois se igualam.

Ambos trocaram de clube recentemente, sem deixarem (em tese, pois discutiremos melhor esse aspecto mais adiante) nenhum centavo aos seus ex-empregadores. No caso de Cristiano Ronaldo, o rompimento com o Manchester United (equipe que o projetou globalmente na primeira década deste milênio) ocorreu em meio à Copa do Mundo do Catar, no ano passado, quando a principal estrela da seleção portuguesa amargava o banco de reservas na competição.

Clube e jogador chegaram a um acordo e deram fim ao contrato, fato que livrou o Al-Nassr, da Arábia Saudita, de pagar uma multa rescisória pelo craque. O Manchester United havia desembolsado € 15 milhões à Juventus, da Itália, para trazer o atacante. A equipe italiana, por sua vez, investiu em torno de € 100 milhões (R$ 542 milhões, pela cotação atual) na contratação do português, em 2018, junto ao Real Madrid.

Numa conta simplista, considerando valores pagos na compra e na venda, a impressão que fica é de que, a cada transferência, Cristiano Ronaldo acabou deixando um rastro de prejuízo nessas contratações recentes. Mas o cálculo é equivocado, ou, pelo menos, enviesado, além de não poder ser aplicado a todos os casos.

Clubes muitas vezes lucram

A análise da carreira de Messi, principal “rival” de CR7 na era atual, ilustra o quanto outros fatores precisam ser levados em conta na análise das transferências de superastros. Em 2021, em meio à pandemia de Covid-19, diversas potências do futebol europeu tiveram suas receitas abaladas pelo fechamento dos estádios e a suspensão das competições.

O Barcelona, clube que formou e revelou o craque ao mundo (tendo, inclusive, custeado o tratamento hormonal na adolescência, que permitiu a ele crescer e tornar-se atleta profissional), já vinha de um processo de corrosão de suas finanças e passou a buscar, desesperadamente, formas de reduzir em € 300 milhões os seus gastos anuais.

Justamente naquele ano, o diário espanhol El Mundo estampou em sua capa a manchete trazendo a soma dos valores que seriam pagos pelo Barcelona ao argentino pelo contrato firmado em 2017 e qualificado pelo jornal como “faraônico”. A quantia ultrapassaria € 550 milhões e foi descrita como responsável por “arruinar o Barça”.

O acordo noticiado pelo jornal previa o pagamento de € 138 milhões por temporada, entre valores fixos e variáveis. Haveria ainda dois prêmios, sendo um pela renovação do contrato, na quantia de € 115,2 milhões, e outro de € 78 milhões, numa cláusula de fidelidade.

A situação, tratada como escândalo por quem divulgou a notícia, serviu de argumento para que o clube catalão desse adeus ao seu maior ídolo em todos os tempos. A história de amor tão admirada acabou morrendo assim, sem foguete, sem luar e sem violão. No fim, só restaram alguns retratos e um “bilhete”, publicados pelo argentino em suas redes sociais, lamentando o desfecho.

Na época em que a polêmica se instalou, porém, os especialistas em finanças e economia Marc Ciria, Ivan Cabeza e Josep Fabra (próximos ao Barcelona) resolveram realizar um estudo para analisar os reais impactos de Messi nas contas do clube, a partir do contrato firmado em 2017 e encerrado em 2021.

Eles chegaram à conclusão de que aquele acordo com Messi havia custado, de fato, € 383 milhões aos cofres do Barcelona. Em contrapartida, o camisa 10 havia gerado receitas de quase € 620 milhões no período, sendo responsável por 30% de todo o faturamento dos catalães durante os quatro anos em que o vínculo empregatício vigorou.

Isso porque, na época em que o casamento com “La Pulga” estava em seu auge, a equipe impunha a patrocinadores e parceiros um dispositivo que acabou sendo apelidado de “Cláusula Messi” e garantia preços maiores em contratos que envolvessem a imagem do jogador. A diferença a mais poderia chegar a 50% em alguns casos. À época, o jogador argentino também respondia por 80% das vendas de camisas do Barcelona.

Bônus de transferência

Ao liberar Messi (que, para permanecer na Catalunha, teria de aceitar uma redução de 40% em seus rendimentos), o Barcelona obteve, de maneira momentânea, o alívio de € 300 milhões em suas contas. O craque, em contrapartida, levou uma bolada de € 30 milhões para assinar com o PSG, da França, a título de bônus de transferência. Atualmente, o argentino joga pelo Inter Miami, depois de também deixar o time de Paris no fim do contrato.

O pagamento do bônus de transferência já existia no meio do futebol, porém acabou por ser institucionalizado a partir da pandemia de Covid-19, como forma de compensação pelo congelamento ou mesmo a redução dos salários dos atletas naquele período.

Em vez de pagarem ao clube de origem pela quebra de um acordo em vigor, os contratantes passaram a optar por jogadores sem vínculo, tendo de arcar, dessa forma, com uma quantia menor, destinada diretamente aos atletas ou aos seus agentes e familiares.

Vale lembrar que as novas regras da Federação Internacional de Futebol (Fifa) para os agentes, que entrou em vigor neste ano, estabelece tetos para as comissões nas transações de jogadores, sendo de até 3% (para negociações com salários acima de US$ 200 mil), e de 5% (para contratos abaixo desse limite). A entidade também retomou a obrigatoriedade de licença para o exercício da atividade, exigência que havia sido abolida em 2015.

De acordo com números divulgados pela própria Fifa, as comissões pagas a agentes nas transações de jogadores movimentaram US$ 622,8 milhões no ano passado, o que representa um aumento de 24,3% em comparação a 2021. Com as novas limitações impostas pela entidade, os empresários não poderão mais cobrar para levar um atleta “de graça” para outro clube a partir de outubro deste ano.

Mbappé

Artilheiro da última Copa do Mundo (ele já havia sido o grande destaque do Mundial anterior, vencido pela França) e principal estrela do PSG na atualidade, Kylian Mbappé é outro que deixará seu clube na saudade, em diversos sentidos, dentro de alguns meses.

No ano passado, o atacante sofreu uma forte investida por parte do Real Madrid, que tentou levar o craque para a Espanha. Um reajuste estratosférico oferecido pela equipe de Paris, com salários anuais de € 72 milhões (ou € 60 milhões livres de impostos), aliado a um bônus na casa dos € 100 milhões pela renovação, acabaram por convencer o jogador a permanecer na França.

O contrato tem dois anos de duração, mas possui uma cláusula de renovação por mais uma temporada, que poderia ou não ser acionada pelo atacante. Mbappé optou pela segunda opção (e também não quis saber de ser negociado com outro clube neste momento), de modo que, permanecendo em Paris pelos próximos quatro meses, ele poderá sair “de graça” do PSG em janeiro de 2024. O destino mais provável é o Real Madrid, que deverá pagar um bônus de transferência considerável ao craque.

Atualmente, o valor de mercado do atacante é avaliado pela plataforma Transfermarkt em € 180 milhões, justamente a quantia paga pela equipe de Paris ao Monaco para contratá-lo de maneira definitiva em 2018. Por conta da recusa do atleta em renovar o contrato até 2025, o PSG chegou a afastá-lo do elenco por alguns dias. Na semana passada, no entanto, ele foi reintegrado.

Recentemente, o PSG fechou um negócio de € 100 milhões com a venda dos direitos federativos do brasileiro Neymar para o Al-Hilal, da Arábia Saudita. Contratado junto ao Barcelona em 2017, o atacante custou € 222 milhões ao time francês. Esse contrato duraria até 2027.

Os impactos do fim das relações com esses atletas vai muito além da comparação entre o que foi gasto nas contratações e o que deixou ou não de ser faturado nas vendas.

A curto e médio prazo, tanto o PSG quanto a própria Ligue 1, a primeira divisão do futebol profissional da França, terão sérias dificuldades em suprir a notoriedade que esses astros conferiam ao seu “produto”. É um problema que tende a ficar ainda mais evidente quando Mbappé der seu adeus derradeiro, no início do ano que vem.

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